Resumo
- A lagarta-do-cartucho é a larva da mariposa Spodoptera frugiperda, praga polífaga que prefere milho mas ataca soja, algodão e sorgo.
- É identificada pelo Y invertido na cabeça e por 4 pontos pretos em quadrado no último segmento, com ciclo completo de 28 a 35 dias em clima quente.
- Não é venenosa para humanos e pets, mas causa dano severo às plantas e exige manejo integrado com monitoramento e controle biológico.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Lepidoptera |
|---|---|
| Família | Noctuidae |
| Origem e distribuição | Américas tropical e subtropical; invasiva na África, Ásia e Oceania desde 2016 |
| Tamanho | Lagarta: 30 a 35 mm; Adulto: 32 a 40 mm de envergadura |
| Cores | verde-claromarrom-escuropretobegecinzabranco |
| Asas e voo | 2 pares de asas, voo noturno e migratório de até 100 km por noite |
| Alimentação | Polífaga, mais de 80 plantas hospedeiras |
| Metamorfose | Completa (ovo, lagarta, pupa, adulto) |
| Expectativa de vida | Lagarta 14 a 21 dias; Adulto 10 a 21 dias; Ciclo total 28 a 35 dias no verão |
| Habitat | Interior do cartucho do milho, espigas, lavouras e pastagens |
| Comportamento social | Solitária e canibal após o 3º ínstar |
| Principais predadores | Tesourinha, joaninha, vespas Trichogramma e Cotesia, pássaros |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Baixo |
Como identificar a lagarta-do-cartucho sem confundir
A identificação correta evita confusão com outras lagartas do milho, como a Helicoverpa armigera ou a lagarta-da-espiga. A lagarta-do-cartucho tem três marcas que, juntas, são definitivas.
Procure o Y invertido de cor clara na cápsula cefálica (a cabeça marrom-escura). Depois, olhe o final do abdômen: ela tem quatro pontos pretos elevados formando um quadrado no penúltimo segmento. Nenhuma outra lagarta comum do milho reúne os dois sinais.
A coloração varia muito e confunde. Lagartas novas são verde-claras com cabeça preta, enquanto as mais velhas ficam marrom-escuras a quase pretas com três linhas longitudinais claras no dorso. O corpo tem pelos curtos e aspecto levemente áspero.
O adulto é uma mariposa noturna de 32 a 40 mm de envergadura. O macho tem asas anteriores acinzentadas com manchas claras e uma mancha branca circular bem visível; a fêmea é mais uniforme e acastanhada. De dia ela se esconde na vegetação.
Onde vive e por que se espalhou tanto no Brasil
A espécie é nativa das Américas tropicais e subtropicais e ocorre em todo o Brasil, do Rio Grande do Sul ao Nordeste. Prefere clima quente e úmido, mas tolera bem o Cerrado seco na safrinha.
Vive quase sempre dentro do cartucho do milho, que é o funil formado pelas folhas novas enroladas. Esse micro-habitat protege a lagarta de sol, chuva e muitos inimigos naturais. Também ocupa espigas, ponteiros de cana e pastagens.
É uma migrante poderosa. A mariposa voa à noite e pode percorrer até 100 km em uma única noite com ajuda do vento. Foi assim que, a partir de 2016, saiu das Américas e invadiu África, Índia, China e Austrália em menos de quatro anos.
No Brasil, está presente em todos os biomas, mas a pressão é maior no Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga agrícola, onde há milho safrinha e irrigado o ano todo. A ausência de vazio sanitário mantém alimento constante.
O que ela come: muito além do milho
Apesar do nome, é uma das lagartas mais polífagas do mundo, com mais de 80 plantas hospedeiras registradas. A preferência é por gramíneas, mas a lista inclui culturas de alto valor.
