Resumo
- A burra-leiteira é uma árvore nativa pioneira de 10 a 20 metros, de crescimento rápido e copa arredondada, comum na Mata Atlântica e Cerrado.
- Reconhece-se pelo látex branco tóxico, folhas com duas glândulas na base do limbo e frutos trilobados que se abrem de forma explosiva.
- É muito usada em restauração florestal, apicultura e sombra rural, mas não é indicada para calçadas ou quintais pequenos com crianças e pets.
Características
Ficha da árvore
| Nome popular | Burra-leiteira |
|---|---|
| Nome científico | Sapium glandulosum (L.) Morong |
| Família botânica | Euphorbiaceae |
| Origem | Nativa do Brasil e América do Sul |
| Tamanho | 10 a 20 m de altura (até 25 m na mata) |
| Copa | Arredondada a piramidal, 6 a 10 m de diâmetro |
| Folhagem | Semidecídua |
| Crescimento | Rápido nos primeiros 3 a 5 anos |
| Luminosidade | Sol pleno |
| Rega | Moderada; tolera seca curta após estabelecida |
| Solo | Fértil, profundo e bem drenado; tolera solos pobres e ácidos |
| Usos | Restauração florestal, sombra rural, apicultura, madeira leve |
| Longevidade | 40 a 60 anos |
Perfil e comportamento
| Velocidade de crescimento | Alto |
|---|---|
| Sombra | Alto |
| Resistência à seca | Médio |
| Agressividade das raízes | Baixo |
| Facilidade de cultivo | Alto |
| Atrai fauna | Muito alto |
O que é a burra-leiteira e como reconhecê-la
A burra-leiteira é Sapium glandulosum, árvore nativa pioneira da família Euphorbiaceae, a mesma da seringueira e do amendoim-bravo. O nome vem do látex branco abundante que jorra de qualquer corte na casca, nos ramos ou nas folhas.
Na nossa avaliação, ela é uma das pioneiras mais eficientes do Sul e Sudeste para quem precisa cobrir o solo rápido. Não é árvore de calçada nobre nem de jardim pequeno, mas sim de restauração, beira de mata e sombra no sítio.
Confunde-se muito com Sapium haematospermum e com seringueiras jovens. O detalhe que entrega a burra-leiteira são as duas glândulas arredondadas na base da folha, na junção com o pecíolo, visíveis a olho nu.
Tamanho, copa, tronco e raízes: o que esperar no terreno
Em campo aberto chega a 10 a 15 metros com tronco curto e copa larga. Dentro de mata fechada estica e pode passar de 20 a 25 metros buscando luz, com fuste mais retilíneo.
A copa é arredondada a piramidal, com 6 a 10 metros de diâmetro, medianamente densa. Oferece sombra boa, mas não fechada como a de uma figueira, o que permite grama rala embaixo.
O tronco tem casca acinzentada, lisa quando jovem e levemente fissurada com a idade, com lenticelas claras. As raízes são pouco agressivas e não tabulares, o que é uma vantagem sobre outras pioneiras. Mesmo assim, mantenha 5 a 8 metros de distância de muros, fossas e tubulações.
Onde vive no Brasil: distribuição e habitat natural
É nativa e amplamente distribuída, do Nordeste ao Rio Grande do Sul, com maior frequência no Sudeste e Sul. Ocorre na Mata Atlântica, Cerrado, matas ciliares e capoeiras, de 0 a 1.200 metros de altitude.
É heliófita pioneira: coloniza clareiras, pastos abandonados, barrancos e beira de estrada. Tolera geada fraca a moderada no Sul e seca curta no Cerrado, mas não aguenta encharcamento prolongado.
Por ser comum em áreas antropizadas, muita gente a encontra como “mato” nascendo sozinha no terreno. Se deixar, em 3 anos já forma poleiro para pássaros e começa a melhorar o solo para outras espécies.
Folhas, flores e frutos: como identificar sem erro
As folhas são alternas, simples, elípticas a lanceoladas, com 5 a 10 cm, margem finamente serreada e brilho na face superior. O par de glândulas nectaríferas na base atrai formigas que, em troca, protegem a planta contra lagartas.
A floração é discreta, em espigas amareladas de 5 a 12 cm, sem pétalas vistosas. Floresce principalmente entre agosto e novembro, com forte cheiro adocicado que atrai abelhas.
O fruto é uma cápsula trilobada de 1 a 1,5 cm, verde e depois marrom, que se abre de forma explosiva lançando 3 sementes. Cada semente tem uma carúncula vermelha que atrai sabiás, saíras e bem-te-vis, principais dispersores.
Como não confundir
- Burra-leiteira vs. leiteiro (Sapium haematospermum): o leiteiro tem sementes com arilo vermelho mais carnoso e ocorre mais no Pampa; a burra tem glândulas foliares mais evidentes.
- Burra-leiteira vs. seringueira (Hevea brasiliensis): seringueira tem folha trifoliolada; burra tem folha simples.
O leite tóxico: riscos para gente e animais
Todo o látex é tóxico e irritante. Contém ésteres de forbol e outras substâncias que causam dermatite, vermelhidão, coceira e, nos olhos, irritação forte e risco de lesão na córnea.
Ingestão de folhas ou sementes provoca náusea, vômito e diarreia em humanos, cachorros e gatos. O gado geralmente evita, mas filhotes curiosos podem morder ramos caídos.
Use luvas e óculos ao podar e nunca deixe crianças brincarem com o “leite”. Lave bem as mãos e ferramentas após o manejo. Não use o látex como remédio caseiro, prática antiga e perigosa ainda citada no interior.
