Resumo
- A coruja-buraqueira é uma coruja pequena, diurna e terrícola que vive em buracos no chão em campos abertos e áreas urbanas de todo o Brasil.
- Reconhece-se pelas pernas longas, manchas brancas na sobrancelha, disco facial achatado e pelo comportamento de ficar em pé na entrada da toca.
- Alimenta-se sobretudo de insetos e pequenos roedores, reproduz-se em tocas subterrâneas entre agosto e novembro e é protegida por lei, não podendo ser criada como pet.
Características
Ficha da espécie
| Família | Strigidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | Das Américas, do Canadá à Terra do Fogo; presente em todo o Brasil |
| Habitat | Campos abertos, pastagens, cerrado ralo, restingas, aeroportos e terrenos urbanos |
| Tamanho (comprimento) | 19 a 28 cm |
| Envergadura | 50 a 61 cm |
| Peso | 150 a 240 g |
| Cores | marrombegebrancoamarelo (olhos) |
| Expectativa de vida | 6 a 9 anos na natureza, até 12 em cativeiro |
| Alimentação | Insetívora e carnívora (insetos, roedores, lagartixas, anfíbios) |
| Canto | Sequência aguda tipo 'kwek-kwek' e trinado territorial |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em buraco no solo; 6 a 11 ovos brancos; incubação 28 a 30 dias |
| Comportamento social | Monogâmica, territorial e semicolonial; vive em casais ou pequenos grupos |
| Subespécies | Cerca de 18 reconhecidas; no Brasil A. c. grallaria e A. c. cunicularia |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Médio |
| Inteligência | Muito alto |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer a coruja-buraqueira: tamanho, cores e traços únicos
A coruja-buraqueira é pequena, de pernas longas e sem orelhas pontudas. Mede de 19 a 28 cm e pesa entre 150 e 240 g, com fêmeas ligeiramente maiores que os machos.
O disco facial é achatado e marrom-claro, com sobrancelhas brancas bem marcadas e olhos amarelo-limão grandes. Essa sobrancelha dá a expressão de eterna surpresa, diferente de outras corujas brasileiras.
A plumagem dorsal é marrom com pintas brancas e bege, enquanto o peito é claro com barrado marrom. As pernas são longas, acinzentadas e pouco emplumadas, adaptação para andar e correr no chão.
Em voo, mostra asas arredondadas e curtas, com envergadura de 50 a 61 cm. O voo é ondulado e baixo, com batidas rápidas intercaladas por planeios.
Onde vive e onde encontrar no Brasil
É a coruja de distribuição mais ampla das Américas. Ocorre do Canadá à Patagônia e está presente em todos os estados do Brasil, do Rio Grande do Sul a Roraima.
Prefere áreas abertas e secas. No Brasil ocupa cerrado ralo, pampa, caatinga, restinga, pastagens, campos de futebol, canteiros de rodovia e aeroportos. Evita mata fechada.
É uma das poucas corujas que se beneficiou da urbanização. Em Brasília, Goiânia e interior de São Paulo é comum ver casais na mesma toca por anos, no mesmo terreno baldio.
Para observar, procure montículos de terra com um buraco oval de 10 a 15 cm de diâmetro, com pegadas e pelotas de regurgitação ao redor. Ao entardecer, o casal costuma ficar em pé, lado a lado, na entrada.
Por que ela mora em buracos? O ninho subterrâneo
A coruja-buraqueira raramente cava sua própria toca do zero. Ela ocupa buracos de tatu, cães-da-pradaria, coró e cupins e os amplia com bico e patas.
A toca tem um túnel de 1,5 a 3 metros de comprimento, em leve declive, terminando em câmara de ninho forrada com capim seco, penas e esterco. O túnel em curva protege contra predadores e enchentes.
O esterco não é sujeira. A coruja coleta fezes de mamíferos e as espalha na entrada para atrair besouros, sua presa favorita. É uma estratégia de isca documentada em campo.
Em áreas urbanas, adapta-se a manilhas, buracos sob lajes e cupinzeiros. Já foram registradas tocas com duas entradas e até 2 metros de profundidade em solo arenoso.
O que come: dieta e técnica de caça diurna
Ao contrário da maioria das corujas, caça muito de dia, especialmente ao amanhecer e fim de tarde. A dieta é 70% a 90% de artrópodes na maior parte do Brasil.
Besouros, grilos, gafanhotos, escorpiões e aranhas são a base. Complementa com pequenos roedores, lagartixas, rãs, morcegos e pequenas aves. Em anos de explosão de cupins, pode se alimentar quase só deles por semanas.
Caça de três jeitos: corre atrás da presa no chão, dá voos curtos a partir de um poleiro baixo ou paira como um francelho antes do bote. Tem audição fina, mas depende mais da visão.
Como outras corujas, regurgita pelotas com restos não digeridos. Analisar essas pelotas é a forma mais fácil de estudar o que ela comeu sem perturbá-la.
Comportamento, canto e vida em colônias
É monogâmica, territorial e semicolonial. Um casal defende 0,5 a 2 hectares, mas tocas vizinhas podem ficar a apenas 20 metros em áreas boas, formando colônias soltas.
Extremamente vigilante. Quando ameaçada, estica o corpo, balança a cabeça e emite um chocalho áspero de alarme. Se o intruso se aproxima, recua para dentro da toca e rosna.
O canto territorial do macho é um “kwek-kwek” duplo, agudo e anasalado, que lembra risada. O canto de corte é um trinado suave e prolongado. Filhotes dentro da toca emitem um chiado que imita o guizo de cascavel, para afastar predadores.
