Resumo
- A cigarrinha-do-milho mede cerca de 4 mm, é amarelo-palha com duas manchas pretas na cabeça e só sobrevive em milho.
- Transmite três doenças graves: enfezamento-pálido, enfezamento-vermelho e virose da risca, que reduzem drasticamente a produção.
- Tem ciclo rápido de 45 a 60 dias, voa longas distâncias e exige manejo integrado com eliminação de milho tiguera e controle de janela de plantio.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Hemiptera |
|---|---|
| Família | Cicadellidae |
| Origem e distribuição | Nativa das Américas, do sul dos EUA ao norte da Argentina; presente em todo o Brasil agrícola |
| Tamanho | 3,7 a 4,3 mm de comprimento |
| Cores | amarelo-palhapalhabege-clarocom duas manchas pretas no vértice da cabeça |
| Asas e voo | Duas pares de asas membranosas; voo ativo e pode dispersar por quilômetros com ajuda do vento |
| Alimentação | Fitófaga sugadora, seiva do floema do milho |
| Metamorfose | Incompleta (hemimetabolia: ovo > ninfa > adulto) |
| Expectativa de vida | Adulto vive 30 a 45 dias; ciclo completo 45 a 60 dias a 26-28 °C |
| Habitat | Exclusivo de lavouras de milho e milho voluntário (tiguera) |
| Comportamento social | Gregária, forma colônias nas folhas mais jovens e no cartucho |
| Principais predadores | Joaninhas, tesourinhas, aranhas, vespas e fungos entomopatogênicos |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Alto |
Como identificar a cigarrinha-do-milho sem confundir
A cigarrinha-do-milho adulta tem cor amarelo-palha a bege-clara e corpo alongado de 3,7 a 4,3 mm. O detalhe que mais ajuda na identificação são duas manchas pretas bem nítidas no topo da cabeça, entre os olhos.
As asas são transparentes e ficam dobradas em forma de telhado sobre o abdômen quando em repouso. As pernas traseiras são saltadoras, típicas de cigarrinhas, e permitem saltos rápidos quando perturbada.
As ninfas são menores, sem asas, de cor mais clara e quase translúcidas, e ficam na face inferior das folhas e dentro do cartucho do milho. É comum confundi-la com outras cigarrinhas verdes ou marrons, mas só Dalbulus maidis tem as duas pintas pretas no vértice e vive exclusivamente em milho.
Diferença para outras cigarrinhas
Cigarrinhas do gênero Empoasca ou Agallia são esverdeadas e polífagas. A cigarrinha-do-milho é sempre palha e monófaga. Se o inseto está em soja, pastagem ou jardim, não é ela.
Por que ela é tão perigosa para o milho: as doenças que transmite
O dano direto da sucção é irrelevante. O problema é que ela é vetora eficiente de três patógenos sistêmicos que circulam na planta e não têm cura depois da infecção.
Ao se alimentar por poucos minutos, uma cigarrinha infectada já inocula o patógeno. E ela permanece infectante por toda a vida, transmitindo para cada nova planta que visita.
| Doença | Agente | Sintoma na planta |
|---|---|---|
| Enfezamento-pálido | Spiroplasma kunkelii | Folhas com estrias esbranquiçadas na base, encurtamento de entrenós, espigas pequenas |
| Enfezamento-vermelho | Maize bushy stunt phytoplasma | Avermelhamento das folhas, perfilhamento excessivo, espigas com grãos falhados |
| Risca ou rayado fino | Maize rayado fino virus (MRFV) | Pontos e riscas cloróticas finas nas folhas, planta raquítica |
Em infecções precoces, até a fase V8, as perdas podem passar de 70% da produção e chegar à perda total em áreas com alta pressão. Por isso a Embrapa classifica Dalbulus maidis como praga-chave do milho safrinha.
Ciclo de vida e reprodução: rápida e contínua
A cigarrinha tem metamorfose incompleta. A fêmea insere os ovos dentro do tecido da folha, principalmente na nervura central, onde ficam protegidos e quase invisíveis.
Cada fêmea põe cerca de 14 a 20 ovos por dia e pode ultrapassar 600 ovos ao longo da vida. A 26 a 28 °C, os ovos eclodem em 8 a 10 dias.
As ninfas passam por cinco ínstares em cerca de 15 a 20 dias, sempre se alimentando na mesma planta. O adulto surge já capaz de voar e se reproduzir em poucos dias. O ciclo completo leva 45 a 60 dias, permitindo várias gerações dentro de uma mesma safra.
Sem milho vivo, o ciclo quebra. Ela não sobrevive mais que alguns dias em outras plantas e não tem fase de diapausa longa. É essa dependência que orienta o controle.
Onde vive e quando ataca no Brasil
Dalbulus maidis é nativa das Américas e ocorre do sul dos Estados Unidos até a Argentina. No Brasil, está presente em todas as regiões produtoras de milho, com maior pressão no Centro-Oeste, Sudeste, Paraná e no MATOPIBA.
Vive exclusivamente onde há milho: lavoura comercial, milho tiguera (voluntário que nasce de grãos perdidos na colheita), milho de beira de estrada e até milho de horta. Não coloniza mata ou pastagem.
A atividade é maior em temperaturas de 26 a 32 °C. No Brasil, há dois picos claros: no plantio da safra de verão (setembro a dezembro) e, principalmente, na safrinha (fevereiro a julho), quando o milho tiguera da safra anterior mantém a população na entressafra.
Adultos voam ativamente e podem ser carregados pelo vento por centenas de metros a alguns quilômetros em poucos dias, colonizando lavouras recém-emergidas. É por isso que o plantio escalonado na mesma região aumenta o risco.
