Resumo
- A lagosta-do-maine é um crustáceo de garras do Atlântico Noroeste que atinge 20 a 64 cm e até 20 kg, com coloração marrom-esverdeada e duas garras diferentes.
- Vive em fundos rochosos e frios entre 4 e 700 metros, é onívora oportunista e tem crescimento lento por mudas, com fêmeas que carregam milhares de ovos por até 11 meses.
- É classificada como Pouco Preocupante pela IUCN, mas depende de manejo rigoroso de pesca, tamanho mínimo e proteção de fêmeas ovadas para se manter estável.
Características
Ficha da espécie
| Grupo | crustáceo |
|---|---|
| Ordem | Decapoda |
| Família | Nephropidae |
| Origem e distribuição | Atlântico Noroeste, de Labrador (Canadá) à Carolina do Norte (EUA) |
| Tamanho | 20 a 64 cm de comprimento total; carapaça 7 a 15 cm |
| Peso | 0,5 a 4 kg em adultos; recorde 20,14 kg |
| Cores | marrom-esverdeadopreto-esverdeadolaranja-acastanhadoraramente azulamarelo ou branco |
| Profundidade | 0 a 700 m, mais comum entre 4 e 50 m |
| Habitat | fundos rochosos, cascalho, lodo com tocas e fendas |
| Alimentação | onívora oportunista (moluscos, caranguejos, peixes, ouriços, algas) |
| Reprodução | ovípara; fêmea incuba 7.000 a 100.000 ovos por 9 a 11 meses |
| Expectativa de vida | 50 a 100 anos na natureza |
| Estado de conservação | Pouco Preocupante (LC) - IUCN |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Sociabilidade | Baixo |
| Inteligência | Médio |
| Velocidade | Baixo |
| Capacidade de migração | Baixo |
| Importância para o ecossistema marinho | Alto |
Como identificar a lagosta-do-maine sem confundir
A lagosta-do-maine é Homarus americanus, a lagosta de garras do Atlântico americano. O corpo é alongado, com carapaça lisa e rostro curto com espinhos laterais.
O detalhe que não falha são as duas garras grandes e diferentes. Uma é a garra esmagadora, mais grossa e com dentes arredondados para quebrar conchas. A outra é a cortadora, mais fina e com dentes afiados para rasgar carne.
A cor em vida é marrom-esverdeada a quase preta, às vezes com tons avermelhados nas pernas. O vermelho vivo só aparece depois de cozida, pela liberação da astaxantina. Exemplares azuis, amarelos ou brancos existem, mas são raríssimos e ligados a mutações genéticas.
Não confunda com a lagosta-europeia (Homarus gammarus), que é menor e tem coloração mais azulada, nem com lagostas-espinhosas (família Palinuridae), que não têm garras grandes e sim antenas muito longas.
| Característica | Lagosta-do-maine | Lagosta-europeia |
|---|---|---|
| Garras | Duas, enormes e assimétricas | Duas, assimétricas, ligeiramente menores |
| Rostro | Com espinhos ventrais | Sem espinhos ventrais |
| Cor natural | Marrom-esverdeado escuro | Azul-escuro a preto-azulado |
| Tamanho máximo | Até 64 cm e 20 kg | Até 60 cm e 9 kg |
Onde vive e em que profundidade ela realmente fica
A distribuição natural vai de Labrador, no Canadá, até a Carolina do Norte, nos EUA, com maior abundância no Golfo do Maine, Nova Escócia e Massachusetts.
Prefere água fria, entre 12 e 18 °C. Por isso é mais costeira no norte e mais profunda no sul, onde busca águas frias no verão.
O habitat típico é fundo consolidado: rochas, cascalho, recifes e áreas com lama onde escava tocas. Filhotes e juvenis se escondem em fendas e entre pedras para escapar de predadores.
Na maior parte do ano fica entre 4 e 50 metros. No inverno, parte da população migra para áreas mais profundas, de 100 a 400 metros, e pode chegar a 700 metros em registros extremos. Essa movimentação é curta, não é migração oceânica de longa distância.