Durante o dia faz “paradas de sentinela”: um adulto fica em pé na entrada enquanto o outro caça ou choca. À noite, ambos caçam e o macho entrega alimento para a fêmea na boca da toca.
Reprodução, ovos e cuidado com os filhotes
A estação reprodutiva no Brasil central e sudeste vai de agosto a novembro, com pico em setembro e outubro. No Nordeste pode começar em julho; no Pampa, até dezembro.
A fêmea põe de 6 a 11 ovos brancos e arredondados, um a cada 1 ou 2 dias, direto no chão da câmara. Só ela incuba, por 28 a 30 dias, enquanto o macho traz comida e defende o território.
Os filhotes nascem cobertos de penugem branca e abrem os olhos com 7 dias. Com 14 dias já aparecem na boca da toca e com 40 a 50 dias fazem voos curtos. Os pais continuam alimentando por mais 3 a 4 semanas.
A produtividade é alta, mas a mortalidade também. Atropelamentos, alagamento da toca e predação por cachorros, gatos e gaviões são as principais causas de perda de ninhadas em áreas urbanas.
Diferenças entre as subespécies no Brasil
| Subespécie | Ocorrência | Traço distintivo |
|---|---|---|
| A. c. grallaria | Centro, Sudeste e Nordeste | Mais avermelhada, pernas mais longas |
| A. c. cunicularia | Sul (Pampa) e Argentina | Mais acinzentada, barrado ventral mais denso |
| A. c. minor | Extremo norte da Amazônia | Menor, coloração mais pálida |
Na prática, a variação é sutil e só faz diferença para anilhamento e estudos. Para observação, todas se comportam da mesma forma.
É possível ter coruja-buraqueira em casa? Legalidade
Não. A criação é proibida. A coruja-buraqueira é ave silvestre nativa protegida pela Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98). Capturar, comprar, vender ou manter em cativeiro sem autorização é crime.
Não existe criação comercial legalizada para esta espécie no Brasil. O IBAMA não autoriza a manutenção como pet e só permite cativeiro para fins de reabilitação, pesquisa ou conservação com licenciamento específico.
Além da questão legal, ela não se adapta à vida doméstica. Precisa de território aberto, toca subterrânea, dieta viva variada e sofre muito estresse em gaiolas. Filhotes retirados da natureza quase sempre morrem ou ficam impróprios para soltura.
Se encontrar um filhote fora da toca, não toque. Os pais estão por perto. Só acione o órgão ambiental (Polícia Ambiental, CETAS ou IBAMA) se houver risco iminente, como atropelamento ou ataque de cães.
Conservação, ameaças e como observar sem atrapalhar
Globalmente é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, por ser abundante e adaptável. No Brasil ainda é comum, mas com declínio local onde campos naturais são convertidos em lavoura ou loteamento.
As maiores ameaças são atropelamento, uso de veneno para roedores, pisoteio de tocas por gado, cães soltos e fechamento de tocas por obras. Em aeroportos, colide com aeronaves e é alvo de manejo controverso.
Por outro lado, a espécie se beneficia de áreas de capim baixo mantidas por corte ou pastejo. Campos de aviação, parques urbanos e pastagens bem manejadas funcionam como refúgios.
Para fotografar ou observar, mantenha pelo menos 15 metros da toca, use lente longa e nunca bloqueie a entrada ou ofereça comida. Se a coruja começar a balançar a cabeça e emitir alarme contínuo, você está perto demais.
Perguntas frequentes
Coruja-buraqueira é perigosa para humanos ou pets?
Não ataca humanos. Pode bicar se acuada na toca, mas o risco real é para pets pequenos soltos, pois cães e gatos são predadores das tocas e podem ser bicados ao se aproximarem.
Por que ela fica ativa de dia?
É uma das poucas corujas diurnas. Caça melhor com luz porque sua dieta é baseada em insetos diurnos e precisa vigiar a toca contra predadores terrestres.
O que fazer se achar um filhote fora do buraco?
Mantenha distância e afaste cães. Os pais continuam alimentando filhotes que já saem da toca. Só acione o órgão ambiental se houver risco de atropelamento ou ferimento visível.
Quanto tempo vive a coruja-buraqueira?
De 6 a 9 anos na natureza. Em cativeiro sob cuidados técnicos pode chegar a 12 anos, mas não é criada como pet.
Ela cava o próprio buraco?
Geralmente amplia buracos prontos de tatu, roedores ou cupins. Escava com bico e patas, criando um túnel de 1,5 a 3 metros até a câmara do ninho.
Pode alimentar coruja-buraqueira na cidade?
Não ofereça comida. Alimentar altera o comportamento, atrai predadores e pode causar atropelamento. Observe a distância e não deixe lixo ou veneno perto das tocas.
Fatos surpreendentes
O esterco como isca
Ela espalha fezes de boi e cavalo na entrada da toca para atrair besouros. Experimentos mostraram que tocas com esterco capturam até 10 vezes mais insetos.
Filhote que imita cascavel
Quando ameaçado dentro do buraco, o filhote emite um chocalho idêntico ao de cascavel. O som afasta predadores que já tiveram experiência com cobras.
Coruja do aeroporto
É a ave símbolo de vários aeroportos brasileiros. Em Guarulhos e Brasília há manejo específico para evitar colisões sem remover as tocas, com corte de grama controlado.
Casal fiel ao endereço
Casais anilhados no interior de São Paulo voltaram à mesma toca por até 4 anos seguidos, mesmo após a área ser roçada ou queimada, cavando novamente o túnel.










