Resumo
- A lesma-do-mar é um molusco gastrópode marinho sem concha, com mais de 3.000 espécies de nudibrânquios conhecidas, reconhecível pelas cores vivas, rinóforos e brânquias expostas.
- Vive em todos os oceanos, mas é mais diversa e fácil de observar em recifes de coral e costões rochosos rasos até 30 m, onde se alimenta de forma altamente especializada.
- Não é perigosa se apenas observada, mas muitas espécies são tóxicas se tocadas ou ingeridas porque acumulam substâncias das presas e não devem ser manuseadas.
Características
Ficha da espécie
| Grupo | Molusco (gastrópode marinho) |
|---|---|
| Ordem | Nudibranchia (principal grupo; inclui Aplysiida e Sacoglossa) |
| Família | Diversas (Chromodorididae, Discodorididae, Glaucidae, entre outras) |
| Origem e distribuição | Cosmopolita, todos os oceanos; maior diversidade no Indo-Pacífico e Atlântico tropical |
| Tamanho | 0,5 a 60 cm (maioria 2 a 5 cm) |
| Peso | 1 g a 400 g conforme a espécie |
| Cores | brancoamarelolaranjavermelhoazulroxoverdepretomarrom |
| Profundidade | 0 a 2.500 m (maioria até 30 m) |
| Habitat | Recifes de coral, costões rochosos, poças de maré, fundos arenosos e mar aberto |
| Alimentação | Carnívora especializada (esponjas, cnidários, briozoários) ou herbívora (algas) |
| Reprodução | Hermafrodita, ovípara com desova em fita espiral |
| Expectativa de vida | 1 mês a 1 ano (raras até 2 anos) |
| Estado de conservação | Não Avaliada (NE) para a maioria das espécies |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Sociabilidade | Muito baixo |
| Inteligência | Baixo |
| Velocidade | Muito baixo |
| Capacidade de migração | Muito baixo |
| Importância para o ecossistema marinho | Alto |
Como identificar uma lesma-do-mar de verdade
A lesma-do-mar adulta não tem concha externa. Isso já a separa de caracóis e caramujos marinhos. O corpo é mole, alongado e geralmente muito colorido, com padrões que não se repetem em outras espécies do mesmo recife.
Procure por dois pares de estruturas na cabeça e no dorso. No topo da cabeça há os rinóforos, antenas químicas que parecem chifres e servem para farejar presas. No dorso, muitas espécies exibem as brânquias em forma de pluma ou ceratas (projeções alongadas). Se as brânquias formam uma coroa ao redor do ânus, é um nudibrânquio doridáceo; se são ceratas espalhadas, é um eolidáceo.
Confusões comuns acontecem com platelmintos marinhos (vermes achatados), que também são coloridos. A diferença: platelmintos deslizam com ondulações e não têm rinóforos nem brânquias visíveis. Lesmas-do-mar se movem com um pé muscular único e deixam rastro de muco.
- Tamanho real: a maioria cabe na unha do polegar, de 2 a 5 cm. Gigantes como Hexabranchus sanguineus (a dançarina-espanhola) chegam a 60 cm.
- Textura: pele nua, às vezes com tubérculos ou papilas, nunca escamas.
- Cor como aviso: tons neon de vermelho, azul e amarelo indicam aposematismo, ou seja, aviso de toxicidade.
Onde vive no Brasil e no mundo: do recife raso ao mar profundo
Lesmas-do-mar ocorrem em todos os oceanos, do Ártico à Antártica, mas a diversidade explode em águas tropicais. O Indo-Pacífico concentra mais de 1.000 espécies descritas, e o Atlântico tropical, incluindo o Brasil, tem centenas ainda pouco estudadas.
No Brasil, os melhores pontos são costões rochosos e recifes de coral do Nordeste, Sudeste e ilhas oceânicas como Fernando de Noronha e Atol das Rocas. Elas preferem profundidades de 0 a 30 m, onde há luz e presas fixas como esponjas. Algumas vivem em poças de maré, outras em fundos de areia e poucas são pelágicas, como Glaucus atlanticus, o dragão-azul que flutua na superfície.
Não é um animal migrador. Cada indivíduo vive em uma área pequena, de poucos metros quadrados, e depende da presença da presa específica. Por isso, a distribuição é em mosaico: você pode mergulhar 50 vezes no mesmo recife e só encontrar determinada espécie em uma fenda com a esponja certa.