- Preferenciais: milho, sorgo, arroz, milheto, capim-braquiária e cana-de-açúcar
- Secundárias muito atacadas: algodão, soja, feijão, amendoim e tomate
- Hospedeiras alternativas: plantas daninhas como capim-carrapicho e tiririca, que mantêm a praga na entressafra
Existem dois biotipos genéticos: o biotipo milho e o biotipo arroz, que preferem essas culturas. Na prática, ambos se cruzam e atacam milho, por isso o manejo não muda por biotipo no campo.
Lagartas pequenas raspam as folhas deixando áreas translúcidas tipo janela. Lagartas maiores comem o cartucho por dentro, cortam folhas novas e destroem o pendão antes mesmo de ele sair.
Ciclo de vida e reprodução: rápido e explosivo
O ciclo é de metamorfose completa e muito curto no calor. No verão do Brasil Central, de ovo a adulto leva 28 a 35 dias; no inverno, pode passar de 50 dias.
A fêmea põe 100 a 300 ovos por postura, cobertos por escamas da própria mariposa que parecem penugem cinza. Uma única fêmea pode colocar mais de 1.000 ovos em 3 a 4 posturas, geralmente na face superior das folhas.
Os ovos eclodem em 2 a 3 dias. A lagarta passa por 6 ínstares em 14 a 21 dias. Nos três primeiros ínstares ela é gregária e fica raspando folhas; a partir do 4º ínstar vira solitária e canibal — só uma lagarta grande sobrevive por cartucho.
Depois, desce ao solo e vira pupa marrom-avermelhada de 14 a 18 mm, enterrada a 2 a 5 cm de profundidade. Em 7 a 12 dias emerge a mariposa, que vive 10 a 21 dias e já acasala na primeira noite.
Como age na lavoura e sinais de ataque no cartucho
O dano mais característico é no cartucho do milho nos estádios V3 a V12. Ao abrir as folhas enroladas, você encontra fezes úmidas tipo serragem e folhas perfuradas em linha quando se desenrolam.
Em infestação alta, a lagarta destrói o ponto de crescimento e causa sintoma de coração morto, com murchamento da folha central. Na fase reprodutiva, ataca espigas, cabelos e grãos leitosos, abrindo porta para fungos e micotoxinas.
Na soja e no algodão, o ataque é diferente. Ela corta plântulas na base, desfolha e perfura maçãs e vagens. Como prefere tecidos novos, o prejuízo é maior em lavouras jovens.
Um detalhe de campo importante: lagartas grandes dentro do cartucho são difíceis de atingir com pulverização porque ficam protegidas. Por isso o monitoramento tem que pegar ovos e lagartas pequenas, de até 1 cm.
É perigosa para pessoas, pets e abelhas?
Não. A lagarta-do-cartucho não pica, não morde, não tem cerdas urticantes e não é venenosa. O contato acidental com pele, cachorro ou gato não causa alergia nem intoxicação. Ela só oferece risco econômico.
O risco real é indireto e vem do uso incorreto de inseticidas. Aplicações sem critério matam abelhas, tesourinhas e vespas parasitoides que controlam naturalmente a praga. Na nossa avaliação, esse é o maior erro em áreas pequenas e hortas.
Para abelhas, a mariposa adulta é visitante noturna de flores, mas não é polinizadora relevante. O perigo para as abelhas vem da contaminação por pulverização diurna em milho florescendo.
Se uma criança ou pet ingerir acidentalmente a lagarta, não há toxicidade, mas observe e lave a boca. Procure atendimento médico apenas se houver reação atípica, o que é extremamente raro.
Manejo integrado: como controlar de verdade
Controle eficiente não é aplicar veneno no susto. É monitoramento + medidas combinadas. A Embrapa recomenda o manejo integrado de pragas (MIP) com nível de ação claro.
Monitoramento: vistorie 20 plantas por talhão, duas vezes por semana. O nível de ação no milho é 20% de plantas com lagartas pequenas (até 1 cm) no cartucho na fase vegetativa. Use também armadilha com feromônio para capturar mariposas machos e antecipar o pico.