O que come e como caça no fundo do mar
É onívora oportunista e necrófaga. Não é caçadora veloz, mas sim uma forrageadora noturna que usa olfato e tato para achar alimento.
A dieta inclui mexilhões, amêijoas, caranguejos, ouriços-do-mar, poliquetas, peixes mortos e algas. Em áreas onde o ouriço é abundante, ela ajuda a controlar a população e protege florestas de algas kelp.
As garras fazem o trabalho pesado. A cortadora segura e a esmagadora quebra. As peças bucais trituram e os pereiópodes levam o alimento à boca. Consegue quebrar conchas grossas com força de mais de 100 kg por cm² na garra esmagadora.
Em armadilhas de pesca, é atraída por iscas de peixe oleoso como arenque. Na natureza, também se alimenta de detritos, o que a torna importante recicladora do fundo marinho.
Reprodução e ciclo de vida: por que cresce tão devagar
O acasalamento ocorre logo após a fêmea fazer a muda, quando a carapaça ainda está mole. O macho deposita um espermatóforo e a fêmea pode armazenar o esperma por até 15 meses antes de fertilizar os ovos.
A fertilização é externa. A fêmea libera de 7.000 a mais de 100.000 ovos conforme o tamanho, e os carrega grudados nos pleópodes sob a cauda por 9 a 11 meses. Durante todo esse período ela é chamada de fêmea ovada ou “berried”.
As larvas nascem planctônicas e passam por três estágios nadando na coluna d’água por 6 a 8 semanas. Depois sofrem metamorfose para pós-larva e assentam no fundo. A mortalidade nessa fase é altíssima.
O crescimento é por mudas sucessivas. Para chegar ao tamanho mínimo legal de captura nos EUA (carapaça de 83 mm), leva 6 a 8 anos. Uma lagosta de 1 kg já trocou de carapaça cerca de 25 vezes. Depois de adulta, faz apenas uma muda por ano ou a cada dois anos.
Comportamento, territorialismo e deslocamentos
É um animal solitário e territorial. Cada indivíduo defende sua toca ou fenda, especialmente machos grandes. Disputas por abrigo são resolvidas com exibição das garras; lutas reais podem levar à perda de apêndices.
Tem hábitos predominantemente noturnos. Durante o dia fica escondida, saindo à noite para forragear. Possui boa memória espacial e consegue voltar à mesma toca após saídas.
Apesar da fama de sedentária, marcações mostram deslocamentos de dezenas de quilômetros em poucos meses, principalmente no outono para águas mais profundas e quentes. Não forma cardumes, mas pode haver agregações temporárias em áreas com muita comida ou abrigo.
Se perder uma garra ou pata, regenera na muda seguinte, embora menor. Curiosamente, pode inverter a função das garras: se perde a esmagadora, a cortadora pode se transformar em esmagadora na próxima muda.
A lagosta-do-maine é perigosa para humanos?
Não. É praticamente inofensiva se não for manuseada. O único risco real é o beliscão.
Uma adulta pode exercer pressão suficiente para cortar a pele e causar hematomas, mas não tem veneno, não morde e não ataca nadadores. Acidentes acontecem apenas com pescadores e cozinheiros ao manusear o animal vivo.
Para humanos, o risco maior é alergia a crustáceos, que pode ser grave, e o consumo de carne mal conservada. Não há registro de ataques a mergulhadores. Em mergulho, ela foge para a toca ou assume postura defensiva com garras abertas.
Para outros animais de estimação, a toxicidade é nula, mas a manipulação deve ser evitada. A lagosta não é animal de estimação e não deve ser mantida em aquário doméstico sem estrutura específica de água fria e salgada.
Pesca, ameaças e estado de conservação
A lagosta-do-maine sustenta a pescaria de lagosta mais valiosa da América do Norte, com mais de 50 mil toneladas por ano, principalmente no Maine e no Canadá. A captura é feita quase toda com covos (armadilhas) com anéis de escape para juvenis.
