Resumo
- A traça-da-cera é a mariposa Galleria mellonella, cujo adulto não se alimenta e cuja larva se desenvolve comendo cera, mel e pólen dentro de colmeias.
- Tem metamorfose completa e ciclo de 6 a 8 semanas em temperatura de 29 a 35 °C, com fêmeas que podem pôr de 300 a 1.800 ovos.
- Não oferece risco direto para pessoas e pets, mas é praga séria para apicultura e, ao mesmo tempo, útil como alimento vivo e objeto de pesquisa sobre degradação de plástico.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Lepidoptera |
|---|---|
| Família | Pyralidae |
| Origem e distribuição | Eurásia; hoje cosmopolita, presente em todo o Brasil |
| Tamanho | Adulto 13 a 19 mm de corpo, envergadura 30 a 41 mm; larva até 28 mm |
| Cores | cinzamarrom-acinzentadobegecreme (larva esbranquiçada) |
| Asas e voo | Dois pares de asas, voo noturno curto, baixo e desajeitado |
| Alimentação | Larva: cera de abelha, mel, pólen, própolis e exúvias; adulto não se alimenta ou consome apenas líquidos |
| Metamorfose | Completa (ovo > larva > pupa > adulto) |
| Expectativa de vida | Ovo 5 a 8 dias; larva 3 a 5 semanas; pupa 7 a 14 dias; adulto 12 a 21 dias |
| Habitat | Interior de colmeias de Apis mellifera, ninhos abandonados e cera armazenada |
| Comportamento social | Adulto solitário; larvas gregárias em galerias de seda |
| Principais predadores | Aves, morcegos, vespas, formigas e as próprias abelhas operárias |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Médio |
| Presença em casas | Baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às colmeias e cera armazenada | Muito alto |
| Vida em grupo | Médio |
Como identificar a traça-da-cera sem confundir
A traça-da-cera adulta mais comum é a Galleria mellonella, de corpo robusto e asas em telhado quando pousada. A coloração varia de cinza-acinzentado a marrom-bege, com a margem anterior das asas mais escura e o centro mais claro.
A segunda espécie é a Achroia grisella, a traça-da-cera-pequena, com apenas 10 a 13 mm de envergadura e cor amarelo-acinzentada. Na prática apícola, as duas causam o mesmo tipo de dano, mas a Galleria é maior e mais destrutiva.
A larva é inconfundível: branco-creme, cabeça marrom-escura, corpo mole com 16 pernas e até 28 mm quando bem alimentada. Ela tece túneis de seda branca acinzentada sobre o favo, deixando fezes escuras e granuladas parecidas com serragem.
| Característica | Galleria mellonella (grande) | Achroia grisella (pequena) |
|---|---|---|
| Tamanho adulto | 13 a 19 mm, envergadura 30 a 41 mm | 8 a 11 mm, envergadura 10 a 13 mm |
| Cor | Cinza a marrom-acinzentado | Amarelo-palha a cinza-claro |
| Larva | Até 28 mm, muito ativa | Até 16 mm, mais delgada |
| Dano | Galerias largas que destroem cria e mel | Galerias finas, prefere cera mais escura |
Onde vive e por que aparece no apiário
Originária da Eurásia, a traça-da-cera hoje é cosmopolita e ocorre em todos os estados do Brasil, de áreas urbanas a zonas rurais. Ela não vive em jardins ou lavouras, e sim exclusivamente associada a abelhas do gênero Apis.
Na natureza ocupa ocos de árvores com ninhos abandonados. Na apicultura, prefere colmeias fracas, órfãs ou com manejo falho e, sobretudo, quadros de cera armazenados em galpões escuros e abafados.
O adulto é noturno e entra na colmeia ao entardecer, guiado pelo cheiro de cera e mel. Como voa mal e é pesado, raramente é visto longe do apiário, o que explica por que muita gente só descobre a infestação quando abre a caixa.
O que a larva come de verdade
A dieta natural é cera de abelha, pólen, própolis, mel residual e exúvias de larvas de abelha. A cera sozinha é pobre em proteína, por isso a larva busca favos escuros, já usados para cria, que são mais nutritivos.
