Resumo
- O gorgulho-da-cana (Sphenophorus levis) é um besouro de 12 a 15 mm que ataca o rizoma da cana-de-açúcar e compromete a rebrota da soqueira.
- Sua larva branca vive de 30 a 60 dias dentro do rizoma abrindo galerias, enquanto o adulto noturno quase não voa e se dispersa por mudas infestadas.
- Não é venenoso nem pica pessoas, mas é praga agrícola séria no Sudeste e Centro-Oeste, controlada com manejo de soqueira, mudas sadias e controle biológico.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Coleoptera |
|---|---|
| Família | Curculionidae |
| Origem e distribuição | América do Sul, praga restrita a canaviais do Brasil |
| Tamanho | 12 a 15 mm de comprimento (adulto) |
| Cores | pretomarrom-escuro |
| Asas e voo | Possui asas, voo curto e raro, dispersão a pé |
| Alimentação | Fitófago, larva e adulto se alimentam de rizoma de cana-de-açúcar |
| Metamorfose | Completa (ovo, larva, pupa e adulto) |
| Expectativa de vida | Adulto vive 60 a 120 dias; ciclo total 60 a 90 dias |
| Habitat | Interior do rizoma e base do colmo da cana-de-açúcar |
| Comportamento social | Solitário, noturno, faz tanatose quando tocado |
| Principais predadores | Nematoides entomopatogênicos, fungos Beauveria e aves |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Muito baixo |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Baixo |
Como identificar o gorgulho-da-cana sem confundir com a broca
O adulto de Sphenophorus levis é um besouro preto fosco de 12 a 15 mm, com corpo oval e alongado e um bico (rostro) bem evidente na frente da cabeça.
As larvas são completamente diferentes: brancas, ápodas, em forma de C, com cabeça marrom-clara e até 12 mm quando totalmente desenvolvidas. Ficam escondidas dentro do rizoma, por isso o produtor só vê o estrago.
A confusão mais comum é com a broca-da-cana (Diatraea saccharalis). A diferença é simples: a broca é uma lagarta que fura o colmo acima do solo e deixa serragem, enquanto o gorgulho é um besouro que ataca o rizoma subterrâneo e deixa galerias irregulares e podridão na base.
Outro sinal típico é o adulto fingir de morto. Ao ser tocado, ele recolhe as pernas e fica imóvel por segundos, comportamento chamado tanatose, comum em curculionídeos.
Onde vive e por que é tão restrito à cana
O gorgulho-da-cana ocorre quase exclusivamente em canaviais de cana-de-açúcar (Saccharum spp.). É uma praga altamente específica, sem hospedeiros alternativos relevantes.
No Brasil, está concentrado no Centro-Sul, principalmente São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, onde está mais de 80% da área de cana. Foi registrado pela primeira vez no país na década de 1970 e se espalhou com o transporte de mudas.
Vive no solo, na base da touceira. O adulto se abriga em restos de colheita e no próprio rizoma durante o dia e sai à noite para se alimentar e acasalar. Por voar muito pouco, a dispersão natural é de poucos metros.
A principal forma de disseminação a longa distância é humana: mudas e toletes infestados levados para novas áreas. Por isso a praga avança em manchas, não em revoada.
O que o gorgulho come e como destrói a soqueira por dentro
Tanto larva quanto adulto são fitófagos obrigatórios de rizoma. A larva é a fase mais destrutiva: ela escava galerias internas que destroem as gemas de rebrota.
Um rizoma atacado fica com túneis irregulares, tecido escurecido e cheiro de podridão por entrada de fungos e bactérias. A planta perde vigor, falha na brotação e morre em reboleiras.
O adulto também se alimenta, raspando a base do colmo e o rizoma, mas o dano maior é indireto: a fêmea faz um pequeno orifício com o rostro e deposita um ovo por vez dentro do tecido.
- Dano invisível: por ser subterrâneo, só aparece quando a soqueira já falhou.
- Redução de longevidade: canaviais infestados duram 2 a 3 cortes a menos.
- Perda de perfilhos: até 60% menos brotos em touceiras muito atacadas, segundo levantamentos de campo.
Ciclo de vida completo dentro do rizoma
O gorgulho tem metamorfose completa e passa quase toda a vida escondido. A fêmea põe 40 a 70 ovos ao longo da vida, isolados dentro do rizoma.
O ciclo dura em média 60 a 90 dias, variando com temperatura e umidade:
- Ovo: 7 a 12 dias, branco-amarelado, dentro do rizoma.
- Larva: 30 a 60 dias, 5 ínstares, alimentando-se e abrindo galerias.
- Pupa: 8 a 15 dias, dentro de uma câmara no próprio rizoma.
- Adulto: vive 60 a 120 dias, sai à noite e reinicia o ciclo.
Em São Paulo, há duas a três gerações por ano, com pico populacional na estação chuvosa e quente. Na seca e no frio, o desenvolvimento atrasa e muitos indivíduos permanecem como larva ou adulto dormente no solo.
Como não há fase livre exposta, inseticida foliar não atinge a larva. É por isso que o manejo precisa ser preventivo, na entressafra.
Comportamento: por que ele quase não voa e prefere a noite
O gorgulho-da-cana é noturno, solitário e pouco móvel. Durante o dia fica abrigado sob palha ou dentro do rizoma.
Apesar de ter asas membranosas sob os élitros, voa raramente e por distâncias curtas, geralmente abaixo de 50 metros. A locomoção principal é caminhando pelo solo entre touceiras vizinhas.
Essa baixa mobilidade explica por que a infestação forma reboleiras circulares que crescem lentamente a cada safra, em vez de se espalhar rapidamente como pulgões ou cigarrinhas.
