Resumo
- A Aruanã-prata (Osteoglossum bicirrhosum) é o peixe de superfície da bacia amazônica que chega a 90-120 cm e caça saltando fora d'água para capturar presas.
- O macho faz incubação bucal e carrega de 50 a 250 ovos grandes na boca por 4 a 6 semanas, protegendo os filhotes até nadarem livres.
- Em aquário precisa de no mínimo 800 a 1000 litros, tampa travada e dieta carnívora, sendo indicada apenas para aquaristas avançados com espaço e filtragem potente.
Características
Ficha da espécie
| Nome científico | Osteoglossum bicirrhosum (Aruanã-prata) - principal no Brasil |
|---|---|
| Família | Osteoglossidae |
| Origem | Bacia Amazônica e Araguaia-Tocantins |
| Tipo de água | Doce, 24 a 30 °C, pH 6,0-7,0 |
| Tamanho | 90 a 120 cm (fêmeas um pouco menores); 3 a 6 kg |
| Cores | prataprateado-azuladopreto (O. ferreirai)vermelhodourado (asiáticas) |
| Expectativa de vida | 10 a 15 anos na natureza; até 20 anos em cativeiro bem manejado |
| Alimentação | Carnívora / insetívora-piscívora |
| Reprodução | Ovípara com incubação bucal paterna |
| Variedades | Aruanã-prata, Aruanã-preta (O. ferreirai), Aruanãs-asiáticas (Scleropages spp.) |
Perfil e comportamento
| Facilidade de criação | Muito baixo |
|---|---|
| Agressividade | Alto |
| Sociabilidade | Baixo |
| Nível de atividade | Muito alto |
| Exigência com a qualidade da água | Alto |
| Adequação a aquários pequenos | Muito baixo |
Como reconhecer uma Aruanã de verdade
A Aruanã tem um corpo longo, comprimido lateralmente e coberto por escamas grandes e reflexivas que lembram uma armadura. A linha dorsal é quase reta e a boca é oblíqua, voltada para cima, feita para abocanhar presas na superfície.
O detalhe que não deixa dúvida são os dois barbilhões curtos na ponta da mandíbula inferior. Eles são órgãos sensoriais que detectam vibrações na película da água. As nadadeiras dorsal e anal são muito longas e se estendem até quase a caudal, dando um nado ondulante e elegante.
Nos filhotes, a coloração é mais amarelada com reflexos esverdeados e uma mancha alaranjada na cabeça. Adultas, a Aruanã-prata fica prateada com reflexos azulados e nadadeiras com bordas avermelhadas. Já a Aruanã-preta (Osteoglossum ferreirai) é escura, quase preta-azulada, com faixas amareladas nas nadadeiras.
Prata, preta e asiática: não confunda as Aruanãs
No Brasil você vai encontrar duas nativas. A Aruanã-prata (O. bicirrhosum) é a mais comum, ocorre em toda a Amazônia e no Araguaia-Tocantins e chega a 90 cm com facilidade, podendo passar de 1 metro. A Aruanã-preta (O. ferreirai) é restrita à bacia do Rio Negro e Orinoco, tem corpo mais escuro e porte ligeiramente menor.
As Aruanãs-asiáticas (Scleropages formosus, S. legendrei e outras) são outro gênero. Elas têm corpo mais alto, escamas com anel de cor intenso (vermelho, dourado, verde) e são listadas na CITES e proibidas de comércio livre. No Brasil, só chegam com microchip e certificado, a preços muito altos. Não são a mesma espécie da nossa prata.
Erro comum é vender filhote de Aruanã-prata como “Aruanã-vermelha”. Filhote prateado não vai ficar vermelho. A coloração vermelha intensa só existe nas linhagens asiáticas selecionadas.
Onde vive na natureza: várzea, igapó e igarapés
A Aruanã é exclusiva de água doce da América do Sul, sobretudo na bacia Amazônica, no sistema Araguaia-Tocantins e no Oiapoque. Prefere rios de águas brancas e claras, lagos de várzea, igapós alagados e igarapés de correnteza lenta.
Vive sempre no estrato superior da coluna d’água, patrulhando a superfície entre troncos e vegetação alagada. Na cheia, entra na floresta inundada para caçar insetos e frutos que caem na água. Na seca, concentra-se em lagos e canais mais profundos.
É um peixe sedentário territorial quando adulto. Cada indivíduo defende uma área de superfície e só se desloca muito na época reprodutiva. Por ser predador de topo de superfície, ajuda a controlar populações de pequenos peixes e insetos.
