Resumo
- O pepino-do-mar é um equinodermo detritívoro que se alimenta de matéria orgânica do sedimento e recicla nutrientes essenciais para recifes e fundos marinhos.
- Respira pela cloaca por meio de árvores respiratórias internas e se defende com evisceração e túbulos de Cuvier pegajosos que imobilizam predadores.
- No Brasil a espécie mais comum é Holothuria grisea, encontrada de recifes rasos a 30 metros, e o grupo está pressionado globalmente pela pesca para bêche-de-mer.
Características
Ficha da espécie
| Grupo | Equinodermo (não é peixe nem molusco) |
|---|---|
| Ordem | Aspidochirotida / Dendrochirotida (principais) |
| Família | Holothuriidae (mais comum no Brasil) |
| Origem e distribuição | Cosmopolita, de recifes tropicais a fossas abissais; no Brasil de Norte a Sul |
| Tamanho | 10 a 30 cm na maioria; 2 a 200 cm no grupo |
| Peso | 100 g a 3 kg; espécies gigantes até 5 kg |
| Cores | pretomarromcinzaamarelovermelhobegemanchado |
| Profundidade | 0 a 8.000 m; mais comum entre 0 e 30 m no Brasil |
| Habitat | Fundos arenosos, lodosos, recifes de coral e pradarias marinhas |
| Alimentação | Detritívora e filtradora (matéria orgânica, bactérias, microalgas) |
| Reprodução | Sexuada, ovípara com fecundação externa; larva planctônica |
| Expectativa de vida | 5 a 10 anos na natureza |
| Estado de conservação | Variável por espécie: de Pouco Preocupante a Em Perigo (IUCN) |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Sociabilidade | Baixo |
| Inteligência | Muito baixo |
| Velocidade | Muito baixo |
| Capacidade de migração | Muito baixo |
| Importância para o ecossistema marinho | Muito alto |
Como identificar um pepino-do-mar de verdade
O pepino-do-mar tem corpo cilíndrico, mole e alongado, sem cabeça distinta, com boca em uma extremidade e cloaca na outra. A pele é coriácea, às vezes com papilas ou verrugas, e não tem concha ou escamas.
Ao redor da boca há 10 a 30 tentáculos retráteis que funcionam como mãos. Espécies detritívoras têm tentáculos em forma de pá para varrer sedimento; filtradoras têm tentáculos ramificados como árvores. Essa é a forma mais rápida de diferenciar grupos.
Na parte ventral existem pés ambulacrais enfileirados em três faixas, usados para rastejar lentamente. Na dorsal, muitas espécies têm papilas sensoriais. Se o animal parece uma linguiça escura com tentáculos na ponta, é pepino-do-mar.
Diferença entre os dois grandes grupos
Aspidochirotida são os clássicos de fundo arenoso, com tentáculos em pá e corpo liso, como Holothuria grisea, o mais comum no litoral brasileiro. Dendrochirotida são filtradores de recife, com tentáculos muito ramificados e corpo em forma de barril, fixos em rochas.
| Característica | Aspidochirotida | Dendrochirotida |
|---|---|---|
| Tentáculos | Em forma de pá, 15 a 20 | Ramificados como árvore, 10 |
| Alimentação | Engole sedimento | Filtra água |
| Habitat típico | Areia e lama | Costão e recife rochoso |
| Mobilidade | Rasteja livre | Mais sedentário |
Onde vive e em que profundidade ocorre no Brasil
O grupo é cosmopolita e ocorre em todos os oceanos, do Ártico à Antártida. No Brasil vai do Amapá ao Rio Grande do Sul, com maior abundância no Nordeste e Sudeste recifal, como Abrolhos, Fernando de Noronha e recifes de Maragogi.
Vive principalmente entre 0 e 30 metros, em fundos arenosos, lodosos, bancos de algas calcárias e entre corais. Algumas espécies toleram exposição na maré baixa, escondidas sob rochas. Outras só aparecem abaixo de 100 metros.
Em águas profundas, pepinos-do-mar são dominantes. Nas planícies abissais representam até 90% da biomassa de megafauna em alguns locais, com espécies translúcidas e nadadoras como Enypniastes eximia, apelidada de galinha sem cabeça.
