Resumo
- A cigarra-do-cafeeiro é a Quesada gigas, cigarra grande de 5 a 6,5 cm que passa 2 a 4 anos como ninfa subterrânea sugando raízes de café.
- O adulto vive só 30 a 60 dias, canta muito alto na estação chuvosa para acasalar e não pica nem é venenoso para humanos e pets.
- É considerada praga do cafeeiro por enfraquecer a planta, e seu manejo combina controle cultural, biológico e monitoramento da revoada.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Hemiptera |
|---|---|
| Família | Cicadidae |
| Origem e distribuição | Neotropical, do sul dos Estados Unidos ao Brasil e norte da Argentina |
| Tamanho | 5 a 6,5 cm de corpo; envergadura de 12 a 15 cm |
| Cores | marrom-escuropretoverde-olivabegeasas transparentes com veias escuras |
| Asas e voo | Dois pares de asas membranosas, voo rápido e ruidoso em distâncias curtas |
| Alimentação | Fitófaga, suga seiva do xilema de raízes (ninfas) e ramos (adultos) |
| Metamorfose | Incompleta (hemimetabolia): ovo > ninfa > adulto |
| Expectativa de vida | 2 a 4 anos no total; adulto vive 30 a 60 dias |
| Habitat | Solo de cafezais, cerrados, matas e pomares |
| Comportamento social | Solitária, mas emerge em grande número na revoada |
| Principais predadores | Pássaros, vespas, louva-a-deus, morcegos e fungos entomopatogênicos |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Médio |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Alto |
| Vida em grupo | Médio |
Como identificar a cigarra-do-cafeeiro sem confundir
A cigarra-do-cafeeiro é a Quesada gigas, a maior cigarra comum em cafezais brasileiros. O corpo é robusto, marrom-escuro a preto com manchas verde-oliva e bege, e as asas são transparentes com veias bem marcadas e escuras.
O tamanho entrega: 5 a 6,5 cm de comprimento e asas que abertas chegam a 15 cm. É bem maior que cigarrinhas verdes de lavoura e que a cigarra-ordinária menor. Os olhos são proeminentes e avermelhados em muitos indivíduos, e o macho tem o abdômen oco que funciona como caixa de ressonância.
A ninfa, que quase ninguém vê, é esbranquiçada a caramelo, sem asas, com pernas dianteiras em forma de pá para cavar. Ela fica enterrada a 20 a 60 cm de profundidade, agarrada às raízes. Se você arrancar um cafeeiro fraco e encontrar essas ninfas grudadas nas raízes, é sinal forte da espécie.
Onde vive e por que prefere o café
Quesada gigas é neotropical e ocorre do sul dos Estados Unidos e México até o Brasil e norte da Argentina. No Brasil está presente em Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e bordas da Amazônia, sempre onde há árvores para os adultos cantarem e solo com raízes para as ninfas.
A ligação com o café não é por acaso. O cafeeiro oferece sistema radicular denso e perene, ideal para uma ninfa que precisa sugar seiva por anos sem trocar de hospedeiro. Solos mais argilosos e úmidos, com sombreamento parcial, favorecem a sobrevivência das ninfas.
Fora do café, ela usa citros, eucalipto, mangueira e árvores nativas como hospedeiros alternativos. Por isso lavouras próximas a matas ou a pomares velhos tendem a ter mais pressão da praga. Ela não vive dentro de casas e só entra por acidente atraída pela luz durante a revoada.
O que ela come e como prejudica o cafeeiro
Tanto ninfa quanto adulto são sugadores de xilema, o vaso que leva água e sais minerais. A ninfa espeta as raízes finas com o estilete e suga continuamente. O adulto suga ramos finos, mas o dano econômico vem quase todo da fase subterrânea.
Ao sugar por meses a fio, a ninfa reduz o vigor, amarela as folhas, provoca desfolha e queda de produção. Em infestações altas, de 30 a 50 ninfas por cova, o cafeeiro definha, seca ponteiros e pode morrer, sobretudo em anos secos quando a planta já sofre com falta d’água.
