Resumo
- A ascídia é um tunicado filtrador com túnica de celulose e dois sifões, cordado na fase larval e séssil quando adulta.
- Vive fixa em costões, recifes e estruturas artificiais de 0 a 500 m, filtrando fitoplâncton e matéria orgânica.
- Não é perigosa para humanos, mas algumas espécies são invasoras e outras acumulam vanádio e compostos bioativos de interesse científico.
Características
Ficha da espécie
| Grupo | Tunicado (cordado invertebrado) |
|---|---|
| Ordem | Phlebobranchia, Aplousobranchia e Stolidobranchia |
| Família | Várias (Didemnidae, Ascidiidae, Styelidae, Pyuridae) |
| Origem e distribuição | Cosmopolita, todos os oceanos |
| Tamanho | 0,5 a 15 cm (solitária); colônias de 5 cm a 1 m |
| Peso | 2 a 50 g por zoide |
| Cores | brancoamarelolaranjavermelhoroxoazulverdemarromtranslúcido |
| Profundidade | 0 a 500 m (maioria até 30 m) |
| Habitat | Costões rochosos, recifes de coral, manguezais e estruturas artificiais |
| Alimentação | Filtradora (fitoplâncton e matéria orgânica) |
| Reprodução | Sexuada (hermafrodita) e assexuada por brotamento |
| Expectativa de vida | 1 a 3 anos (muitas espécies); até 10 anos em espécies grandes |
| Estado de conservação | Não Avaliada (NE) para a maioria |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Sociabilidade | Alto |
| Inteligência | Muito baixo |
| Velocidade | Muito baixo |
| Capacidade de migração | Muito baixo |
| Importância para o ecossistema marinho | Alto |
O que é a ascídia e por que ela não é esponja nem planta
A ascídia pertence à Classe Ascidiacea, dentro do Subfilo Tunicata. Apesar da aparência simples, é um cordado: a larva tem notocorda, tubo neural dorsal e cauda como um girino microscópico.
Depois de poucas horas a alguns dias nadando, a larva se fixa e reabsorve essas estruturas. O adulto perde a cauda e vira um saco filtrador séssil, envolto por uma túnica de tunicina, uma celulose animal rara no reino animal.
Diferente de esponjas, ascídias têm dois sifões bem definidos — um inalante e um exalante — e um sistema digestivo completo com faringe perfurada por fendas branquiais. É por essas fendas que filtram até dezenas de litros de água por dia.
Como identificar uma ascídia no costão ou no mergulho
Procure por um saco oval ou cilíndrico com dois orifícios no topo. Ao tocar levemente na água perto dela, os sifões se fecham rapidamente. Essa contração rápida é o melhor teste de campo.
Existem dois padrões principais:
- Solitárias: zoide único, de 1 a 15 cm, carnoso e isolado. Ex.: Herdmania momus e Styela plicata, comuns em marinas brasileiras.
- Coloniais: dezenas a milhares de zoides minúsculos (1 a 5 mm cada) unidos por túnica comum, formando crostas, almofadas ou cachos. Ex.: Didemnum, Botryllus e Clavelina.
As cores ajudam, mas enganam. A mesma espécie pode ser branca, amarela, laranja, roxa ou azulada conforme a profundidade e a exposição à luz. Coloniais de Didemnum são branco-acinzentadas com aspecto de queijo derretido e borda irregular. Clavelina oblonga forma cachos translúcidos com anéis brancos.
| Característica | Solitária | Colonial |
|---|---|---|
| Tamanho do zoide | 1 a 15 cm | 1 a 5 mm |
| Aparência | Saco isolado, dois sifões evidentes | Crosta ou almofada com muitos poros |
| Toque | Firme, coriáceo | Gelatinoso a firme, quebra fácil |
| Exemplo no Brasil | Microcosmus exasperatus | Didemnum perlucidum |
Onde vive e em que profundidade é encontrada no Brasil
Ascídias ocorrem em todos os oceanos, do entremarés ao talude, mas a maior diversidade está até 30 m em águas costeiras quentes e claras. No Brasil aparecem do Amapá ao Rio Grande do Sul, incluindo Fernando de Noronha e Abrolhos.
Preferem costões rochosos, recifes de coral, pilares de píer, cascos de embarcações e fazendas de mexilhão. São pioneiras em substrato artificial e por isso dominam marinas e portos.
Espécies de águas rasas toleram variação de salinidade e poluição moderada, o que explica seu sucesso em áreas portuárias. Já espécies de recife mais sensíveis vivem em paredões e cavernas entre 10 e 40 m, onde a competição por espaço é intensa.
O que come e como filtra a água
A ascídia é filtradora ativa. A água entra pelo sifão inalante, passa pela faringe cheia de fendas branquiais cobertas de muco, e sai pelo sifão exalante.
A dieta é composta por fitoplâncton, bactérias, detritos e larvas microscópicas. Cílios movem o muco com partículas até o estômago. Uma ascídia solitária de 5 cm pode filtrar até 10 litros por hora em água rica em plâncton.
Essa filtração torna as ascídias bioindicadoras. Elas acumulam metais, microplásticos e bactérias, e por isso são usadas para monitorar qualidade da água. Também competem com corais e mexilhões por espaço e alimento.
Como caça sem se mover
Não há caça. A estratégia é bombear água continuamente e selecionar partículas por tamanho nos cílios faríngeos. Quando a água está turva, reduzem o fluxo para não entupir as fendas.