O que come e por que é o aspirador do fundo do mar
É um detritívoro e reciclador. Usa os tentáculos para levar sedimento à boca, digere bactérias, microalgas, restos de animais e matéria orgânica, e expele areia limpa. Um único indivíduo pode processar até 45 kg de sedimento por ano.
Essa bioturbação oxigena o fundo, libera nutrientes e controla a proliferação de cianobactérias. Sem ele, o sedimento compacta, a água fica turva e recifes sofrem. É por isso que sua importância ecológica é nota 5.
Espécies filtradoras estendem os tentáculos na corrente para capturar plâncton e partículas em suspensão. Ambas as estratégias tornam o pepino-do-mar um elo entre o detrito e a cadeia alimentar, servindo de alimento para peixes, caranguejos e estrelas-do-mar.
- Principal: detritos orgânicos e biofilme bacteriano do sedimento
- Secundário: microalgas, plâncton e partículas orgânicas em suspensão
- Como se alimenta: varredura com tentáculos ou filtração passiva
Como respira pela cloaca e se defende eviscerando
O pepino-do-mar respira pela cloaca. A água entra pelo ânus e preenche duas árvores respiratórias internas muito ramificadas, onde ocorre a troca gasosa. O animal literalmente bombeia água pelo traseiro de 6 a 10 vezes por minuto.
Quando muito estressado, faz evisceração: expele intestino, gônadas e árvores respiratórias pela cloaca ou por ruptura da parede corporal. O predador se distrai com as vísceras enquanto o pepino foge. Em poucas semanas a maioria regenera todos os órgãos.
Algumas famílias, como Holothuriidae, lançam túbulos de Cuvier: filamentos brancos, pegajosos e tóxicos que grudam e imobilizam o atacante. Contêm holoturina, saponina que irrita pele, olhos e pode matar peixes pequenos em aquários fechados.
Outra defesa é a pele que muda de consistência. Possui tecido conjuntivo mutável que pode ficar rígido ou mole em segundos, dificultando a captura. É o mesmo colágeno que interessa à pesquisa biomédica.
Reprodução e ciclo de vida: de larva à vida no sedimento
A maioria é dioica com fecundação externa. Machos e fêmeas liberam esperma e óvulos na água, geralmente à noite e de forma sincronizada por sinais químicos e lunares. Uma fêmea pode liberar milhares a milhões de óvulos por desova.
Do ovo nasce a larva auricularia, planctônica e transparente, que deriva por semanas se alimentando de fitoplâncton. Depois vira larva doliolaria e se assenta no fundo, metamorfoseando em um juvenil de poucos milímetros com tentáculos já funcionais.
O crescimento é lento. A maturidade chega entre 2 e 5 anos, dependendo da espécie e temperatura. Algumas espécies também se reproduzem assexuadamente por fissão: partem-se ao meio e cada metade regenera um indivíduo completo.
O pepino-do-mar é perigoso para humanos?
Para mergulhadores, o risco é muito baixo. Não morde, não pica e não persegue. O perigo está no manuseio sem cuidado: ao ser apertado, pode liberar holoturina e túbulos de Cuvier que causam irritação na pele, vermelhidão e forte ardência ocular.
Ingerir cru ou mal preparado também é arriscado. A holoturina é tóxica se ingerida em quantidade e exige processamento longo de fervura e secagem para virar bêche-de-mer. Nunca colete ou prove na praia.
Em aquário, o maior problema é indireto: um pepino estressado pode intoxicar todo o sistema fechado ao liberar toxinas e eviscerar, matando peixes. Por isso não é recomendado para aquaristas iniciantes.
Ameaças, pesca do bêche-de-mer e conservação
Globalmente, a maior ameaça é a pesca para bêche-de-mer, iguaria e produto da medicina tradicional asiática que vale muito no mercado internacional. Espécies grandes e rasas foram dizimadas no Indo-Pacífico, com declínios de até 80% em 10 anos em algumas áreas.
