Resumo
- A arara-azul-grande é a maior arara do mundo, com até 1 m de comprimento, plumagem azul-cobalto e anéis amarelos ao redor dos olhos e do bico.
- Vive sobretudo no Pantanal, mas também no Cerrado e na Amazônia, dependendo de coquinhos de palmeiras e de ocos de manduvi para se alimentar e nidificar.
- É monogâmica, vive mais de 50 anos e está classificada como vulnerável, com criação doméstica proibida sem autorização do IBAMA e criadouros legalizados.
Características
Ficha da espécie
| Família | Psittacidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | Brasil (Pantanal, Cerrado, Amazônia), leste da Bolívia e norte do Paraguai |
| Habitat | Pantanal alagável, cerradões, matas de galeria, palmeirais e bordas de floresta amazônica |
| Tamanho (comprimento) | 93 a 100 cm |
| Envergadura | 120 a 127 cm |
| Peso | 1,2 a 1,7 kg |
| Cores | azul-cobaltoazul-escuroamarelo (anéis periocularmandibular)preto (bico)cinza-escuro (patas) |
| Expectativa de vida | 50 a 60 anos na natureza; até 80 anos em cativeiro autorizado |
| Alimentação | Granívora e frugívora, especialista em coquinhos de palmeiras |
| Canto | Grasnados graves e prolongados, audíveis a mais de 1 km |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em oco de árvore; 1 a 2 ovos; incubação de 28 a 30 dias |
| Comportamento social | Monogâmica, vive em pares ou pequenos bandos familiares, muito vocal |
| Variedades ou subespécies | 3 espécies do gênero Anodorhynchus: A. hyacinthinus, A. leari e A. glaucus (provavelmente extinta) |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Alto |
| Inteligência | Muito alto |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Médio |
Como reconhecer a arara-azul: tamanho, cores e bico inconfundível
A arara-azul-grande é impossível de confundir quando vista de perto. É a maior arara e o maior psitacídeo do mundo, com 93 a 100 cm de comprimento e envergadura de até 127 cm.
A plumagem é azul-cobalto intenso, mais escura nas asas e na cauda longa, com brilho aveludado sob luz natural. Não há dimorfismo sexual evidente: macho e fêmea são idênticos a olho nu.
O detalhe que entrega a espécie são os anéis amarelos nus ao redor dos olhos e na faixa que contorna a base da mandíbula. Esse contraste com o azul e o bico preto e curvo é diagnóstico.
O bico é o maior entre as araras e um dos mais fortes entre as aves. Com musculatura e articulação especializadas, exerce pressão estimada em mais de 130 kgf/cm², capaz de quebrar com facilidade coquinhos de acuri e licuri que outras aves não conseguem abrir.
Patas zigodáctilas (dois dedos para frente e dois para trás) e cinza-escuras garantem firmeza para escalar troncos e manipular alimentos. A língua é grossa e sensível, usada para extrair a polpa dos coquinhos.
Onde vive a arara-azul no Brasil: Pantanal, Cerrado e Amazônia
A distribuição atual é fragmentada. Cerca de 70% da população selvagem está no Pantanal, especialmente em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
Outros núcleos importantes ficam no nordeste do Pará e sudeste do Amazonas, no sul do Piauí, Bahia e Tocantins, e em áreas de Cerrado do Maranhão e Goiás. Historicamente ocorria também em Minas Gerais e mais amplamente no Paraguai e Bolívia.
No Pantanal, prefere áreas abertas com palmeirais de acuri (Attalea phalerata) e cordões de mata com manduvis (Sterculia apetala). No Cerrado e na Caatinga baiana, onde vive a arara-azul-de-lear, associa-se a paredões de arenito e palmeiras de licuri.
Não é migratória. Faz deslocamentos diários de até 30 km entre dormitórios, áreas de alimentação e ninhos, sempre em pares ou grupos familiares de 3 a 6 indivíduos.
Para observação, o melhor ponto é a região de Miranda e Aquidauana (MS), onde o Projeto Arara Azul mantém ninhos monitorados e a ave é vista com frequência em fios, palmeiras e ocos altos.
O que a arara-azul come e por que depende de duas palmeiras
A dieta é altamente especializada. Na maior parte do ano, mais de 90% da alimentação vem de coquinhos de palmeiras.
No Pantanal, o principal item é o coco do acuri e, em menor escala, o da bocaiuva (Acrocomia aculeata). Na Bahia, a arara-azul-de-lear depende quase exclusivamente do licuri (Syagrus coronata).
Complementa com frutos de buriti, pequi, jatobá, figos e néctar, além de ingerir argila em barreiros para neutralizar toxinas e suplementar minerais. Em cativeiro autorizado, a dieta precisa replicar essa base oleosa, com castanhas e coquinhos, não apenas ração de psitacídeos.
