Resumo
- Mutum é um grupo de aves grandes da família Cracidae, com 75 a 92 cm e até 4,8 kg, reconhecidas pela plumagem preta, barriga branca e bico com cera amarela nos machos.
- Vive no chão de matas preservadas da Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal, alimenta-se sobretudo de frutos e atua como importante dispersor de sementes.
- A maioria das espécies brasileiras está ameaçada de extinção e sua criação como animal de estimação é proibida sem autorização do IBAMA, sendo crime capturar aves na natureza.
Características
Ficha da espécie
| Família | Cracidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul e Central; no Brasil da Amazônia ao Rio Grande do Sul |
| Habitat | Florestas úmidas de terra firme, matas ciliares e cerradões preservados |
| Tamanho (comprimento) | 75 a 92 cm (fêmeas menores) |
| Envergadura | 75 a 85 cm |
| Peso | 2,7 a 4,8 kg (machos mais pesados) |
| Cores | pretobrancoamarelocinzacastanho-avermelhado (varia por espéciesexo) |
| Expectativa de vida | 15 a 20 anos na natureza; 25 a 40 anos em cativeiro autorizado |
| Alimentação | Frugívora (frutos, sementes, coquinhos), folhas, brotos e pequenos invertebrados |
| Canto | Grave, profundo e abafado, tipo "hum... hum..." audível a centenas de metros |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho plataforma em árvores a 2-6 m; 2 ovos brancos e grandes; incubação 28-32 dias |
| Comportamento social | Monogâmico, vive em casal ou pequenos grupos familiares; terrícola e arisco |
| Variedades ou subespécies | 7 espécies no Brasil, ex.: mutum-de-penacho, mutum-de-alagoas, mutum-assu, mutum-cavalo |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Baixo |
|---|---|
| Intensidade do canto | Alto |
| Inteligência | Médio |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Baixo |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer um mutum: tamanho, cores e o detalhe do bico
O mutum é inconfundível quando visto bem. É uma ave grande e pesada, de 75 a 92 cm, com corpo robusto, pernas longas e cauda larga. O porte lembra um peru doméstico, mas com postura mais ereta e andar silencioso no chão da mata.
A plumagem da maioria das espécies é preta brilhante com barriga e ponta da cauda brancas. Machos e fêmeas são diferentes em várias espécies. No mutum-de-penacho (Crax fasciolata), o macho é preto com barriga branca, enquanto a fêmea é toda barrada de preto, branco e castanho, com penacho listrado.
O detalhe que mais chama atenção é o bico com cera amarela, alaranjada ou vermelha inchada na base, muito evidente nos machos adultos. O mutum-de-penacho tem topete de penas arrepiadas na cabeça. O mutum-assu (Mitu tuberosum) tem bico vermelho-vivo com ponta amarela e penacho mais curto. Já o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) tem uma protuberância óssea azulada na base do bico.
Onde o mutum vive no Brasil e na América do Sul
O mutum é ave de interior de mata preservada. Não se adapta a áreas abertas ou muito alteradas. Prefere florestas altas, matas ciliares e cerradões com sub-bosque limpo, onde caminha à procura de frutos caídos.
No Brasil ocorre em quatro biomas principais: Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado. A distribuição depende da espécie. O mutum-de-penacho é o mais amplamente distribuído, do Maranhão e Pará até o Paraná e Paraguai. O mutum-assu e o mutum-cavalo (Mitu tomentosum e Pauxi tomentosa) são amazônicos. O mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii) só existe em fragmentos de Mata Atlântica da Bahia ao Rio de Janeiro.
Fora do Brasil, o grupo ocorre da América Central até o norte da Argentina, sempre associado a florestas úmidas. É uma ave sedentária, que não migra. Cada casal defende um território grande, de 50 a mais de 100 hectares, e raramente se desloca para longe.
O que o mutum come e por que é o jardineiro da floresta
A dieta é essencialmente frugívora. Cerca de 80% do que consome são frutos carnosos, coquinhos de palmeiras, sementes e bagas coletadas no chão. Complementa com folhas novas, brotos, flores e, ocasionalmente, insetos, larvas e pequenos caracóis.
O mutum engole frutos inteiros, mesmo os grandes de até 4 cm, como os de jatobá, bacaba e ingá. As sementes atravessam o trato digestivo intactas e são defecadas longe da planta-mãe, muitas vezes a 500 a 800 metros de distância. Por isso é considerado um dos principais dispersores de árvores de sementes grandes na Amazônia e na Mata Atlântica.