O manejo é considerado um dos mais rigorosos do mundo: tamanho mínimo e máximo de carapaça, proibição de captura de fêmeas ovadas, marcação em V na cauda de fêmeas reprodutoras e devolução obrigatória. Isso mantém o estoque como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com tendência estável no norte.
As ameaças atuais são aquecimento da água, acidificação, doenças da carapaça e emaranhamento em cabos de covos, que afeta baleias-francas. No sul da Nova Inglaterra, o estoque já declinou por estresse térmico e doenças.
Mudanças climáticas estão deslocando a distribuição para o norte. O Golfo do Maine é uma das áreas que mais aquece no Atlântico, o que preocupa cientistas sobre o futuro da espécie em sua área mais famosa.
Curiosidades que pouca gente sabe sobre a espécie
O sangue é azul translúcido, não vermelho. Ela usa hemocianina com cobre para transportar oxigênio, mais eficiente em água fria e pobre em oxigênio.
Antes de ser iguaria, foi comida de prisioneiros e adubo. No século XVII, em Massachusetts, havia leis que proibiam servir lagosta a empregados mais de duas vezes por semana, de tão abundante e desvalorizada que era.
A idade não se mede pelo tamanho. Como cresce por mudas, duas lagostas do mesmo peso podem ter idades muito diferentes. Pesquisadores hoje contam anéis de crescimento nos ossículos do estômago e já estimaram indivíduos com mais de 100 anos.
A lagosta de 20,14 kg capturada em 1977 na Nova Escócia continua sendo o recorde mundial. Tinha cerca de 64 cm e estima-se que tivesse entre 40 e 50 anos quando foi pescada.
Perguntas frequentes
Qual o tamanho máximo da lagosta-do-maine?
Até 64 cm de comprimento total e 20,14 kg, recorde registrado em 1977 na Nova Escócia. A maioria capturada tem 25 a 35 cm e 0,5 a 1 kg.
Por que a lagosta fica vermelha quando cozida?
A cor marrom-esverdeada vem da proteína crustacianina ligada à astaxantina. Com o calor, a proteína desnatura e libera o pigmento vermelho-alaranjado.
Lagosta-do-maine tem veneno ou é perigosa?
Não tem veneno e não ataca pessoas. O único risco é o beliscão forte das garras, que pode cortar a pele se manuseada sem cuidado.
Quanto tempo vive uma lagosta-do-maine?
Entre 50 e 100 anos na natureza. O crescimento por mudas é lento: leva 6 a 8 anos para atingir o tamanho comercial.
Onde vive a lagosta-do-maine no Brasil?
Não ocorre naturalmente no Brasil. É exclusiva do Atlântico Noroeste, do Canadá à Carolina do Norte. No Brasil só é encontrada congelada importada.
Qual a diferença entre lagosta-do-maine e lagosta-espinhosa?
A do Maine tem duas garras grandes e assimétricas e vive em água fria; a espinhosa (como a lagosta-vermelha brasileira) não tem garras grandes e tem antenas longas e espinhos na carapaça.
Pode criar lagosta-do-maine em aquário?
Não é recomendada como pet. Exige água salgada fria (12-18 °C), filtragem potente, tocas e alimentação específica, além de ser territorial e agressiva.
Fatos surpreendentes sobre a lagosta-do-maine
Sangue azul de verdade
O sangue é azul por causa da hemocianina, proteína com cobre que carrega oxigênio. Quando exposto ao ar, fica incolor e depois azulado.
Garras que trocam de função
Se perder a garra esmagadora, a cortadora pode virar esmagadora na muda seguinte. As duas garras são definidas ainda na fase juvenil pelo uso.
Fêmea que guarda esperma por um ano
Após acasalar com carapaça mole, a fêmea armazena o esperma por até 15 meses e só fertiliza os ovos quando as condições são ideais.
De comida de cadeia a luxo
No século 19 era servida em prisões e usada como fertilizante. Só virou iguaria cara após a popularização das conservas e do transporte refrigerado.









