Resumo
- O besouro-da-cana é o Migdolus fryanus, besouro marrom de 1,2 a 3,7 cm cuja larva subterrânea é praga da cana-de-açúcar.
- O ciclo é longo e de metamorfose completa: a larva vive 2 a 3 anos no solo comendo raízes, enquanto o adulto vive só 8 a 20 dias e não se alimenta.
- Não pica, não morde e não é venenoso para pessoas e pets, mas causa grande prejuízo agrícola e é atraído por luz no período de revoada, de outubro a março.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Coleoptera |
|---|---|
| Família | Vesperidae (ex-Cerambycidae, subfamília Anoplodermatinae) |
| Origem e distribuição | Nativo da América do Sul, endêmico do Brasil (Centro-Sul e Nordeste) |
| Tamanho | Adulto: 12 a 37 mm; larva: até 50 mm de comprimento |
| Cores | marrom-escuromarrom-avermelhadopretobege (larva branco-amarelada) |
| Asas e voo | Alado, voo baixo e crepuscular; machos voam, fêmeas quase não voam |
| Alimentação | Larva rizófaga (raízes de cana); adulto não se alimenta |
| Metamorfose | Completa (ovo > larva > pupa > adulto) |
| Expectativa de vida | Larva 2 a 3 anos; pupa 20 a 40 dias; adulto 8 a 20 dias |
| Habitat | Solo de canaviais, pastagens e áreas com gramíneas; prefere solos arenosos e bem drenados |
| Comportamento social | Solitário; adultos se reúnem apenas para acasalamento na revoada |
| Principais predadores | Formigas, besouros predadores, aves, fungos entomopatogênicos (Beauveria, Metarhizium) |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Muito baixo |
Como identificar o besouro-da-cana: adulto e larva
O adulto do Migdolus fryanus é um besouro robusto, de corpo oval e coloração marrom-escura a marrom-avermelhada, quase preta em alguns indivíduos. Mede de 12 a 20 mm nos machos e 22 a 37 mm nas fêmeas, que são visivelmente maiores e mais largas.
As antenas são curtas e serrilhadas, as pernas são fortes e adaptadas para cavar, e os élitros (asas duras) cobrem todo o abdômen. Machos têm asas funcionais e voam; fêmeas têm voo muito limitado e costumam ser encontradas caminhando no solo.
A larva é completamente diferente: branco-amarelada, em forma de C, com cabeça marrom-avermelhada e mandíbulas pretas muito fortes. Pode chegar a 5 cm, é enrugada e brilhante, sem pernas aparentes. É ela que o produtor encontra ao arrancar uma touceira de cana falhada.
Como não confundir com a broca-gigante
A broca-gigante-da-cana (Telchin licus) é uma mariposa diurna de até 10 cm de envergadura, preta com manchas brancas e base das asas avermelhada. Sua lagarta é rosada e broqueia o colmo por dentro. Já o Migdolus é um besouro noturno, marrom e de larva subterrânea que ataca a raiz. São famílias e ordens diferentes.
Onde vive e distribuição no Brasil
O Migdolus fryanus é nativo e quase exclusivo do Brasil, com registros confirmados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Bahia. Ocorre principalmente no Cerrado e na Mata Atlântica, justamente onde se concentra a cana-de-açúcar.
Prefere solos arenosos, leves e bem drenados, onde a larva consegue se deslocar e cavar galerias. Em solos muito argilosos e encharcados a infestação costuma ser menor. Por isso, áreas de expansão da cana sobre pastagens arenosas do Centro-Oeste são as mais afetadas.
Fora da lavoura, pode aparecer em pastagens de braquiária, milharal e até em quintais próximos a canaviais durante a revoada. Não é um inseto urbano, mas é atraído por luzes à noite.
O que come e como ataca a cana-de-açúcar
O adulto não se alimenta. Seu aparelho bucal é atrofiado e sua única função é reproduzir. Todo o dano econômico vem da larva.
A larva é rizófaga obrigatória: consome raízes vivas, rizomas e a base subterrânea do colmo da cana. Uma única larva pode destruir várias raízes principais e abrir galerias que interrompem o fluxo de água e nutrientes. Em alta infestação, a touceira fica solta no solo e tomba com facilidade.
