Resumo
- A filoxera é um inseto sugador de 0,8 a 1,2 mm que ataca apenas videiras, formando galhas nas folhas e nódulos nas raízes.
- Originária do leste dos Estados Unidos, espalhou-se por todos os continentes e no Brasil está presente principalmente nos vinhedos do Sul e Sudeste.
- Não pica pessoas nem animais, mas é a praga mais destrutiva da videira: sem manejo com porta-enxertos resistentes, mata a planta em poucos anos.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Hemiptera |
|---|---|
| Família | Phylloxeridae |
| Origem e distribuição | Leste dos Estados Unidos; hoje cosmopolita, presente em todos os continentes com viticultura |
| Tamanho | 0,8 a 1,2 mm (adulto); ninfas com 0,3 mm |
| Cores | amarelo-pálidoverde-amareladomarrom-alaranjado |
| Asas e voo | Maioria áptera; forma alada rara, com 1 par de asas membranosas, voo curto e fraco |
| Alimentação | Fitófaga, sugadora de seiva de raízes e folhas de videira |
| Metamorfose | Incompleta (hemimetábola) |
| Expectativa de vida | 20 a 30 dias como adulta; ciclo ovo-adulto de 10 a 25 dias |
| Habitat | Vinhedos, parreirais e videiras selvagens |
| Comportamento social | Gregário, vive em colônias de centenas a milhares de indivíduos |
| Principais predadores | Joaninhas, crisopídeos, ácaros predadores e fungos entomopatogênicos |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Muito alto |
O que é a filoxera e por que ela ficou famosa
A filoxera (Daktulosphaira vitifoliae) é um pulgão microscópico sugador que vive exclusivamente em videiras. Não é ácaro, não é cochonilha e não ataca outras frutíferas com importância econômica.
Sua fama vem da Grande Praga da Filoxera na Europa. Introduzida acidentalmente da América do Norte por volta de 1860, ela encontrou videiras europeias (Vitis vinifera) sem nenhuma resistência. Em três décadas, destruiu cerca de 70% dos vinhedos franceses e se espalhou por Portugal, Espanha, Itália e depois pelo mundo.
A solução que salvou o vinho foi biológica, não química: enxertar a parte produtiva europeia sobre raízes de videiras americanas resistentes, como Vitis riparia e Vitis rupestris. Técnica usada até hoje em praticamente todo vinhedo comercial.
Como identificar a filoxera: tamanho, cor e sinais na planta
Ver o inseto a olho nu é difícil. O adulto tem 0,8 a 1,2 mm, corpo oval e mole, sem divisão nítida entre cabeça, tórax e abdômen. A cor varia de amarelo-pálido a marrom-alaranjado conforme a fase e a alimentação. Não tem o aspecto de mosca ou besouro.
O que o produtor realmente vê são os sintomas na videira:
- Nas folhas (principalmente em videiras americanas e híbridas): galhas verrugosas na face inferior, com abertura na face superior, de 3 a 8 mm, amareladas a avermelhadas.
- Nas raízes (o dano mais grave, em Vitis vinifera): nodosidades nas radicelas jovens e tuberosidades nas raízes mais grossas, que apodrecem e escurecem.
- Na planta toda: amarelecimento, definhamento, queda de vigor e morte em 3 a 5 anos quando o ataque é radicular e sem porta-enxerto resistente.
Confusão comum é com cochonilha-da-raiz e pérola-da-terra (Eurhizococcus brasiliensis), outra praga da videira no Sul do Brasil. A pérola forma cistos brancos e arredondados como pérolas, bem diferentes das galhas e nódulos da filoxera.
Onde vive e como se espalhou pelo mundo e pelo Brasil
A origem é o leste dos Estados Unidos, onde convive há milhares de anos com videiras americanas em equilíbrio. Essas videiras desenvolveram resistência e toleram o inseto sem morrer.