No Brasil a pesca comercial é pequena e pouco regulamentada, mas há coleta ornamental e incidental em arrastos. Outras pressões são poluição, esgoto, plásticos, aquecimento e acidificação, que afetam larvas sensíveis e recifes onde vivem.
A IUCN lista várias espécies como Vulnerável e Em Perigo, como Holothuria whitmaei e Thelenota ananas. A CITES inclui algumas em Apêndice II. No Brasil, o ICMBio monitora populações recifais e a coleta é restrita em unidades de conservação como Abrolhos.
Deixar pepinos no fundo é proteger o recife. Sem eles, o sedimento acumula matéria orgânica, aumenta a anoxia e o coral sofre. Observar sem tocar é a melhor contribuição.
Onde observar com responsabilidade
No Brasil, a melhor chance é com snorkel em recifes rasos na maré baixa: procure formas escuras e alongadas entre areia e algas em Maragogi (AL), Porto de Galinhas (PE), Arraial do Cabo (RJ) e Abrolhos (BA). Mergulho noturno aumenta avistamentos, pois muitos saem para se alimentar.
Mantenha distância mínima de 1 metro, não toque, não vire e não retire da água. Luz forte direta e toque disparam evisceração, que pode matar o animal. Fotografe sem flash intenso e sem pisar no substrato.
Prefira operadoras com conduta responsável e que respeitem áreas de proteção. Se vir coleta ilegal ou venda de pepinos vivos na praia, avise o ICMBio ou órgão ambiental local.
Curiosidades que quase ninguém conta
O pepino-do-mar tem pérolas próprias: um peixe fino e translúcido chamado pérola-fish (Carapus) vive dentro da cloaca e das árvores respiratórias do hospedeiro, entrando e saindo pelo ânus sem ser digerido.
Algumas espécies abissais nadam batendo o corpo como uma água-viva, e outras são bioluminescentes. Já espécies rasas podem ficar anos sem se mover mais que alguns metros, quase sésseis.
O colágeno mutável do pepino inspirou pesquisas de materiais inteligentes e curativos. E seu papel de reciclador é tão grande que recifes sem pepinos acumulam até 10 vezes mais matéria orgânica no sedimento, segundo estudos no Pacífico.
Perguntas frequentes
Pepino-do-mar é peixe?
Não. É um equinodermo, parente da estrela-do-mar e do ouriço-do-mar, da classe Holothuroidea.
Pepino-do-mar faz mal para humanos?
O contato pode irritar pele e olhos por causa da holoturina e dos túbulos de Cuvier. Não toque e não leve à boca; ingerir cru é tóxico.
Pode pegar pepino-do-mar na praia?
Não é recomendado. O manuseio causa evisceração e pode matar o animal, além de ser proibido em áreas protegidas.
Como o pepino-do-mar respira?
Pela cloaca. A água entra pelo ânus e preenche árvores respiratórias internas onde ocorre a troca gasosa.
O que acontece se ele solta as tripas?
É a evisceração, uma defesa. Ele expele órgãos para distrair o predador e regenera tudo em semanas se ficar em ambiente tranquilo.
Quanto tempo vive um pepino-do-mar?
A maioria vive de 5 a 10 anos na natureza, podendo chegar a 15 anos em condições favoráveis.
Para que serve o pepino-do-mar no ecossistema?
Recicla sedimento, oxigena o fundo e libera nutrientes, mantendo a água clara e o recife saudável.
Você sabia?
Respira pelo bumbum
A água entra pela cloaca e enche duas árvores respiratórias internas. O pepino bombeia água pelo ânus até 10 vezes por minuto para respirar.
Se estripam para sobreviver
Na evisceração, expelem intestino e pulmões aquáticos para distrair o predador e depois regeneram tudo em semanas, inclusive órgãos internos completos.
Casa para peixe pérola
O peixe Carapus mora dentro do pepino-do-mar, entrando e saindo pela cloaca. Alguns chegam a roer as gônadas do hospedeiro por dentro.
Mais valioso que parece
Seco como bêche-de-mer, pode passar por até 20 etapas de fervura e secagem e valer centenas de dólares por quilo no mercado asiático.











