Resumo
- A quimera é um peixe cartilaginoso marinho de profundidade da ordem Chimaeriformes, distinta de tubarões por ter placas dentárias, cauda em chicote e um espinho dorsal venenoso.
- Vive em fundos lamosos e arenosos do talude continental entre 200 e 2.600 metros, alimenta-se de crustáceos e moluscos e se reproduz por ovos em cápsulas coriáceas alongadas.
- Não é peixe de aquário nem de consumo comum no Brasil e tem várias espécies classificadas como Quase Ameaçadas por causa da pesca de arrasto profunda.
Características
Ficha da espécie
| Nome científico | Chimaera monstrosa (representante da ordem Chimaeriformes) |
|---|---|
| Família | Chimaeridae, Callorhinchidae e Rhinochimaeridae |
| Ordem | Chimaeriformes |
| Origem | Oceanos Atlântico, Pacífico e Índico |
| Tipo de água | Salgada marinha profunda |
| Tamanho | 60 a 150 cm (até 200 cm em Hydrolagus colliei) |
| Cores | prateadocinzamarrommanchas escuras |
| Expectativa de vida | 25 a 40 anos |
| Alimentação | Carnívora (crustáceos e moluscos) |
| Reprodução | Ovípara com cápsula coriácea |
| Profundidade | 200 a 2.600 m |
Perfil e comportamento
| Facilidade de criação | Muito baixo |
|---|---|
| Agressividade | Muito baixo |
| Sociabilidade | Muito baixo |
| Nível de atividade | Baixo |
| Exigência com a qualidade da água | Muito alto |
| Adequação a aquários pequenos | Muito baixo |
O que é a quimera e por que ela não é um tubarão
A quimera pertence à subclasse Holocephali, enquanto tubarões e raias são Elasmobranchii. Essa divisão ocorreu no Devoniano, há cerca de 400 milhões de anos, e explica por que a quimera parece um mosaico de peixes diferentes.
O nome vem do monstro da mitologia grega com partes de animais distintos. A analogia é precisa: cabeça de coelho, asas de arraia e cauda de rato. Em inglês é chamada de ghost shark ou rabbitfish, mas não é tubarão.
A diferença mais prática está na boca e nas brânquias. A quimera tem uma única abertura branquial coberta por opérculo de cada lado, como peixes ósseos, e três pares de placas dentárias que trituram presas, em vez de fileiras de dentes substituíveis.
Como identificar uma quimera: aparência e características
O corpo é alongado e macio, sem escamas, que afina progressivamente até uma cauda filiforme em forma de chicote. As nadadeiras peitorais são enormes e triangulares, usadas para “voar” lentamente sobre o fundo.
A cabeça é o melhor ponto de identificação. Olhos muito grandes, esverdeados e sem pálpebras, adaptados à penumbra. Focinho varia conforme a família: curto e arredondado em Chimaeridae, em forma de pá em Callorhinchidae e extremamente alongado em Rhinochimaeridae, as quimeras de nariz de serra.
Na frente da nadadeira dorsal há um espinho erétil e venenoso com sulco glandular. Ele não é usado para atacar, mas pode causar dor intensa, edema e náusea se manuseado sem cuidado. Machos adultos têm ainda um tenáculo frontal na testa, um gancho cartilaginoso usado para segurar a fêmea durante a cópula, além de dois clásperes pélvicos.
As três famílias que você precisa distinguir
- Chimaeridae (quimeras de nariz curto): focinho curto, cauda longa e fina. Ex.: Chimaera monstrosa do Atlântico Nordeste.
- Callorhinchidae (quimeras de focinho de pá): focinho flexível em forma de enxada, usado para revirar sedimento. Ex.: Callorhinchus callorynchus, que ocorre no Atlântico Sul.
- Rhinochimaeridae (quimeras de nariz longo): focinho em espada, extremamente sensível. Vivem mais fundo, abaixo de 1.000 m.
Onde vive a quimera no Brasil e no mundo
Quimeras são exclusivamente marinhas e de profundidade. Ocupam o talude continental e a planície abissal, sobre fundos lamosos, arenosos ou de cascalho frio, onde a temperatura fica entre 4 e 12 °C.
Globalmente ocorrem em todos os oceanos, exceto no Ártico e Antártico raso. No Atlântico Nordeste a mais conhecida é a Chimaera monstrosa, entre Noruega e Marrocos. No Pacífico Norte vive a Hydrolagus colliei, que chega a 2.000 m.
No Brasil, os registros se concentram entre Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, de 200 a 800 m de profundidade. A espécie Hydrolagus matallanasi, descrita em 2001 por pesquisadores brasileiros, é endêmica do Sudeste e foi descoberta a partir de exemplares capturados ao largo de São Paulo e Paraná. Outros registros incluem Hydrolagus alberti e Rhinochimaera atlantica no Norte e Nordeste profundos.
Comportamento e vida no mar profundo
A quimera é um peixe solitário, lento e de baixa atividade. Nada batendo as peitorais como asas e usa a cauda mais como leme do que como propulsão. Fica a maior parte do tempo pairando a poucos metros do fundo.
Possui um sistema sensorial peculiar. Em vez de poros fechados, tem canais da linha lateral em sulcos abertos na cabeça e no corpo, que detectam vibrações mínimas na água escura. O focinho longo das rinocimeras é coberto por eletrorreceptores.
Não forma cardumes e não migra longas distâncias. Estudos de marcação mostram deslocamentos verticais diários curtos: sobe um pouco à noite para se alimentar e retorna ao fundo durante o dia.
O que a quimera come e como caça no escuro
A dieta é carnívora bentônica. As placas dentárias trituram presas duras, por isso o estômago frequentemente contém fragmentos de conchas.