Forrageia sozinho ou em casal, cedo pela manhã e no fim da tarde. Usa o bico forte para revirar folhiço e quebrar coquinhos. Em época de escassez de frutos, consome mais sementes secas e folhas. Em cativeiro autorizado, precisa de dieta variada com frutas, ração específica para Galliformes e suplemento mineral.
Comportamento e canto: o grave “hum” que atravessa a mata
É uma ave arredia, silenciosa e terrícola. Passa o dia no chão e dorme empoleirada em galhos altos, a 4 a 10 metros. Ao perceber gente, prefere fugir caminhando rápido ou com voos curtos e pesados, em vez de cantar ou se exibir.
O canto é um dos traços mais singulares. Não é um gorjeio, mas um som grave, profundo e abafado, como um “hmm… hmmm… hmmm” repetido 3 a 5 vezes. O macho emite com o bico fechado, inflando o papo, e o som pode ser ouvido a mais de 400 metros na mata fechada, mesmo sendo de baixa frequência. Serve para marcar território e atrair a fêmea.
Vive em casal monogâmico e territorial. Fora da época reprodutiva, pode ser visto em pequenos grupos familiares com um ou dois filhotes. Não forma bandos grandes. É pouco vocal fora do período de reprodução e raramente vocaliza durante o dia, preferindo o amanhecer e o entardecer.
Reprodução, ninho e cuidado com os filhotes
A reprodução coincide com a estação chuvosa, de agosto a janeiro na maior parte do Brasil. O casal constrói um ninho simples, em forma de plataforma rasa de gravetos e folhas, sobre árvores ou palmeiras a 2 a 6 metros do solo, bem escondido na folhagem.
A fêmea põe geralmente 2 ovos brancos, grandes e de casca áspera, raramente 1 ou 3. A incubação dura 28 a 32 dias e é feita quase exclusivamente pela fêmea, enquanto o macho vigia o território nas proximidades e afasta intrusos com voos de exibição.
Os filhotes são precoces e nidífugos: nascem com penugem, olhos abertos e já no primeiro ou segundo dia conseguem pular do ninho e seguir a mãe pelo chão, mesmo sem voar bem. Permanecem com os pais por 8 a 12 meses, aprendendo onde encontrar frutos e como se esconder de predadores como gaviões e jaguatiricas.
Mutuns do Brasil: as 6 espécies que você pode encontrar
“Mutum” não é uma única espécie, mas o nome popular para 7 espécies da família Cracidae que ocorrem no Brasil. Cada uma tem distribuição e estado de conservação diferentes.
| Nome popular | Nome científico | Tamanho médio | Onde vive | Traço distintivo |
|---|---|---|---|---|
| Mutum-de-penacho | Crax fasciolata | 82-92 cm | Cerrado, Pantanal e borda amazônica | Topete arrepiado; cera amarela no bico |
| Mutum-assu | Mitu tuberosum | 83-89 cm | Amazônia ocidental | Bico vermelho com ponta amarela; calção castanho |
| Mutum-cavalo | Mitu tomentosum | 75-85 cm | Amazônia norte | Sem penacho; crista baixa |
| Mutum-de-alagoas | Pauxi mitu | 83-89 cm | Mata Atlântica de AL e PE | Protuberância azul no bico; extinto na natureza |
| Mutum-do-sudeste | Crax blumenbachii | 84-92 cm | Mata Atlântica BA ao RJ | Bico laranja-avermelhado; fêmea barrada de castanho |
| Mutum-poranga | Crax globulosa | 82-89 cm | Várzeas amazônicas | Carúnculas vermelhas no bico do macho |
Na nossa avaliação, confundir todas como “mutum” esconde um problema grave: cada espécie tem uma história de ameaça distinta. Tratar o grupo como um todo faz parecer que o mutum está bem, quando na verdade o mutum-de-alagoas só existe em cativeiro e o mutum-do-sudeste tem menos de 250 indivíduos na natureza.
Mutum pode ser criado em casa? O que diz a lei brasileira
Não. O mutum é ave silvestre nativa e sua captura, transporte ou manutenção sem autorização é crime ambiental (Lei 9.605/98). Não é ave doméstica como calopsita ou canário. A criação só é permitida em criadouros conservacionistas ou comerciais autorizados pelo IBAMA e órgãos estaduais, com anilha, registro e finalidade de conservação ou manejo.