O adulto praticamente não se alimenta. Vive de reservas acumuladas na fase larval e, no máximo, suga um pouco de mel ou água. Por isso toda a destruição é feita pela larva.
Em laboratório, larvas de Galleria conseguem roer e fragmentar polietileno, o plástico de sacolas. O fenômeno é real e mediado por bactérias do intestino e enzimas salivares, mas a taxa é baixíssima, cerca de 0,88 mg por larva por hora, sem aplicação prática para reciclagem em larga escala. Não é solução caseira para lixo plástico.
Ciclo de vida e reprodução: rápido e explosivo
A traça-da-cera tem metamorfose completa e ciclo muito dependente de temperatura. A 30 a 35 °C, vai de ovo a adulto em 6 a 8 semanas; abaixo de 15 °C o desenvolvimento quase para.
A fêmea põe 300 a 1.800 ovos em grupos, em frestas da colmeia, sobre a cera ou em detritos do fundo. Os ovos são brancos, minúsculos e eclodem em 5 a 8 dias.
A fase larval dura 18 a 35 dias e tem 7 instares. A larva tece galerias de seda que protegem do ataque das abelhas e onde empupa. A pupa, marrom-clara, fica envolta em casulo branco e dura 7 a 14 dias até emergir o adulto.
Por que a infestação explode tão rápido
Uma única fêmea pode originar milhares de descendentes em um mês e meio. Em galpão com cera armazenada sem ventilação, a sobreposição de gerações cria uma massa de larvas que consome quadros inteiros e deixa apenas teias e fezes.
Comportamento: voo, seda e defesa química
O adulto voa pouco, em zigue-zague baixo, e é atraído por luz fraca. Machos de Galleria produzem cantos ultrassônicos a 75 kHz para atrair fêmeas, um dos sons mais agudos entre mariposas.
As larvas são gregárias e cooperam indiretamente: ao tecerem seda, criam uma rede que isola as abelhas operárias e impede a limpeza do favo. Essa barreira de seda é o principal mecanismo de defesa contra o comportamento higiênico das abelhas.
Quando perturbada, a larva mais velha pode morder levemente, mas sem veneno. O adulto, se manipulado, libera um odor adocicado de cera e mel e finge-se de morto por alguns segundos.
Pica ou é venenosa? Riscos para pessoas e pets
A traça-da-cera não pica, não morde com importância médica, não tem ferrão e não possui veneno. Não transmite doenças e não ataca alimentos humanos, roupas ou madeira, diferente de traças de roupa ou de grãos.
Para cachorros, gatos e aves, a larva é inclusive usada como petisco vivo, rica em gordura. O risco é apenas indireto: larvas criadas sem higiene podem carregar esporos de fungos ou bactérias da colmeia, por isso criações comerciais seguem dieta controlada.
Em pessoas alérgicas a abelhas, o contato com grande quantidade de detritos da traça em apiários pode causar irritação respiratória por poeira e mofo, não por toxina do inseto. Em caso de falta de ar após manejo de favos mofados, procure atendimento.
Praga ou útil? O duplo papel da espécie
Na apicultura, é praga secundária grave. Colmeias fortes e bem povoadas controlam a traça sozinhas, mas colmeias fracas, enxames recém-capturados e cera estocada são rapidamente destruídos. O prejuízo é perda de favos, contaminação do mel com teia e fezes e abandono da caixa pelas abelhas.
Fora do apiário, tem papel útil. É alimento vivo padrão para criação de répteis, anfíbios, peixes ornamentais e pássaros insetívoros, por ser macia, calórica e fácil de criar. Também é modelo de laboratório para estudos de imunidade de insetos, pois sua hemolinfa reage de forma semelhante à de mamíferos a infecções.
Na pesquisa ambiental, o interesse é a biodegradação de polietileno. Desde 2017, grupos europeus isolaram enzimas salivares capazes de oxidar o plástico em horas, mas ainda sem viabilidade industrial. Na nossa avaliação, tratar a traça como “solução para o plástico” é exagero midiático; o valor real está no estudo bioquímico, não na criação doméstica para reciclar sacolas.