O que come e por que fica colorida e tóxica
A alimentação é o ponto mais fascinante e explica a cor. Quase toda lesma-do-mar é extremamente especialista: uma espécie come apenas um ou dois tipos de esponja, outra só hidroides, outra só briozoários. Essa especialização é tão forte que a presença da lesma indica a presença da presa.
Ao comer, ela não digere tudo. Muitas sequestram metabólitos secundários tóxicos das esponjas e armazenam nas glândulas da pele. Outras, como os eolidáceos, roubam cnidócitos (células urticantes) de anêmonas e hidroides e os levam intactos para as ceratas, prontos para disparar contra predadores. É a cleptodefesa.
Um grupo à parte, os sacoglossos como Elysia, faz cleptoplastia: suga cloroplastos de algas e os mantém funcionais no corpo por semanas a meses, fazendo fotossíntese. É um dos poucos animais considerados parcialmente fotossintéticos.
- Dieta carnívora (nudibrânquios): esponjas, ascídias, briozoários, cnidários e até outras lesmas-do-mar.
- Dieta herbívora (sacoglossos e lebres-do-mar): algas verdes, vermelhas e cianobactérias.
- Consequência visual: pigmentos da presa e toxinas acumuladas definem a cor. Indivíduos da mesma espécie podem variar de cor conforme a dieta local.
Como se defende: toxinas, camuflagem e roubo de armas
Sem concha, a defesa é química e visual. Três estratégias se destacam e muitas espécies combinam mais de uma.
A primeira é o aposematismo: cores contrastantes que ensinam peixes a evitar o ataque. Experimentos mostram que peixes aprendem em uma única tentativa a cuspir nudibrânquios coloridos. A segunda é a camuflagem críptica: espécies que comem esponjas ou algas copiam exatamente a cor e a textura da presa, ficando invisíveis.
A terceira é a mais sofisticada: usar a arma do inimigo. Eolidáceos armazenam cnidócitos na ponta das ceratas e podem causar queimadura leve em humanos sensíveis. Doridáceos concentram terpenos tóxicos de esponjas em glândulas na borda do manto. Se um predador morde, recebe uma dose concentrada e raramente tenta de novo.
Reprodução hermafrodita e ciclo de vida curto
Toda lesma-do-mar é hermafrodita simultânea: cada indivíduo tem ovários e testículos funcionais ao mesmo tempo. Ainda assim, precisa de parceiro para cruzar, exceto raros casos de autofecundação. O acasalamento é recíproco e pode durar minutos a horas, com troca mútua de esperma.
A desova é inconfundível: uma fita gelatinosa em espiral, como uma rosa, fixada em rocha ou alga, com milhares de ovos microscópicos. A cor da fita varia de branca a amarela e rosa, conforme a espécie. Em águas tropicais, o desenvolvimento é rápido.
O ciclo é curto e intenso. A maioria vive de 1 mês a 1 ano. Passam por larva véliger planctônica que nada por dias a semanas antes de assentar no fundo e se transformar em lesma. Poucas espécies têm desenvolvimento direto, sem fase larval. Essa vida breve explica por que populações aparecem e somem sazonalmente no mesmo recife.
Quanto tempo vive cada fase?
| Fase | Duração típica |
|---|---|
| Ovo em fita espiral | 5 a 15 dias até eclosão |
| Larva véliger | 7 a 30 dias no plâncton |
| Juvenil bentônico | 2 a 4 semanas até maturidade |
| Adulto reprodutivo | 1 a 6 meses |
É perigosa para humanos? O que fazer ao encontrar uma
Para quem só observa, o risco é muito baixo. Lesmas-do-mar não mordem, não perseguem e não atacam. O problema surge se forem tocadas, espremidas ou ingeridas.
Algumas espécies concentram toxinas que podem causar irritação de pele, náusea e vômito se levadas à boca, e eolidáceos podem liberar cnidócitos que ardem como água-viva leve. O dragão-azul (Glaucus atlanticus), que acumula veneno de caravelas, é um dos poucos que pode causar queimadura dolorosa mesmo sem ser provocado, se encontrado na areia.
A regra é simples: não toque, não colete e não coloque na mão para foto. A pele humana tem óleos e protetor solar que prejudicam o animal, e a manipulação estressa e pode matar uma criatura que já vive pouco. Se tocar sem querer, lave as mãos e não leve à boca ou aos olhos.
Ameaças, conservação e por que não tocar
A maioria das espécies está como Não Avaliada (NE) na IUCN, não por estarem seguras, mas por falta de dados. São animais pequenos, crípticos e com taxonomia em constante revisão, o que dificulta avaliações.