Comportamento: o predador de superfície que salta para caçar
A Aruanã é famosa pelo salto. Ela pode projetar-se 1,5 a 2 metros acima da água para capturar besouros, aranhas, libélulas e até pequenos pássaros em galhos baixos. Dentro d’água, ataca com bote rápido e engole a presa inteira.
É solitária, territorial e muito arisca. Tolera poucos coespecíficos em espaço grande, mas ataca peixes menores que caibam na boca e briga feio com outra Aruanã se o aquário for apertado. Com peixes de fundo grandes e blindados, como arraias e cascudos grandes, costuma coexistir melhor.
Tem audição e visão excelentes para a superfície. Qualquer vibração na tampa, luz acesa de repente ou movimento brusco gera disparada e salto. Por isso fugas e choques contra a tampa são a principal causa de morte em aquário doméstico.
Convivência com outros peixes
Não é peixe de cardume e não deve viver com tetras, guppies ou camarões — viram comida em uma noite. Se for manter com outros, escolha peixes grandes, calmos e que ocupem o fundo ou meio, em aquário acima de 1000 litros.
Evite duas Aruanãs juntas em aquário menor que 1500 litros. A dominância se resolve com mordidas nas nadadeiras e jejum da submissa. Na nossa avaliação, uma única Aruanã por aquário é a escolha mais segura para 90% dos aquaristas.
Aquário para Aruanã: por que tamanho é inegociável
Aqui não há improviso. Uma Aruanã-prata adulta precisa de aquário de 800 a 1000 litros no mínimo para um exemplar, com 200 cm de comprimento e 60 cm de largura. Para manter por toda a vida sem deformar a coluna, o ideal é 1200 a 1500 litros.
Altura não é tão importante quanto comprimento e largura, pois ela nada na horizontal. Use tampa pesada, travada e sem frestas. Ela derruba tampas leves e passa por qualquer vão de 5 cm. Deixe 15 a 20 cm entre a água e a tampa para amortecer o salto.
| Parâmetro | Faixa ideal |
|---|---|
| Temperatura | 24 a 30 °C (ideal 26-28 °C) |
| pH | 6,0 a 7,0 |
| Amônia e nitrito | 0 ppm |
| Nitrato | abaixo de 20 ppm |
| Filtragem | 8 a 10x o volume/hora, com filtragem biológica robusta |
| Troca parcial | 25 a 30% por semana |
Filtragem tem que ser superdimensionada. Aruanã come muito e defeca muito. Sump ou canister grande + circulação suave na superfície funcionam melhor que filtros internos pequenos. Mantenha oxigenação alta e evite correnteza forte.
Decoração deve ser mínima: fundo liso ou areia fina, um tronco submerso e plantas flutuantes para dar segurança. Nada de pedras pontiagudas ou enfeites que machuquem os barbilhões e os olhos. Iluminação moderada e tampa escura acalmam o peixe.
Alimentação: carnívora exigente e o erro da ração barata
Na natureza a dieta é 70% peixes e insetos, com complemento de aranhas, pequenos anfíbios e frutos. Em cativeiro, precisa de proteína animal variada e de alta qualidade, não apenas ração seca.
Base alimentar recomendada: pellets específicos para Aruanã ou para peixes carnívoros grandes (40-45% proteína), peixes inteiros pequenos, camarão, grilos e tenébrios. Ofereça 1 vez ao dia para adultas e 2 vezes para filhotes, em quantidade que seja consumida em 2 minutos.
Evite alimentar só com peixe vivo de rio (risco de parasitas), carne de boi, coração de boi ou insetos capturados com inseticida. Outro erro é excesso de camarão seco e alimento liofilizado como única dieta, que causa deficiência de vitaminas e deformidade opercular.
Suplemente com vitaminas para peixes carnívoros 1 vez por semana se a dieta não for bem variada. Jejum de 1 dia na semana ajuda a evitar lipidose hepática, comum em Aruanãs obesas de aquário.
Reprodução com incubação bucal paterna
A reprodução ocorre na cheia, entre novembro e fevereiro na maior parte da Amazônia. O casal forma território, a fêmea libera poucos ovos muito grandes (cerca de 1,5 cm de diâmetro) e o macho os fertiliza e recolhe na boca.
O macho incuba de 50 a 250 ovos na cavidade bucal por 30 a 45 dias, sem se alimentar direito nesse período. Os filhotes eclodem dentro da boca e permanecem ali até absorverem o saco vitelínico, saindo e voltando quando há perigo.