Como plantar: quando, onde e como propagar
Plante no início da estação chuvosa, de outubro a dezembro na maior parte do Brasil. Escolha sol pleno e solo profundo, mesmo que pobre. Evite baixadas encharcadas.
A propagação é quase sempre por sementes. Colha cápsulas quando começarem a rachar, seque à sombra por 1 a 2 dias até abrirem e semeie logo, pois perdem viabilidade rápido. A germinação ocorre em 15 a 30 dias sem tratamento, com taxa alta.
Para muda: use saquinho de 15 x 25 cm com substrato leve, cubra levemente a semente e mantenha úmido. Leve a campo com 30 a 50 cm, já rústica. Estacas pegam mal e não valem o esforço.
No plantio de restauração, use espaçamento de 3 x 3 metros como pioneira, intercalada com espécies secundárias. Ela cresce rápido e em 2 anos já sombreia o solo, abafando gramíneas invasoras.
Como cuidar: luz, solo, rega e poda
É árvore de baixa manutenção depois de pegada. Nos primeiros 6 a 12 meses, irrigue 1 a 2 vezes por semana se não chover. Depois, só em estiagens longas.
Não exige adubação pesada. Uma cova de 40 x 40 x 40 cm com composto orgânico e 100 g de calcário já basta em solos ácidos. Em solos muito pobres, uma cobertura anual com matéria orgânica acelera o arranque.
A poda deve ser leve e apenas de formação, para conduzir um tronco único nos dois primeiros anos. Podas drásticas provocam brotação excessiva e muito látex. Sempre com ferramentas limpas e proteção para os olhos.
Usos no paisagismo, na natureza e na madeira
O principal valor hoje é ecológico. É melífera de primeira linha, com florada que sustenta abelhas nativas e Apis mellifera na entressafra, e frutificação que alimenta aves. Por isso entra em quase todo projeto de restauração florestal e mata ciliar no Sul e Sudeste.
No paisagismo rural funciona como árvore de sombra para pasto, pátio e beira de açude, além de quebra-vento. Não recomendamos para calçada urbana estreita ou sob fiação, pelo tamanho e pelo látex que mancha e irrita.
A madeira é leve, macia e de baixa durabilidade, com densidade em torno de 0,40 a 0,50 g/cm³. Serve para caixotaria, forros, brinquedos e lenha, mas não para estruturas. Historicamente o látex foi usado para adulterar borracha e como “cola” improvisada, uso hoje abandonado pela toxicidade.
Pragas, doenças e problemas comuns
É rústica e pouco atacada. O problema mais comum são lagartas desfolhadoras e cochonilhas em mudas estressadas por sombra ou encharcamento. Formigas cortadeiras podem atacar folhas jovens em plantios novos.
Em viveiro, excesso de água causa tombamento (damping-off). Garanta substrato bem drenado e sol pleno desde cedo. Em campo, a própria fauna de formigas atraída pelas glândulas foliares ajuda no controle biológico.
Queda de folhas mais intensa no inverno é normal, pois é semidecídua. Se a desfolha vier com manchas pretas e látex escurecido, pode ser antracnose; remova ramos afetados e melhore a ventilação.
Curiosidades que só a burra-leiteira tem
A dispersão é dupla: a cápsula explode e arremessa as sementes a metros e, depois, as aves levam as que caíram atraídas pela carúncula vermelha. Essa estratégia explica por que ela aparece tão rápido em áreas abertas.
As glândulas da folha são nectários extraflorais. Elas produzem néctar fora da flor só para alimentar formigas guarda-costas, um mutualismo bem estudado em Euphorbiaceae.
Apesar do nome, não tem relação com “burra” no sentido de animal. “Burra” aqui vem de burra-de-leite, vaso rústico onde se guardava látex, e o leite lembra o aspecto do látex branco.
Perguntas frequentes
Burra-leiteira é tóxica?
Sim. O látex branco é irritante para pele e olhos e tóxico se ingerido. Mantenha crianças e pets longe e use luvas e óculos ao podar.
Qual a diferença entre burra-leiteira e seringueira?
A seringueira tem folha composta por 3 folíolos; a burra-leiteira tem folha simples com duas glândulas na base. O látex da seringueira é elástico, o da burra é mais aquoso e irritante.
Burra-leiteira serve para calçada?
Não é recomendada. Atinge 10 a 20 metros, solta látex manchador e frutos que sujam. Prefira espécies de pequeno tamanho para calçadas.
Como plantar burra-leiteira?
Por sementes recém-colhidas, em sol pleno, no início das chuvas (outubro a dezembro). Germina em 15 a 30 dias e vai a campo com 30 a 50 cm.
Atrai abelhas e pássaros?
Sim, muito. A floração de agosto a novembro é altamente melífera e as sementes com carúncula vermelha atraem sabiás, saíras e bem-te-vis.
Perde as folhas no inverno?
Sim, é semidecídua. Perde boa parte das folhas entre junho e agosto, brotando novamente na primavera.
Você sabia?
Látex que já falsificou borracha
No início do século 20, o leite da burra-leiteira era misturado à borracha de seringueira para aumentar volume, mas deixava o produto quebradiço e foi proibido na indústria.
Formigas de aluguel
As duas glândulas na base da folha produzem néctar fora da época de flor para manter formigas patrulhando a árvore o ano todo contra lagartas.
Fruto que estoura
A cápsula seca cria tensão e explode com estalo audível, arremessando sementes a até 4 metros de distância da copa.
Semente com isca vermelha
Cada semente carrega uma carúncula vermelha e oleosa que não alimenta a planta, mas serve só para atrair sabiás e saíras que a dispersam.