O que a cigarrinha come e como se alimenta
É monófaga estrita: alimenta-se apenas de milho (Zea mays) e de seu ancestral teosinto. Não completa o ciclo em sorgo, milheto ou braquiária, embora possa pousar neles por engano.
Possui aparelho bucal picador-sugador. Insere o estilete no floema e suga a seiva elaborada. Prefere folhas jovens, ainda enroladas no cartucho, onde o tecido é mais tenro e a concentração de patógenos é maior.
Alimenta-se por longos períodos, de forma silenciosa. Não produz melada abundante como pulgões, por isso a infestação passa despercebida até o aparecimento dos sintomas das doenças, 20 a 30 dias depois.
A cigarrinha pica pessoas ou animais? Riscos reais
Não. A cigarrinha-do-milho não pica, não morde, não tem ferrão e não possui veneno. Ela é totalmente inofensiva para pessoas, cachorros, gatos e outros animais.
Não transmite doenças a humanos e não infesta casas. Se encontrada dentro de residência, foi trazida acidentalmente com roupas ou vento, e morre rapidamente sem milho para se alimentar.
O único risco é econômico e agrícola. Para quem tem horta doméstica com milho, a presença indica necessidade de manejo, mas sem perigo para a família ou pets.
Como controlar e conviver: manejo integrado na lavoura
Não existe controle curativo para as doenças depois que a planta é infectada. O foco é reduzir a população da cigarrinha e evitar que ela chegue infectada à lavoura jovem, que é a fase mais vulnerável (da emergência até V8).
- Elimine o milho tiguera: faça vazio sanitário de pelo menos 30 dias sem milho vivo na região. É a medida mais eficaz e recomendada pela Embrapa.
- Evite plantio escalonado: concentre a semeadura em janela curta de até 20 dias entre vizinhos para não criar ponte verde contínua.
- Use sementes com tratamento inseticida: protege a plântula nos primeiros 20 a 30 dias, quando a infecção é mais danosa.
- Monitore com cartão amarelo: armadilhas adesivas na borda da lavoura ajudam a detectar a chegada dos adultos antes dos sintomas.
- Preserve inimigos naturais: joaninhas, tesourinhas, crisopídeos e fungos como Beauveria bassiana e Metarhizium reduzem ninfas.
- Escolha híbridos mais tolerantes: nenhum é imune, mas alguns apresentam menor severidade de enfezamento.
Evite aplicações calendarizadas de inseticida sem monitoramento. O uso excessivo seleciona populações resistentes e mata predadores. Quando necessário, a aplicação deve ser direcionada ao cartucho e feita com rotação de modos de ação, sempre com orientação agronômica.
Em hortas pequenas, a remoção manual de plantas voluntárias e o plantio fora do pico da safrinha já reduzem drasticamente o problema.
Curiosidades e erros comuns sobre a cigarrinha-do-milho
Um erro frequente é achar que qualquer cigarrinha no milho é Dalbulus maidis. Na verdade, o milho hospeda dezenas de espécies, mas só ela transmite os enfezamentos. Identificar as duas pintas pretas evita pulverizações desnecessárias.
Outro mito é que ela vem da semente. Ela não é transmitida por sementes. A infecção vem sempre de uma cigarrinha que se alimentou em planta doente e depois voou para planta sadia.
Na nossa avaliação, a cigarrinha-do-milho é o exemplo mais claro de como um inseto minúsculo pode ter impacto desproporcional. O controle não depende de um produto milagroso, mas de organização regional entre produtores para quebrar a ponte verde. Sem ação coletiva, o controle isolado falha.
Por fim, apesar do nome, ela não canta como as cigarras. O nome cigarrinha vem apenas do parentesco distante na ordem Hemiptera e do hábito saltador, não do som.
Perguntas frequentes
Cigarrinha-do-milho pica gente?
Não. Ela tem aparelho bucal para sugar seiva de milho, não pica pessoas nem animais e não tem veneno.
Como saber se é a cigarrinha-do-milho?
Procure um inseto amarelo-palha de 4 mm com duas manchas pretas bem definidas no topo da cabeça e que está exclusivamente em milho.
Qual o dano que ela causa?
Transmite enfezamento-pálido, enfezamento-vermelho e vírus da risca, que deixam a planta raquítica, avermelhada ou com estrias e reduzem muito a produção.
Como acabar com a cigarrinha-do-milho?
Não há cura após a infecção. O manejo integrado combina eliminar milho tiguera, respeitar vazio sanitário, usar semente tratada e monitorar com cartão amarelo.
Inseticida resolve sozinho?
Não. Aplicações isoladas sem eliminar a ponte verde e sem rotação de princípios ativos têm baixa eficácia e selecionam resistência.
Ela ataca outras plantas além do milho?
Não completa o ciclo em outras culturas. Pode pousar em sorgo ou braquiária, mas só se reproduz e sobrevive em milho.
Quando a cigarrinha é mais perigosa?
Da emergência até 30 dias (até V8). Infecções precoces causam as maiores perdas, por isso a proteção inicial é crucial.
Você sabia?
Só vive em milho
Dalbulus maidis é uma das poucas cigarrinhas monófagas do mundo. Sem milho vivo, morre em 3 a 5 dias e não completa o ciclo em nenhuma outra cultura.
As duas pintas que entregam
As duas manchas pretas no vértice da cabeça são a marca registrada da espécie e visíveis com lupa de 10x, dispensando microscópio para identificação no campo.
Vetora por toda a vida
Depois de adquirir o Spiroplasma ou o fitoplasma, a cigarrinha fica infectante de forma persistente e propaga o patógeno para todas as plantas que visitar até morrer.
Voo com vento a favor
Embora tenha só 4 mm, adultos marcados já foram recapturados a mais de 1 km da origem em 24 horas, explicando a rápida colonização de lavouras recém-emergidas.