Os sintomas na lavoura são reboleiras de cana amarelada, falha de brotação e soqueiras mortas. Como o ataque é subterrâneo, o produtor só percebe quando a perda já está instalada. Em cana-planta e cana-soca, o prejuízo pode passar de 30% de produtividade na área afetada.
Ciclo de vida e reprodução: um dos mais longos entre pragas da cana
O ciclo é de metamorfose completa e excepcionalmente longo para um besouro: de 2 a 3 anos do ovo ao adulto, quase todo passado debaixo da terra.
A revoada acontece na estação chuvosa, de outubro a março, com pico entre novembro e janeiro, sempre ao entardecer após chuvas. Machos voam baixo, quase rente ao solo, em busca de fêmeas que liberam feromônio. O acasalamento ocorre no solo e a fêmea volta a se enterrar para ovipositar.
Cada fêmea põe 30 a 60 ovos isolados no solo, a 10 a 30 cm de profundidade, perto de touceiras de cana. Em 15 a 25 dias nascem as larvas, que passam por vários ínstares se alimentando de raízes. A fase larval dura até 700 a 900 dias.
Quando madura, a larva constrói uma câmara pupal no solo e se transforma em pupa por 20 a 40 dias. O adulto emerge, fica poucos dias enterrado e sai para a revoada. Vive apenas 8 a 20 dias.
Comportamento: voo crepuscular, vida subterrânea e atração por luz
É um inseto solitário e subterrâneo. Larvas não formam colônias e são canibais quando se encontram. Adultos não formam enxames, apenas se concentram brevemente na época de acasalamento.
O voo é curto, baixo e desajeitado, exclusivamente ao entardecer e início da noite. Durante o dia, adultos ficam enterrados. À noite, machos são fortemente atraídos por luz branca e ultravioleta, por isso aparecem em varandas e postes próximos a canaviais na época de chuva.
A defesa é passiva: quando manipulado, o adulto finge-se de morto (tanatose) e pode liberar um odor leve. Não morde, não pica e não tem ferrão.
Pica ou é venenoso? Riscos para pessoas e pets
O besouro-da-cana não pica, não morde, não tem veneno e não transmite doenças. É totalmente inofensivo para humanos, cachorros e gatos, mesmo se o pet morder ou ingerir um adulto.
O único incômodo é mecânico: as mandíbulas da larva são fortes e podem beliscar se a larva for apertada na mão, mas sem gravidade. Adultos podem dar uma pinçada leve com as pernas espinhosas se manuseados, sem risco alergênico relevante.
Cuidado apenas para não confundir com besouros peçonhentos ou com a lagarta da broca-gigante, que tem cerdas que podem irritar a pele. Em caso de ingestão por pets, observe apenas irritação gástrica passageira e ofereça água.
Papel no ecossistema: praga agrícola, não polinizador
Na natureza, antes da agricultura extensiva, o Migdolus vivia em gramíneas nativas do Cerrado em baixa densidade, sem causar desequilíbrio. Com a monocultura da cana, tornou-se praga-chave de solo.
Não é polinizador, não produz mel e não tem importância como decompositor. Seu papel ecológico atual é quase todo negativo para a agricultura, mas serve de alimento para predadores nativos e tem inimigos naturais importantes, como os fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana, usados no controle biológico.
| Característica | Migdolus fryanus (besouro-da-cana verdadeiro) | Telchin licus (broca-gigante, chamada erroneamente de besouro) |
|---|---|---|
| Ordem | Coleoptera (besouro) | Lepidoptera (mariposa) |
| Ataca | Raízes e rizoma | Interior do colmo |
| Larva | Branca, em C, no solo | Rosada, dentro do colmo |
| Adulto | Marrom, noturno, não se alimenta | Preto com branco e vermelho, diurno |
Como conviver e controlar quando vira praga
Em casa, não é necessário controle. Se adultos entrarem atraídos pela luz na revoada, basta apagar luzes externas, fechar janelas e devolvê-los para fora. Não use inseticida doméstico: eles morrem em poucos dias sozinhos.