Quando finalmente nadam livres, já têm 7 a 9 cm e instinto predador. Na natureza, ficam sob guarda do macho por mais 1 a 2 semanas. Em cativeiro, a reprodução é raríssima e só acontece em lagos ou aquários gigantes de 3000 litros ou mais, com controle de nível d’água simulando a cheia.
Saúde, doenças comuns e legislação no Brasil
Aruanã é sensível a amônia, nitrito e quedas bruscas de pH. Os problemas mais vistos são: fungos após machucados de salto, “olho caído” (drop eye) por dieta gordurosa e falta de estímulo de superfície, e erosão de nadadeiras por água ácida demais ou superlotação.
“Olho caído” não é doença infecciosa, mas deformidade em que um ou ambos os olhos ficam voltados para baixo, associada a aquário baixo, alimentação só no fundo e gordura em excesso. Prevenção é manter alimentação na superfície e aquário largo.
Para ter uma Aruanã-prata ou preta legalmente, compre apenas de criadores ou lojas com nota fiscal e, quando exigido, Guia de Trânsito Animal (GTA) de peixes ornamentais. A pesca e o comércio de Aruanã-asiática sem certificação CITES é crime ambiental. Nunca solte Aruanã em rios fora da sua bacia — é espécie exótica invasora no Sudeste e Sul.
Curiosidades que só quem cria descobre
A Aruanã é considerada um fóssil vivo. Sua família, Osteoglossidae, existe há mais de 100 milhões de anos e mantém características primitivas como língua óssea com dentes e bexiga natatória ligada à faringe, que permite respirar ar atmosférico em águas pobres em oxigênio.
No comércio asiático, a Aruanã-dourada e a vermelha são chamadas de “peixe-dragão” e chegam a custar dezenas de milhares de dólares por serem símbolo de sorte e prosperidade. Cada exemplar legalizado tem microchip implantado.
Apesar do tamanho, a Aruanã tem crescimento muito rápido no primeiro ano — pode ir de 10 cm para 45-60 cm em 12 meses se bem alimentada. É por isso que tanta gente compra filhote pequeno achando que cabe em aquário de 200 litros e precisa doar meses depois.
Perguntas frequentes
Qual o tamanho mínimo de aquário para Aruanã?
Para uma Aruanã-prata adulta, mínimo de 800 a 1000 litros com 200 cm de comprimento. Abaixo disso há deformidade de coluna, estresse e saltos fatais.
Aruanã pode ficar com outros peixes?
Só com peixes grandes que não caibam na boca e que ocupem o fundo, como arraias de água doce e cascudos grandes. Peixes pequenos viram alimento.
Aruanã precisa de aquecedor?
Sim, se a temperatura cair abaixo de 24 °C. Mantenha entre 26 e 28 °C com termostato e termômetro, pois oscilações causam doenças.
Por que a Aruanã salta tanto?
É comportamento natural de caça e fuga. Em aquário sem tampa travada ela escapa e morre em minutos fora d'água.
O que é o olho caído da Aruanã?
É a posição baixa e permanente do olho, ligada a dieta gordurosa, alimentação só no fundo e aquário baixo. Previne-se com dieta variada e oferta de alimento na superfície.
Aruanã-prata e Aruanã-preta são a mesma espécie?
Não. A prata é Osteoglossum bicirrhosum e a preta é Osteoglossum ferreirai, mais escura e restrita ao Rio Negro e Orinoco.
Aruanã pode ser criada em lago?
Sim, em lagos protegidos e telados em regiões quentes (acima de 24 °C o ano todo), com profundidade mínima de 1 metro e proteção contra predadores e fugas.
Você sabia?
Salto de caça milimétrico
A Aruanã calcula a refração da água e salta com precisão para capturar insetos em galhos até 2 metros acima da superfície, um dos saltos mais altos entre peixes de água doce.
Pai que não come
Durante a incubação bucal o macho carrega até 250 ovos na boca por mais de um mês e praticamente não se alimenta, perdendo peso visível até liberar os filhotes.
Respira ar atmosférico
Possui bexiga natatória vascularizada ligada à faringe que funciona como pulmão primitivo, permitindo sobreviver em igapós com oxigênio quase zero na seca.
Escamas usadas como lixa
Ribeirinhos amazônicos tradicionalmente usavam as escamas grandes e ásperas da Aruanã-prata como lixa para polir madeira e até como cortador de unhas.