- Controle biológico: liberação de Trichogramma pretiosum (parasita ovos) e Bacillus thuringiensis (Bt) é altamente eficaz contra lagartas novas e preserva inimigos naturais
- Cultural: rotação de culturas, destruição de restos culturais, controle de plantas daninhas hospedeiras e vazio sanitário reduzem a população na entressafra
- Milho Bt: híbridos com proteínas Cry1Ab, Cry1F e Vip3Aa ajudam muito, mas já há populações resistentes no Brasil — é essencial refúgio de 10% com milho não-Bt
- Químico quando necessário: use apenas com recomendação técnica, preferindo produtos seletivos e aplicação no final da tarde, direcionada ao cartucho
Em horta doméstica, catação manual e Bt resolvem sem precisar de inseticida químico. Nunca aplique produto de lavoura em dose caseira.
Curiosidades e erros comuns que atrapalham o controle
Um erro comum é achar que toda lagarta verde no milho é cartucho. Lagarta-do-cartucho jovem é verde, mas tem cabeça preta e Y invertido; outras lagartas verdes têm cabeça da mesma cor do corpo. Olhar a cabeça evita aplicação desnecessária.
Outro mito é que milho Bt não precisa de monitoramento. Precisa. A resistência a proteínas Bt já foi confirmada em várias regiões do Brasil desde 2011, justamente por falta de área de refúgio e uso contínuo do mesmo híbrido.
A lagarta também tem um comportamento curioso: quando perturbada, se enrola e se deixa cair no solo pendurada por um fio de seda. No solo, ela se enterra rapidamente para empupar, escapando de predadores e de pulverizações mal direcionadas.
Perguntas frequentes
Como identificar a lagarta-do-cartucho com certeza?
Procure o Y invertido claro na cabeça marrom e os 4 pontos pretos em quadrado no penúltimo segmento do abdômen. A combinação dos dois sinais confirma a espécie.
Lagarta-do-cartucho pica ou é venenosa?
Não. Ela não tem cerdas urticantes, não pica e não é venenosa para pessoas, cachorros ou gatos. O dano é apenas agrícola.
Qual a diferença para a lagarta-da-espiga?
A do cartucho prefere o funil de folhas novas e tem o Y na cabeça; a da espiga (Helicoverpa) ataca mais a espiga e tem pelos e coloração mais variável, sem o Y.
Quanto tempo vive a lagarta-do-cartucho?
A fase de lagarta dura 14 a 21 dias. O ciclo completo de ovo a mariposa leva 28 a 35 dias no verão quente.
Como acabar com a lagarta-do-cartucho no milho?
Use manejo integrado: monitore, aplique Bt ou Trichogramma em lagartas pequenas, faça rotação de culturas e respeite o refúgio do milho Bt. Inseticida só com critério técnico.
Milho Bt é resistente à lagarta-do-cartucho?
Ajuda muito, mas não é 100%. Já há populações resistentes no Brasil, por isso é obrigatório plantar 10% de refúgio com milho não-Bt e monitorar.
Quando a lagarta-do-cartucho ataca mais?
De setembro a abril, com pico no milho safrinha de janeiro a abril, quando há calor, umidade e alimento abundante.
Você sabia?
Canibal por natureza
A partir do 4º ínstar a lagarta-do-cartucho se torna canibal. Por isso, mesmo que 10 lagartas eclodam no mesmo cartucho, em poucos dias sobra apenas uma dominante.
Viajante intercontinental
Em 2016 ela cruzou o Atlântico e em menos de 4 anos colonizou mais de 70 países da África e Ásia, voando à noite com correntes de vento. É considerada uma das invasões mais rápidas da história agrícola.
Ovos com cobertor
A fêmea cobre a postura com escamas do próprio abdômen, formando uma camada felpuda cinza que protege os ovos de predadores e de inseticidas de contato.
Resistência recorde
No Brasil já foram detectadas populações resistentes a piretroides, organofosforados e a algumas proteínas Bt, o que obriga rotação de mecanismos de ação no manejo.