Mesmo nesses criadouros, a exigência é altíssima. Precisa de viveiro grande (mínimo 20 a 30 m² por casal), sombreado, com poleiros altos e solo de terra, dieta rica em frutas nativas e manejo veterinário especializado. É uma ave estressada em espaço pequeno, que não se adapta a gaiola, apartamento ou quintal urbano.
A compra só pode ocorrer de criadouro legalizado, com nota fiscal e anilha fechada. Aves oferecidas em feiras, redes sociais ou sem documentação são de origem ilegal. Além da multa pesada, quem compra financia o tráfico e a retirada de uma espécie já ameaçada da mata.
Por que o mutum está desaparecendo e como ajudar na conservação
O mutum é extremamente sensível a duas pressões: caça e desmatamento. Por ser grande, manso e ter carne apreciada, foi historicamente muito caçado para alimentação, o que lhe rendeu o apelido de “pavão da mata”. Por viver só em mata fechada e precisar de território grande, desaparece rapidamente quando a floresta é fragmentada.
O resultado é crítico. O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) é considerado Extinto na Natureza (EW) desde o fim da década de 1970 e hoje só sobrevive em cerca de 100 indivíduos em cativeiro, em projetos de reintrodução em Alagoas. O mutum-do-sudeste é Em Perigo (EN) e o mutum-de-penacho e o mutum-poranga são Vulneráveis (VU) pela IUCN.
A conservação depende de proteção de matas contínuas, fiscalização contra caça e programas de reprodução em cativeiro. Projetos no Parque Nacional da Serra da Capivara, na Estação Ecológica de Murici e no criadouro Crax Brasil trabalham na reprodução e soltura. Para quem observa aves, a melhor ajuda é não comprar mutuns ilegais, denunciar tráfico ao IBAMA (Linha Verde 0800 61 8080) e apoiar reservas que mantêm floresta em pé.
Perguntas frequentes
Mutum é a mesma coisa que jacu?
Não. Ambos são da família Cracidae, mas o jacu (Penelope spp.) é menor, mais arborícola e tem papo vermelho. O mutum é maior, mais terrícola e tem bico com cera amarela ou vermelha.
Qual o tamanho do mutum?
Entre 75 e 92 cm de comprimento e 2,7 a 4,8 kg, sendo o macho maior que a fêmea. É uma das maiores aves florestais do Brasil.
Onde encontrar mutum na natureza?
Em matas bem preservadas da Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal e Cerrado, sempre no interior da floresta. É arisco e mais ouvido do que visto.
O que o mutum come?
Principalmente frutos e coquinhos caídos no chão, além de sementes, folhas e eventualmente insetos. É um importante dispersor de sementes grandes.
Pode criar mutum em casa?
Não como animal de estimação. É ave silvestre nativa e só pode ser mantida em criadouros autorizados pelo IBAMA, com registro e anilha. Capturar na natureza é crime.
Por que o mutum-de-alagoas está extinto na natureza?
Pelo desmatamento total da Mata Atlântica em Alagoas e Pernambuco e pela caça. Desde 1979 só existe em cativeiro, com cerca de 100 aves em projetos de reintrodução.
Como é o canto do mutum?
Um som grave, abafado e profundo, tipo "hum... hum...", emitido com o bico fechado ao amanhecer e entardecer. Pode ser ouvido a mais de 400 metros.
Você sabia?
O canto que parece vir do chão
O mutum canta com o bico fechado, inflando o esôfago como um balão. O som grave de baixa frequência viaja melhor na mata densa e pode ser confundido com o ronco de um mamífero.
Extinto na natureza e salvo em cativeiro
O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu) desapareceu da natureza em 1979 por desmatamento em Murici (AL). Foi salvo porque um criador manteve 5 aves em cativeiro, origem de toda a população atual de cerca de 100 indivíduos.
Filhotes que saltam do ninho
Com apenas 24 horas de vida, o filhote já pula de galhos a 3 metros de altura para seguir a mãe no chão. A penugem densa amortece a queda e ele já corre em poucas horas.
Jardineiro de sementes gigantes
O mutum é uma das poucas aves capazes de engolir e dispersar sementes de mais de 3 cm, como as do jatobá e da castanha-de-cutia, que tucanos e pombas não conseguem transportar.