A partir de 1863, com o comércio de mudas, chegou à Europa e depois à África do Sul, Austrália, Ásia e América do Sul. Hoje está presente em praticamente toda região vitícola do mundo, exceto áreas com quarentena rigorosa, como partes do Chile e alguns vales isolados.
No Brasil, foi registrada no Rio Grande do Sul no início do século XX e hoje ocorre em RS, SC, PR, SP, MG e no Vale do São Francisco. Em vinhedos de Vitis vinifera para vinho fino sem porta-enxerto, o risco é máximo. Em parreirais de mesa com cultivares americanas como Isabel e Niagara, o dano costuma ser apenas foliar.
O que a filoxera come e por que só a videira importa
É monófaga: alimenta-se apenas de Vitis spp. Usa um estilete bucal para sugar seiva e injetar saliva que altera o crescimento da planta e forma as galhas e nódulos.
Há duas formas de alimentação bem distintas:
- Forma galícola: vive nas folhas, induzindo galhas onde se abriga e se reproduz. Comum em videiras americanas.
- Forma radicícola: vive nas raízes, onde causa as lesões que levam ao apodrecimento por fungos secundários. É a forma letal para a videira europeia.
Essa especificidade explica por que a filoxera não ataca roseiras, frutíferas ou hortaliças e não infesta despensas ou casas. Sem videira por perto, ela não sobrevive.
Ciclo de vida e reprodução: o truque da partenogênese
O ciclo é complexo e varia com o clima e a videira hospedeira, mas o padrão no Brasil é simplificado. A maioria das populações se reproduz por partenogênese telítoca: fêmeas geram apenas fêmeas, sem machos, clonando-se.
Em condições quentes, uma fêmea radicícola põe 40 a 100 ovos e o ciclo de ovo a adulto leva 10 a 25 dias. Isso permite 5 a 18 gerações por ano, com explosão populacional no verão. No inverno, ovos de resistência ou ninfas hibernantes permanecem nas raízes.
Em regiões frias e em videiras americanas pode ocorrer o ciclo completo com fase sexuada: no outono surgem machos e fêmeas aladas que voam, acasalam e põem o ovo de inverno na casca. No Brasil, essa fase sexuada é rara e pouco relevante para o dano.
Como ela se dispersa
A dispersão natural é lenta: caminhando pelo solo ou levada pelo vento na forma alada por poucos metros. A grande dispersão é humana: mudas, bacelos e torrão de terra contaminados. Por isso a quarentena de material vegetativo é a principal barreira.
A filoxera pica ou oferece risco para pessoas e pets?
Não. A filoxera não pica, não morde, não tem ferrão, não é venenosa e não transmite doenças para pessoas, cachorros ou gatos. O aparelho bucal só perfura tecido vegetal.
Contato acidental com folhas com galhas não causa alergia relevante. O único risco é agrícola. Se você tem parreira doméstica, o problema será estético nas folhas ou enfraquecimento da planta, nunca um risco sanitário.
Não há necessidade de controle químico dentro de casa. Em caso de dúvida sobre outra praga que pica, procure identificação com um agrônomo ou entomologista.
Por que é considerada a pior praga da videira
O dano não é pela quantidade de seiva sugada, mas pela reação da raiz. A saliva da filoxera provoca feridas que são colonizadas por fungos de solo como Fusarium, levando ao apodrecimento e ao colapso do sistema radicular.
Videiras europeias enxertadas em pé-franco (sem porta-enxerto) definham e morrem em 3 a 10 anos após a infestação, mesmo com adubação. Não existe inseticida que erradique a forma radicícola de forma viável e segura, pois ela vive protegida no solo.
O impacto econômico histórico foi tão grande que mudou a geografia do vinho. Regiões inteiras na França tiveram de ser replantadas. Até hoje, mais de 80% dos vinhedos de vinho fino no mundo são enxertados exclusivamente por causa dela.