Na lavoura, o manejo é integrado e preventivo, pois a larva fica protegida no solo:
- Monitoramento na revoada: armadilhas luminosas e contagem de adultos de outubro a março indicam onde haverá oviposição.
- Preparo do solo e destruição de soqueiras: aração expõe larvas e pupas a predadores e sol.
- Controle biológico: aplicação de Metarhizium anisopliae no sulco de plantio é a estratégia mais usada e recomendada pela Embrapa.
- Rotação e escolha de área: evitar cana contínua em solo arenoso muito infestado; preferir áreas com histórico baixo.
Inseticidas químicos de solo têm eficiência limitada e alto impacto ambiental, por isso só devem ser considerados com recomendação agronômica. Nunca aplique produtos sem orientação técnica.
Curiosidades e erros comuns
Um fato pouco conhecido é que a fêmea do Migdolus é quase áptera funcional: ela raramente voa e passa a vida adulta quase toda enterrada, enquanto o macho é o grande voador. Por isso, a maioria dos besouros que você vê voando são machos.
Outro dado curioso: a larva pode jejuar por meses e se deslocar até 50 cm no solo em busca de nova touceira, o que explica reboleiras que aumentam a cada ano. E o adulto, por não se alimentar, vive de reservas acumuladas na fase larval, como borboletas que não comem.
O erro mais comum é achar que qualquer besouro marrom na cana é o besouro-da-cana. Besouros como o bicudo-da-cana (Sphenophorus levis) também atacam rizomas, mas são gorgulhos de bico longo, bem diferentes do Migdolus.
Perguntas frequentes
Besouro-da-cana pica ou morde?
Não. O Migdolus fryanus não pica, não morde e não tem ferrão. A larva pode dar um beliscão se for apertada, sem gravidade.
Besouro-da-cana é venenoso?
Não é venenoso para pessoas, cachorros ou gatos. Não possui veneno e não transmite doenças.
Qual a diferença entre besouro-da-cana e broca-gigante?
O besouro-da-cana verdadeiro (Migdolus fryanus) é um besouro marrom cuja larva come raízes no solo. A broca-gigante (Telchin licus) é uma mariposa preta e branca cuja lagarta rosada broqueia o colmo por dentro.
Por que aparece tanto besouro marrom na luz entre outubro e março?
É a revoada de acasalamento do Migdolus. Machos voam ao entardecer após chuvas, atraídos por luz branca, para encontrar fêmeas no solo.
Como acabar com besouro-da-cana na lavoura?
O manejo mais eficaz é integrado: monitoramento com armadilha luminosa, destruição de soqueiras, rotação de áreas e controle biológico com Metarhizium anisopliae no plantio, sempre com orientação agronômica.
Besouro-da-cana ataca outras plantas além da cana?
Sim, a larva pode se alimentar de raízes de braquiária, milho e outras gramíneas, mas o dano econômico relevante é em cana-de-açúcar.
Quanto tempo vive o besouro-da-cana?
A larva vive 2 a 3 anos enterrada, a pupa 20 a 40 dias e o adulto apenas 8 a 20 dias sem se alimentar.
Você sabia?
Fêmeas que quase não voam
No Migdolus fryanus, os machos fazem quase todos os voos de revoada. As fêmeas são maiores, mais pesadas e passam a vida adulta enterradas, saindo apenas para acasalar e ovipositar.
Adulto que não come
O besouro adulto não possui aparelho bucal funcional e não se alimenta de nada. Toda energia para os 8 a 20 dias de vida vem do que a larva acumulou em até 3 anos comendo raízes.
Larva nômade e resistente
A larva pode se deslocar até meio metro no solo atrás de novas raízes e sobreviver meses sem se alimentar, o que torna a praga persistente mesmo após a colheita.
Nome que engana
O verdadeiro besouro-da-cana é um coleóptero subterrâneo, mas muita gente chama a broca-gigante (Telchin licus), que é uma mariposa, pelo mesmo nome. São ordens diferentes.