Reprodução e ciclo de vida: o girino que vira saco
A maioria é hermafrodita simultânea, com ovário e testículo no mesmo indivíduo, mas a autofecundação é rara. A fecundação pode ser externa ou interna, com liberação de esperma na água e retenção dos ovos.
O ciclo tem duas fases bem distintas:
- Larva girino: livre-natante por 2 a 36 horas, com notocorda, ocelo e otólito para escolher onde fixar. Não se alimenta.
- Adulto séssil: após fixação, ocorre metamorfose radical em 24 a 48 horas, com reabsorção da cauda e formação dos sifões.
Coloniais também se reproduzem por brotamento, expandindo a colônia em centímetros por semana. Algumas, como Botryllus schlosseri, têm ciclos semanais de regressão e renovação de toda a colônia.
Em águas tropicais brasileiras a reprodução é contínua com picos no verão, quando a temperatura e a oferta de plâncton aumentam.
Comportamento: séssil, colonial e territorial sem sair do lugar
Adultas são sésseis e gregárias. Não migram, mas competem agressivamente por espaço. Coloniais crescem por cima de corais, esponjas e outras ascídias, liberando substâncias químicas para inibir vizinhos.
Colônias de Botryllus reconhecem parentesco por contato da túnica: se são da mesma colônia, fundem-se; se não, rejeitam e formam barreira escura. É um dos poucos casos de reconhecimento de colônia fora dos insetos sociais.
Quando perturbadas, fecham os sifões e podem esguichar jatos de água — daí o nome em inglês sea squirt. Esse jato ajuda a limpar detritos e afastar pequenos predadores.
Ascídia é perigosa ou venenosa para humanos?
Não oferece risco de ataque, mordida ou ferroada. Não tem veneno injetável e a maioria pode ser tocada sem irritação, embora o manuseio deva ser evitado para não danificar o animal.
O cuidado é químico. Algumas espécies acumulam vanádio em concentrações até 10 milhões de vezes maiores que a água do mar e produzem didemninas e trabectedina, compostos citotóxicos estudados contra câncer. Ingerir ascídias cruas ou sem identificação pode causar irritação gastrointestinal.
No Japão e na Coreia, Halocynthia roretzi (meongge) é consumida, mas passa por preparo específico. No Brasil não há consumo tradicional e não se recomenda coletar.
Ameaças, espécies invasoras e importância para a ciência
A maior ameaça às ascídias nativas é a competição com espécies invasoras transportadas por cascos de navios. Didemnum vexillum, Styela plicata e Clavelina oblonga já dominam marinas do Sudeste e Sul, cobrindo substratos e sufocando corais e bivalves cultivados.
Outras pressões são poluição, aquecimento e acidificação, que favorecem espécies tolerantes e reduzem as sensíveis de recife. Por serem filtradoras, também concentram microplásticos e contaminantes.
Por outro lado, são valiosas para a ciência. A túnica de celulose inspira biomateriais, e moléculas como a trabectedina (Yondelis), isolada de Ecteinascidia turbinata, já virou medicamento antitumoral. O genoma de Ciona intestinalis é modelo para estudar a origem dos vertebrados.
Para observar com responsabilidade, não arranque, não vire pedras e não colete. Fotografe os sifões abertos e fechados e anote profundidade e substrato. Em marinas, ajude limpando embarcações fora d’água para não espalhar invasoras.
Curiosidades que pouca gente sabe
Ascídias já foram classificadas como moluscos e até plantas por naturalistas do século XVIII. Só com estudos larvais se confirmou que são cordados.
Uma colônia colonial pode ser geneticamente um único indivíduo com milhares de bocas. Se fragmentada, cada pedaço pode regenerar uma nova colônia.
Perguntas frequentes
Ascídia é esponja?
Não. Esponjas são poríferos sem tecidos verdadeiros; ascídias são cordados com coração, intestino e dois sifões que se fecham ao toque.
Ascídia se mexe?
A larva nada por horas. O adulto é séssil e só se contrai ou esguicha água quando perturbado.
Pode tocar na ascídia?
Pode observar sem tocar. O toque fecha os sifões e estressa o animal; algumas espécies têm compostos que irritam mucosas se levadas à boca.
Ascídia é venenosa?
Não tem veneno injetável. Algumas acumulam vanádio e toxinas que tornam a ingestão arriscada, mas o contato casual não é perigoso.
Onde encontrar ascídia no Brasil?
Em costões e recifes de norte a sul, e muito comum em marinas, pilares e fazendas de mexilhão até 30 m de profundidade.
Por que ascídias cobrem cascos de barco?
São pioneiras em substrato artificial. Larvas se fixam rapidamente e colônias crescem por brotamento, competindo por espaço.
Ascídia faz mal ao coral?
Espécies invasoras podem crescer sobre corais e sufocá-los, especialmente em áreas portuárias e recifes próximos a marinas.
Você sabia?
O único animal que produz celulose
A túnica da ascídia é feita de tunicina, uma celulose idêntica à das plantas. É o único grupo animal capaz de sintetizar celulose em grande quantidade.
Sangue com vanádio
Algumas ascídias acumulam vanádio até 10 milhões de vezes acima da água do mar em células chamadas vanadócitos. A função ainda é debatida, mas pode estar ligada à defesa química.
Girino que se dissolve
A larva nada por poucas horas, fixa-se pela cabeça e em menos de 48 horas reabsorve cérebro, notocorda e cauda para virar um filtrador séssil.
Remédio contra câncer veio dela
A trabectedina, usada no tratamento de sarcomas, foi isolada da ascídia Ecteinascidia turbinata e hoje é produzida de forma semissintética.