Como conviver e controlar: manejo e prevenção no vinhedo
Para quem tem uma ou duas parreiras em casa, a presença de galhas nas folhas de cultivares americanas raramente exige controle. A planta tolera e o dano é cosmético. Remova folhas muito infestadas e mantenha a planta vigorosa.
Em vinhedos comerciais, o manejo é preventivo e integrado:
- Use sempre muda enxertada sobre porta-enxerto resistente certificado (ex: Paulsen 1103, SO4, IAC 572). É a medida mais eficaz e duradoura.
- Não transporte mudas ou solo de áreas infestadas sem certificação fitossanitária. Desinfete ferramentas.
- Monitore raízes ao arrancar plantas com declínio inexplicável e envie amostras para diagnóstico (Embrapa Uva e Vinho, Emater).
- Evite inseticidas de amplo espectro no solo: são pouco eficazes contra a forma radicícola e matam inimigos naturais.
Pesquisas atuais buscam porta-enxertos com resistência durável e videiras cisgênicas, mas a enxertia continua sendo a base. Onde a filoxera já está instalada, erradicar é praticamente impossível; o objetivo é conviver sem perdas.
Curiosidades que tornam a filoxera única
A filoxera tem um dos ciclos mais plásticos entre os pulgões: a mesma espécie pode viver só em raízes, só em folhas ou nas duas partes, dependendo da videira e do clima. Essa plasticidade dificultou por décadas a compreensão da praga.
Durante a crise europeia, surgiram teorias absurdas, de “miasmas do solo” a culpa de adubos. Só em 1868 o entomologista Jules Émile Planchon e colegas identificaram corretamente o inseto americano como causa.
Ao contrário de muitos pulgões, ela não produz honeydew abundante nem é cuidada por formigas. Suas colônias são discretas e subterrâneas, o que torna a detecção tardia.
Perguntas frequentes
Filoxera pica pessoas ou cachorros?
Não. Ela só perfura tecidos de videira e não tem ferrão, veneno ou interesse por sangue.
Como saber se minha parreira tem filoxera?
Procure galhas verrugosas na parte de baixo das folhas ou, em videiras europeias, definhamento geral com nódulos e apodrecimento nas raízes.
Filoxera ataca outras plantas além da uva?
Não. É exclusiva de videiras do gênero Vitis e não sobrevive em outras frutíferas, hortaliças ou plantas ornamentais.
Tem como acabar com a filoxera com inseticida?
Não há erradicação eficaz da forma que vive nas raízes. O controle efetivo é preventivo, com mudas enxertadas em porta-enxertos resistentes.
Por que a filoxera não mata as videiras americanas?
Videiras americanas coevoluíram com o inseto e desenvolveram barreiras que isolam a lesão e impedem o apodrecimento radicular, apenas tolerando galhas nas folhas.
Filoxera está em todo o Brasil?
Está presente nas principais regiões vitícolas (Sul, Sudeste e Vale do São Francisco), mas a gravidade depende da cultivar e do uso de porta-enxerto.
Você sabia?
Quase acabou com o vinho europeu
Entre 1863 e 1890, a filoxera destruiu mais de 1 milhão de hectares só na França, derrubando a produção de vinho em até 75% e forçando o replantio total dos vinhedos com enxertia.
Clone infinito sem machos
No Brasil, a maioria das populações se reproduz só por partenogênese: uma única fêmea isolada na raiz pode gerar milhares de clones em um verão, sem precisar de macho.
Galha diferente conforme a videira
Em videiras americanas ela faz galhas nas folhas e quase não mata a planta; em videiras europeias ela ataca as raízes e mata. É a mesma espécie, mas o sintoma muda com o hospedeiro.
Vive quase invisível no solo
A forma mais destrutiva passa a vida toda sob a terra, protegida dentro de nódulos nas raízes. Por isso inseticidas pulverizados nas folhas não alcançam a praga onde ela realmente causa dano.