Como prevenir e controlar sem acabar com as abelhas
O controle começa no manejo das abelhas, não no veneno. Mantenha colmeias fortes, com rainha jovem e alimento suficiente, reduza o alvado em colmeias fracas e retire quadros velhos e escuros que atraem postura.
Para cera armazenada, as medidas mais eficazes são físicas:
- Ventilação e luz: empilhe quadros com espaço entre eles, em local claro e arejado. A traça prefere escuro e abafado.
- Frio: congele quadros infestados por 48 horas a -15 °C para matar ovos, larvas e pupas. É o método mais seguro para pequenos apiários.
- Calor controlado: em regiões frias, expor quadros a 45 °C por 80 minutos também elimina formas jovens, mas pode deformar a cera.
- Bacillus thuringiensis var. aizawai: bactéria seletiva para lagartas de mariposas, autorizada em apicultura orgânica em alguns países, que não afeta abelhas adultas quando aplicada corretamente na cera armazenada.
Evite inseticidas químicos dentro da colmeia ou no galpão de mel. Além de contaminar o mel e matar abelhas, deixam resíduos na cera por anos. Se a infestação já tomou o favo, descarte a cera derretendo e filtrando, e queime os resíduos com teia pesada.
Curiosidades que distinguem a traça-da-cera
Diferente da maioria das mariposas, a traça-da-cera consegue entrar em colmeias ativas sem ser imediatamente expulsa porque sua cutícula mimetiza quimicamente os hidrocarbonetos da abelha, confundindo as guardiãs por alguns minutos.
Em 2022, pesquisadores espanhóis demonstraram que a saliva da larva contém as enzimas Ceres e Demetra, capazes de quebrar ligações de polietileno em temperatura ambiente, algo que nenhum outro inseto faz na mesma velocidade.
Apicultores experientes identificam infestação inicial pelo cheiro rançoso de cera fermentada e por pequenos grânulos pretos no fundo da caixa, antes mesmo de ver as larvas. Esse sinal precoce evita a perda total dos quadros.
Perguntas frequentes
Traça-da-cera pica ou morde gente?
Não. O adulto não tem ferrão nem aparelho para picar e a larva só morde cera. Não há veneno nem risco de picada.
Traça-da-cera aparece dentro de casa?
Só se você guarda quadros com cera de abelha ou cria larvas como alimento vivo. Ela não ataca roupa, tapete ou alimentos da despensa.
Como acabar com traça-da-cera na colmeia?
Fortaleça a colmeia, reduza o espaço interno e retire favos velhos. Para cera guardada, congele os quadros por 48 horas a -15 °C e mantenha o armazenamento claro e ventilado.
Traça-da-cera come plástico de verdade?
Em laboratório, a larva fragmenta polietileno com ajuda de enzimas salivares, mas em quantidade mínima e sem utilidade doméstica para reciclagem.
Qual a diferença entre Galleria mellonella e Achroia grisella?
Galleria é a traça-da-cera-grande (30 a 41 mm de envergadura) e mais destrutiva; Achroia é a pequena (10 a 13 mm), mais clara e com galerias mais finas.
Posso criar traça-da-cera para alimentar répteis?
Sim, é uma das larvas mais usadas como alimento vivo. A criação exige higiene, temperatura de 28 a 30 °C e dieta à base de farelo, mel e cera, para evitar fungos.
Você sabia?
Canto ultrassônico inaudível
O macho de Galleria mellonella canta a 75 kHz para atrair a fêmea, frequência acima da audição humana e até de muitos morcegos, uma das mais altas entre mariposas.
Finge ser abelha quimicamente
A larva e o adulto carregam hidrocarbonetos cuticulares parecidos com os das abelhas, o que atrasa o reconhecimento pelas operárias guardiãs e facilita a invasão.
Saliva que ataca plástico
Em 2022 foram identificadas na saliva as enzimas Ceres e Demetra, que oxidam polietileno em horas a temperatura ambiente, sem precisar de pré-tratamento.
Adulto que não come
A mariposa adulta vive de 12 a 21 dias sem se alimentar de forma relevante, apenas de reservas de gordura acumuladas quando era larva.