Outro problema é a postura da fêmea. Ela corta com o ovipositor a casca de ramos finos para inserir de 200 a 600 ovos em fileiras. Esses cortes causam rachaduras, seca de ponteiros e porta de entrada para fungos. Não é à toa que o produtor percebe primeiro os ramos secos no topo antes de desconfiar das raízes.
Ciclo de vida longo: anos embaixo da terra
O ciclo é hemimetábolo e longo, de 2 a 4 anos dependendo do clima e da disponibilidade de seiva. Tudo começa na estação chuvosa, quando machos cantam e fêmeas acasalam nas copas.
Após a postura nos ramos, os ovos eclodem em 30 a 50 dias. As ninfinhas caem no chão, se enterram e vão para as raízes. Ali passam por cinco estádios de ninfa, crescendo devagar e trocando de pele no escuro.
Quando completa o desenvolvimento, a ninfa madura cava um túnel até a superfície, geralmente após chuvas fortes entre setembro e novembro. Ela sobe em troncos ou estacas, fixa-se e faz a última muda: sai o adulto alado. A exúvia marrom, vazia e agarrada ao tronco, é o vestígio mais fácil de encontrar na lavoura.
- Ovos: em ramos finos, 1 a 2 meses até eclodir
- Ninfa subterrânea: 2 a 4 anos sugando raízes
- Adulto: 30 a 60 dias para cantar, acasalar e morrer
O canto ensurdecedor: como e por que canta tanto
Só o macho canta, e a cigarra-do-cafeeiro é uma das mais barulhentas das Américas. O som vem dos timbales, membranas no abdômen que vibram até 400 vezes por segundo, amplificadas pelo abdômen oco. Pode passar de 90 decibéis a curta distância, audível a centenas de metros.
O canto tem duas funções: atrair fêmeas e marcar território contra outros machos. Cada espécie tem um padrão próprio, e o de Quesada gigas é um chiado contínuo, metálico e estridente, diferente do canto intermitente de outras cigarras menores.
O coro acontece nas horas mais quentes do dia, entre 10h e 16h, quando a temperatura favorece a vibração dos timbales. Por isso a revoada parece sumir de manhã cedo e no fim da tarde. Fêmeas são silenciosas e só se aproximam quando reconhecem o canto certo.
Pica, morde ou é venenosa? Riscos para pessoas e pets
Não pica, não morde e não tem veneno. O aparelho bucal é um estilete feito para perfurar planta, não pele. Acidentes são raríssimos e só ocorrem se alguém apertar o inseto contra a pele, podendo haver uma espetada superficial sem consequência médica.
Para cachorro, gato e pássaros domésticos, a ingestão acidental não é tóxica, mas pode causar engasgo ou irritação gástrica se o pet comer muitos adultos de uma vez, por causa das asas e pernas quitinosas. Não transmite doenças e não causa alergia relevante.
O único risco real é sonoro e de susto. O canto muito alto pode incomodar pessoas sensíveis a ruído, e o voo desajeitado assusta crianças. Se encontrar uma dentro de casa, basta apagar as luzes internas, acender uma externa e abrir a janela para ela sair sozinha. Em caso de espetada ou reação alérgica incomum, procure atendimento médico.
É praga mesmo? Papel no ecossistema e impacto na lavoura
Na mata, Quesada gigas tem papel ecológico: serve de alimento para aves, morcegos e vespas, e suas exúvias e adultos mortos devolvem nutrientes ao solo. As ninfas também arejam o solo ao cavar galerias. O problema surge na monocultura de café, onde há alimento farto e poucos predadores.
Em cafezais, é considerada praga-chave em Minas Gerais, São Paulo e Paraná, sobretudo em lavouras com mais de 4 anos e em solos onde o controle é difícil. O dano é silencioso porque acontece sob a terra, e o produtor só nota quando a planta já está fraca.