Essa dependência explica a vulnerabilidade. Sem palmeiras adultas produtivas e sem árvores ocas para ninho, a população não se sustenta, mesmo que a área pareça preservada.
Comportamento, canto e inteligência: barulhenta, fiel e curiosa
É uma ave extremamente social e vocal. O casal mantém contato constante por grasnados graves e ásperos do tipo “kraaa-kraaa”, audíveis a mais de um quilômetro em área aberta.
Vive em pares monogâmicos que duram a vida toda. Se um parceiro morre, o outro pode ficar anos sem formar novo casal. O vínculo é reforçado por alisamento mútuo de penas, alimentação compartilhada e voos sincronizados.
A inteligência se compara à de corvos e primatas. Manipula objetos com patas e bico, resolve problemas simples para alcançar alimento e demonstra memória espacial de longo prazo para localizar palmeiras e ninhos usados anos antes.
Apesar de poder imitar sons humanos quando criada em cativeiro desde filhote, não é uma boa “falante” como papagaios do gênero Amazona. Sua vocalização natural é rouca e pouco articulada, e a imitação costuma ser limitada a assobios e palavras curtas.
Durante o dia, alterna períodos de alimentação intensa pela manhã e no fim da tarde com descanso e interação social nas horas mais quentes, sempre pousada em galhos altos e expostos.
Reprodução, ninhos em ocos e a dura disputa entre filhotes
A estação reprodutiva varia por região. No Pantanal vai de agosto a janeiro, com pico em setembro a novembro. Na Bahia, a arara-azul-de-lear reproduz entre fevereiro e maio.
Nidifica exclusivamente em ocos naturais de árvores grandes. No Pantanal, mais de 90% dos ninhos ficam em manduvis, árvore de tronco largo e madeira macia que forma cavidades amplas. Também usa angicos, ipês e palmeiras mortas.
A fêmea põe 1 a 2 ovos, raramente 3, com intervalo de 2 a 3 dias. A incubação dura 28 a 30 dias e é feita quase toda pela fêmea, enquanto o macho alimenta e vigia o entorno.
Um fato pouco divulgado é a competição siblicida. O segundo filhote nasce menor e, se a oferta de alimento não for abundante, raramente sobrevive. Na natureza, a maioria dos casais cria apenas um filhote por temporada, e muitos ninhos falham.
Os filhotes permanecem no ninho por cerca de 100 a 110 dias e, após voarem, continuam dependentes dos pais por mais 6 a 8 meses, aprendendo a quebrar coquinhos e a localizar barreiros. A maturidade sexual só chega entre 6 e 8 anos.
Calendário reprodutivo no Pantanal
Escolha de oco e cortejo em julho e agosto, postura em setembro e outubro, eclosão em outubro e novembro, e saída do ninho entre janeiro e março. Fora desse período, os casais permanecem juntos defendendo território.
É possível ter arara-azul em casa? O que diz a lei brasileira
Não. A arara-azul é ave silvestre protegida por lei e sua captura, compra, venda ou manutenção sem autorização é crime ambiental (Lei 9.605/98).
A única forma legal de ter um exemplar é adquiri-lo de criadouro comercial autorizado pelo IBAMA ou órgão estadual, com anilha fechada, nota fiscal e registro no sistema de controle. Esses criadouros são poucos, têm fila de espera e exigem estrutura de viveiro muito grande.
Mesmo com autorização, não é uma ave indicada como pet. Precisa de viveiro de pelo menos 6 x 3 x 3 metros, dieta especializada, enriquecimento ambiental diário e acompanhamento veterinário de especialista em aves. Vive décadas e forma vínculo intenso, sofrendo muito com isolamento.
A venda de filhotes retirados da natureza, ainda oferecida ilegalmente em redes sociais e feiras, é responsável pelo declínio histórico da espécie. Denúncias podem ser feitas ao IBAMA (Linha Verde 0800 61 8080) e à Polícia Ambiental.
Por que a arara-azul quase desapareceu e como está a conservação hoje
Nos anos 1980, a população selvagem chegou a menos de 3 mil indivíduos devido ao tráfico internacional, onde um filhote chegava a valer dezenas de milhares de dólares, somado ao desmatamento e à coleta de penas.
O ponto de virada foi o Projeto Arara Azul, criado em 1990 pela bióloga Neiva Guedes no Pantanal. O projeto instalou ninhos artificiais, monitorou centenas de cavidades naturais, combateu o tráfico com educação ambiental e envolveu fazendeiros pantaneiros na proteção dos manduvis.