Quando perturbado, além da tanatose, libera odor fraco e se enterra. É sensível à luz e ao ressecamento, por isso palhada excessiva e solo úmido favorecem sua sobrevivência.
Pica, morde ou é venenoso? Riscos para pessoas e pets
Não pica, não morde e não é venenoso. O aparelho bucal é mastigador adaptado para roer tecido vegetal, não para perfurar pele.
Contato acidental com a pele não causa alergia relevante. Ingestão por cachorro, gato ou galinha que ciscam no canavial também não oferece risco toxicológico, embora não seja alimento.
O único risco indireto é para quem trabalha no canavial e tenta controlar a praga sem EPI ao aplicar produtos químicos. Nesse caso, o perigo vem do manejo químico inadequado, não do inseto.
Se encontrar um besouro preto de bico em casa, provavelmente não é o gorgulho-da-cana, que raramente entra em residências. Lave as mãos após manusear e solte o inseto longe.
É praga ou tem algum benefício? O impacto econômico real
É praga agrícola exclusiva, sem benefício ecológico ou econômico conhecido. Não poliniza, não controla outras pragas e não serve como alimento em escala.
O prejuízo vem da morte da soqueira. Cada rizoma destruído significa menos colmos na safra seguinte e necessidade de reforma antecipada do canavial, que custa caro.
Em áreas com alta infestação, levantamentos da Embrapa e do Instituto Biológico apontam perdas de 20 a 30 toneladas de cana por hectare e redução de até 30% na produtividade ao longo dos cortes.
| Dano observado | O que indica |
|---|---|
| Falhas de brotação em reboleira | Ataque concentrado no rizoma |
| Rizoma com galerias e podridão | Larvas ativas na safra anterior |
| Touceira que arranca fácil do solo | Sistema radicular destruído |
Por ser silencioso, muitos produtores só percebem o problema no segundo ou terceiro corte, quando a soqueira já não rebrota.
Como lidar e prevenir sem veneno desnecessário
Não existe controle curativo eficiente com a cana já crescida. O manejo é integrado e focado na renovação do canavial.
As medidas mais eficazes, recomendadas pela pesquisa agrícola, são:
- Mudas sadias: use viveiros certificados e inspecione toletes; nunca transporte mudas de área infestada.
- Destruição da soqueira: aração profunda e catação de rizomas na reforma expõe larvas e pupas ao sol e a predadores.
- Rotação de cultura: 12 a 18 meses com soja, amendoim ou crotalária quebra o ciclo, pois o inseto não sobrevive sem cana.
- Controle biológico: aplicação de nematoides Steinernema e Heterorhabditis e fungo Beauveria bassiana no sulco de plantio atinge larvas no solo.
- Monitoramento com isca: toletes de cana cortados como isca no solo atraem adultos à noite e permitem avaliar a infestação antes do plantio.
Evite aplicar inseticida foliar por conta própria. Além de não atingir a larva dentro do rizoma, afeta inimigos naturais. Qualquer uso químico deve ter receita agronômica e orientação técnica.
Curiosidades que pouca gente sabe sobre o gorgulho-da-cana
Apesar de ser uma praga conhecida no campo, o gorgulho tem detalhes pouco divulgados fora da entomologia agrícola.
Ele pertence ao mesmo grupo dos gorgulhos de grãos armazenados, mas evoluiu para viver exclusivamente no solo, perdendo o hábito de voar longas distâncias. É um exemplo de especialização extrema.
Outro ponto curioso é que a fêmea veda o orifício do ovo com uma secreção que escurece e protege o ovo contra dessecação e inimigos naturais, dificultando a detecção.
Por fim, o controle com nematoides, hoje uma das táticas mais promissoras, só funciona se o solo estiver úmido. Em solo seco, os nematoides não se deslocam até a larva, por isso a época de aplicação coincide com o início das chuvas.
Perguntas frequentes
Gorgulho-da-cana pica ou morde gente?
Não. Ele tem aparelho bucal mastigador para roer rizoma e não consegue picar ou morder pessoas e pets.
Como saber se meu canavial tem gorgulho-da-cana?
Observe falhas de rebrota em reboleiras e arranque touceiras fracas: rizomas com galerias internas, escuros e podres indicam a praga.
Qual a diferença entre gorgulho-da-cana e broca-da-cana?
O gorgulho (Sphenophorus levis) é um besouro que ataca o rizoma subterrâneo; a broca (Diatraea saccharalis) é uma lagarta que fura o colmo acima do solo.
Como o gorgulho se espalha se quase não voa?
Principalmente pelo transporte de mudas e toletes infestados. A dispersão natural caminhando é de poucos metros.
Tem como controlar sem veneno?
Sim. As táticas mais eficazes são destruição da soqueira na reforma, rotação com soja ou amendoim e controle biológico com nematoides e Beauveria.
Gorgulho-da-cana ataca outras plantas além da cana?
Não de forma relevante. É altamente específico de cana-de-açúcar e não sobrevive bem sem ela.
Você sabia?
Finge de morto por minutos
Quando tocado, o adulto entra em tanatose, fica imóvel de pernas encolhidas e só volta a andar depois que o perigo passa.
Um ovo por furo, bem escondido
A fêmea perfura o rizoma com o bico, deposita um único ovo e sela o orifício com secreção escura, quase invisível a olho nu.
Quase não voa
Mesmo com asas, raramente voa mais que alguns metros; a praga se espalha principalmente via mudas infestadas transportadas por caminhões.
Vive dentro da planta
Larva, pupa e parte da vida adulta acontecem dentro do rizoma, por isso inseticida foliar não alcança a fase que mais causa dano.