Os itens principais são caranguejos, camarões de profundidade, moluscos bivalves, gastrópodes e ouriços-do-mar. Complementa com poliquetas, pequenos peixes e ovos de invertebrados.
A caça é tátil e olfativa. Com pouca luz, ela varre o sedimento com o focinho, detecta a presa pelos eletrorreceptores e a suga com a boca ventral protrátil. Não é predadora de emboscada nem perseguidora.
Reprodução: cápsulas coriáceas e filhotes independentes
Todas as quimeras são ovíparas. A fecundação é interna, com os machos usando os clásperes e o tenáculo frontal para fixação.
A fêmea produz um ovo por vez, a cada poucos dias, envolto em uma cápsula coriácea alongada com filamentos que se prendem ao substrato. A cápsula tem formato de fuso com bordas peludas e mede de 10 a 25 cm, dependendo da espécie.
A incubação é longa, de 6 a 12 meses, sem cuidado parental. O filhote nasce já formado, com cerca de 10 a 15 cm, e é totalmente independente. A maturidade sexual é tardia, entre 5 e 10 anos, o que torna a população vulnerável à mortalidade adulta.
Veneno, pesca e estado de conservação
O espinho dorsal venenoso é a única defesa ativa. A glândula na base libera veneno que causa ferida dolorosa e de cicatrização lenta em pescadores. Não há registro de morte humana, mas o manuseio exige luvas grossas e corte do espinho ainda no convés.
Quimeras não são alvo de pescaria comercial no Brasil, mas são captura incidental frequente em arrasto de profundidade para camarão e peixe-sapo. Como crescem devagar e têm baixa fecundidade, não se recuperam rápido.
Na Lista Vermelha da IUCN, Chimaera monstrosa é Quase Ameaçada (NT) e várias Hydrolagus são Dados Insuficientes (DD) ou Vulneráveis (VU) por declínio inferido. A tendência global é de populações em declínio onde há pesca profunda sem manejo.
Quimera no Brasil: o caso da Hydrolagus matallanasi
A Hydrolagus matallanasi merece destaque porque ilustra o quanto ainda desconhecemos o mar profundo brasileiro. Foi reconhecida como nova espécie apenas em 2001, a partir de diferenças na coloração, no formato da nadadeira dorsal e no número de espinhos.
Ela tem cor marrom-acastanhada uniforme, olhos esverdeados grandes e cauda com filamento terminal. Vive entre 400 e 700 m no talude do Sudeste, área hoje pressionada por pesca e prospecção de petróleo.
Por ser endêmica e de distribuição restrita, é considerada um indicador de vulnerabilidade do ecossistema profundo brasileiro. Sua descrição recente mostra que muitas quimeras ainda podem estar sem nome nos museus, confundidas com espécies do Atlântico Norte.
Diferenças rápidas para não confundir
| Característica | Quimera | Tubarão |
|---|---|---|
| Brânquias | 1 abertura com opérculo | 5 a 7 fendas expostas |
| Dentes | 3 pares de placas fixas | Fileiras substituíveis |
| Cauda | Filiforme em chicote | Heterocerca robusta |
| Espinho dorsal | 1 espinho venenoso erétil | Presente em poucos grupos |
| Habitat | Fundo profundo frio | Todos os habitats |
Perguntas frequentes
Quimera é tubarão?
Não. É um holocefálo, grupo irmão dos tubarões e raias que se separou há cerca de 400 milhões de anos. Tem opérculo branquial e placas dentárias, diferente das fendas e dentes substituíveis dos tubarões.
Quimera tem veneno?
Sim. Possui um espinho erétil na frente da nadadeira dorsal ligado a glândula de veneno. A ferroada causa dor forte, inchaço e pode exigir atendimento médico, mas não é letal.
Onde vive a quimera no Brasil?
No talude continental profundo, principalmente entre Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, de 200 a 800 metros, sobre fundos lamosos e frios. A espécie endêmica Hydrolagus matallanasi ocorre no Sudeste.
Quimera pode ser criada em aquário?
Não. Exige água salgada fria, alta pressão, grande profundidade e alimentação especializada. Não há manutenção viável em aquário doméstico ou público comum.
O que a quimera come?
Principalmente crustáceos, moluscos e equinodermos que tritura com placas dentárias. Caça farejando o sedimento com o focinho sensível no escuro.
Como a quimera se reproduz?
É ovípara. A fêmea deposita ovos em cápsulas coriáceas alongadas que ficam presas ao fundo por 6 a 12 meses até eclodir um filhote independente.
Quimera é comestível?
Algumas espécies são consumidas na Europa e Oceania, mas no Brasil não há mercado. A carne é pouco valorizada e a captura é incidental, sem cadeia comercial estabelecida.
Fatos surpreendentes sobre a quimera
O macho tem um gancho na testa
Machos adultos desenvolvem um tenáculo frontal, um apêndice em forma de gancho com dentículos na testa, usado para segurar a nadadeira peitoral da fêmea durante a cópula. É único entre os peixes cartilaginosos.
Linha lateral em sulco aberto
Diferente de tubarões e peixes ósseos, a quimera não tem poros fechados. Seus canais sensoriais ficam expostos em sulcos abertos na pele, o que a torna extremamente sensível a vibrações no escuro total.
Dentes que não caem
Em vez de trocar dentes, ela tem placas dentárias mineralizadas que crescem continuamente e trituram conchas. O desgaste é compensado por crescimento, como nos incisivos de roedores.
Fóssil vivo com 400 milhões de anos
Holocefálos surgiram antes dos dinossauros e sobreviveram a cinco extinções em massa. Fósseis de quimeras do Carbonífero já mostram o mesmo plano corporal atual, quase sem mudanças.