Com isso, a população do Pantanal se recuperou para cerca de 5 mil a 6,5 mil indivíduos nas últimas estimativas. Ainda assim, a espécie segue como Vulnerável (VU) na Lista Vermelha da IUCN, com tendência de declínio fora do Pantanal.
As ameaças atuais são a perda de palmeiras e árvores ocas por desmatamento e queimadas, a hidrelétricas que alteram o regime do Pantanal, o aquecimento global e a colisão com linhas de transmissão. Incêndios de 2020 destruíram ninhos e palmeirais inteiros no Pantanal.
Está no Apêndice I da CITES, que proíbe o comércio internacional de exemplares selvagens, e é símbolo do Pantanal e do Mato Grosso do Sul, onde é ave-símbolo estadual.
Tipos de arara-azul: grande, de Lear e a pequena extinta
O nome arara-azul abrange três espécies do gênero Anodorhynchus, todas brasileiras e muito parecidas, mas com diferenças claras de tamanho, distribuição e situação.
| Espécie | Nome científico | Tamanho | Onde vive | Status |
|---|---|---|---|---|
| Arara-azul-grande | Anodorhynchus hyacinthinus | 93-100 cm | Pantanal, Cerrado e Amazônia | Vulnerável |
| Arara-azul-de-lear | Anodorhynchus leari | 70-75 cm | Caatinga da Bahia (Canudos, Jeremoabo) | Em Perigo |
| Arara-azul-pequena | Anodorhynchus glaucus | ~70 cm | Sul do Brasil, Uruguai e Argentina | Provavelmente extinta |
A arara-azul-de-lear foi redescoberta em 1978 após ser considerada extinta. É menor, com azul mais esverdeado e garganta amarela mais pálida. Hoje tem cerca de 1.800 indivíduos em vida livre, concentrados em dois paredões de arenito na Bahia, e depende do licuri.
A arara-azul-pequena não tem registro confirmado desde a década de 1960. Era associada a palmeirais de yatay (Butia yatay) e provavelmente foi extinta pela destruição desses palmeirais e pela captura.
Nenhuma delas deve ser confundida com a arara-azul-e-amarela (Ara ararauna), que tem peito amarelo vivo e rosto com linhas pretas, nem com a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), menor e extinta na natureza até a reintrodução recente.
Perguntas frequentes
Qual é o tamanho da arara-azul?
A arara-azul-grande mede 93 a 100 cm de comprimento e pesa 1,2 a 1,7 kg, sendo a maior arara do mundo. A envergadura chega a 127 cm.
Onde a arara-azul vive no Brasil?
Principalmente no Pantanal (MS e MT), mas também no Cerrado, na Amazônia e, no caso da arara-azul-de-lear, na Caatinga da Bahia.
O que a arara-azul come?
Quase exclusivamente coquinhos de palmeiras: acuri e bocaiuva no Pantanal e licuri na Bahia, além de frutos como buriti e pequi e argila de barreiros.
Pode ter arara-azul em casa? É legal?
Não como pet comum. Só é legal com compra em criadouro autorizado pelo IBAMA, com anilha e nota fiscal. Capturar ou comprar ave da natureza é crime ambiental.
Quanto tempo vive uma arara-azul?
De 50 a 60 anos na natureza e até 80 anos em cativeiro autorizado, com maturidade sexual entre 6 e 8 anos.
Qual a diferença entre arara-azul e arara-azul-de-lear?
A grande (A. hyacinthinus) tem até 1 m e vive no Pantanal; a de Lear (A. leari) tem 70 a 75 cm, azul mais esverdeado e vive só na Caatinga baiana, estando em perigo.
A arara-azul está em extinção?
Está classificada como Vulnerável (VU) pela IUCN. A população do Pantanal se recuperou com o Projeto Arara Azul, mas segue ameaçada por desmatamento, fogo e perda de palmeiras.
Fatos surpreendentes sobre a arara-azul
Bico que funciona como terceira pata
Ela escala troncos usando o bico como gancho e apoio, além de quebrar coquinhos com força que supera 130 kgf/cm², deixando marcas de roedura características nos coqueiros.
Fidelidade que dura décadas
Forma casais monogâmicos para a vida toda e defende o mesmo oco de manduvi por anos seguidos, reconhecendo o parceiro pela voz mesmo em bandos barulhentos.
Berçário monitorado por fazendeiros
No Pantanal, mais de 90% dos ninhos naturais ficam em manduvis e muitos ninhos artificiais instalados pelo Projeto Arara Azul são vigiados por peões de fazenda treinados.
Filhote que demora para ser independente
O filhote fica cerca de 110 dias no oco e ainda passa 6 a 8 meses aprendendo com os pais a abrir coquinhos, só se reproduzindo após os 7 anos de idade.