Por outro lado, ela não é polinizadora nem vetor de vírus como pulgões e cigarrinhas. Seu impacto é direto pela sucção. Em sistemas sombreados e com manejo biológico, a população costuma se manter baixa sem necessidade de intervenção química pesada.
Como conviver e fazer manejo sem matar outros insetos
Controle de cigarra-do-cafeeiro exige manejo integrado, porque a ninfa está protegida no solo. Não existe solução única e inseticida aplicado no adulto tem efeito muito limitado.
Medidas que funcionam melhor quando combinadas:
- Monitoramento da revoada: conte exúvias nos troncos e observe o pico de canto entre setembro e janeiro para saber onde há foco.
- Controle cultural: arranque e queime cafeeiros muito infestados e mortos, faça aração profunda em áreas para renovação e evite deixar raízes velhas no solo.
- Controle biológico: preserve inimigos naturais e use fungos entomopatogênicos como Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, aplicados no solo úmido no início das chuvas, que infectam as ninfas.
- Manejo do solo: mantenha cobertura vegetal e matéria orgânica para favorecer predadores de solo e dificultar a localização das raízes pelas ninfas recém-eclodidas.
Evite aplicações preventivas de inseticida de amplo espectro na copa durante o canto: matam abelhas, vespas predadoras e não atingem as ninfas. Se precisar intervir, busque orientação técnica da Emater ou Embrapa Café para escolher produto e época com base em análise de raízes.
O que torna a cigarra-do-cafeeiro diferente
Diferente de cigarrinhas que vivem semanas, Quesada gigas aposta na longevidade subterrânea. Essa estratégia de ficar anos sugando a mesma planta explica por que o dano é cumulativo e por que a praga reaparece no mesmo talhão ano após ano se as raízes infestadas não forem eliminadas.
Outro traço singular é a sincronia da emergência. Após anos isoladas, milhares de ninfas sobem quase juntas nas primeiras chuvas fortes, criando a revoada barulhenta que marca o início da safra em muitas regiões cafeeiras. É um evento previsível e, por isso, a melhor janela para monitorar e agir.
Perguntas frequentes
Cigarra-do-cafeeiro pica ou morde?
Não. Ela suga seiva de plantas e não tem ferrão nem veneno. Só pode dar uma espetada leve se for apertada contra a pele.
Por que ela canta tão alto?
Só o macho canta, vibrando membranas chamadas timbales no abdômen para atrair fêmeas e afastar outros machos. O abdômen oco amplifica o som.
Quanto tempo vive a cigarra-do-cafeeiro?
De 2 a 4 anos no total. A maior parte é como ninfa enterrada sugando raízes; o adulto alado vive apenas 30 a 60 dias.
Qual o dano dela no café?
As ninfas sugam raízes, enfraquecem a planta, amarelam folhas e reduzem a produção. Em alta infestação, podem matar o cafeeiro.
Como acabar com a cigarra-do-cafeeiro?
Com manejo integrado: monitorar a revoada, eliminar plantas muito infestadas, preservar inimigos naturais e aplicar fungos como Metarhizium no solo úmido com orientação técnica.
Ela aparece dentro de casa?
Raramente e por acidente, atraída por luz na época da revoada. Não faz ninho dentro de casa e sai sozinha se você apagar luzes internas e abrir janelas.
Você sabia?
Canto de 90 decibéis
O macho de Quesada gigas pode ultrapassar 90 dB a curta distância, equivalente a um cortador de grama, e ser ouvido a mais de 400 metros na lavoura.
Anos sem ver a luz
A ninfa passa até 3 anos no escuro total, a 60 cm de profundidade, respirando por espiráculos e sugando seiva sem nunca subir à superfície.
Exúvia como armadilha de monitoramento
Produtores contam as cascas vazias grudadas nos troncos após a revoada para estimar a infestação sem precisar cavar as raízes.
Fungo que a infecta por dentro
O fungo Metarhizium anisopliae penetra a cutícula da ninfa no solo úmido e é hoje a principal alternativa biológica ao controle químico no café.