As ameaças reais são as mesmas dos recifes: aquecimento e acidificação da água, poluição, sedimentação, coleta para aquariofilia e pisoteio em poças de maré. Como dependem de presas específicas, se a esponja ou o coral morre, a lesma desaparece junto. São excelentes bioindicadoras de saúde recifal.
No Brasil, a coleta é regulada e recifes estão em unidades de conservação onde a retirada de organismos é proibida. O turismo descontrolado, com virada de pedras para procurar bichos, destrói micro-habitats que levam anos para se recuperar.
Como observar lesmas-do-mar com responsabilidade
Observar lesmas-do-mar é um dos pontos altos do mergulho macro, mas exige técnica. Elas não estão nadando no azul; estão paradas sobre a presa, muitas vezes com menos de 1 cm.
Mergulhe devagar, com boa flutuabilidade, e procure em fendas, sob pedras parcialmente expostas e sobre esponjas coloridas. Use lanterna lateral para realçar cores e fotografe sem flash excessivo. Nunca vire pedras e deixe como encontrou; se virar para fotografar, recoloque exatamente na mesma posição.
Para quem faz snorkel, poças de maré bem preservadas em maré baixa são ótimas, mas pise apenas na areia, use sapatilha e não retire o animal da água. Registre local, profundidade e substrato e envie para projetos de ciência cidadã como iNaturalist, que ajudam a mapear a distribuição no Brasil.
Curiosidades que pouca gente sabe
A dançarina-espanhola nada ondulando o manto como um flamenco, comportamento raro entre lesmas que são rastejadoras. Já o dragão-azul flutua de barriga para cima usando uma bolha de ar no estômago e é contracorrente: o azul nas costas o camufla para aves e o prateado na barriga para peixes.
Algumas espécies praticam canibalismo seletivo e caçam outras lesmas-do-mar maiores que elas, seguindo o rastro químico de muco. E há espécies que incorporam toxinas tão potentes que estão sendo estudadas para fármacos antitumorais, como compostos isolados de Jorunna e Chromodoris.
Perguntas frequentes
Lesma-do-mar tem concha?
Na fase adulta, não. A larva tem concha temporária, mas o adulto perde a concha e se defende com toxinas e cores de aviso.
Lesma-do-mar é perigosa para humanos?
Se apenas observada, não. Pode causar irritação, queimadura leve ou intoxicação se for tocada com força ou ingerida, pois acumula toxinas das presas.
Qual a diferença entre lesma-do-mar e lesma terrestre?
São moluscos diferentes. A marinha vive no oceano, respira por brânquias expostas e tem rinóforos; a terrestre vive em terra, respira por pulmão e não tem essas estruturas.
Onde encontrar lesma-do-mar no Brasil?
Em recifes e costões rochosos de 0 a 30 m, como em Noronha, Abrolhos, Arraial do Cabo e Laje de Santos, sempre sobre ou perto da presa específica.
Lesma-do-mar pode ser criada em aquário?
Não é recomendada. É altamente especialista na alimentação, vive pouco e morre rapidamente sem a presa exata, além da coleta prejudicar recifes.
Por que a lesma-do-mar é tão colorida?
A cor serve como aviso de toxicidade ou como camuflagem perfeita sobre a presa. Muitas cores vêm diretamente dos pigmentos e toxinas que ela acumula ao comer.
O dragão-azul é uma lesma-do-mar?
Sim, Glaucus atlanticus é uma lesma pelágica que flutua na superfície e concentra veneno de caravelas, podendo causar queimadura se tocada na praia.
Fatos surpreendentes
Rouba armas urticantes intactas
Lesmas eolidáceas comem hidroides e anêmonas, guardam os cnidócitos sem disparar e os transportam para as ceratas, onde ficam prontos para queimar predadores.
Faz fotossíntese roubada
Sacoglossos como Elysia chlorotica sugam cloroplastos de algas e os mantêm ativos por meses, vivendo parcialmente de luz solar, um fenômeno chamado cleptoplastia.
Dragão-azul flutua ao contrário
Glaucus atlanticus engole ar, flutua de cabeça para baixo na superfície e acumula veneno de caravelas-portuguesas, ficando mais urticante que a própria presa.
Desova em forma de rosa
A fita de ovos em espiral pode conter até 1 milhão de ovos microscópicos e sua cor e padrão são tão específicos que ajudam a identificar a espécie.









