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Caranguejo-uçá

Ucides cordatus

Atualizado em

8 a 10 cm de carapaçaTamanho
200 a 320 gPeso
10 a 13 anosExpectativa de vida
Manguezais entre-marésHabitat
BaixoPerigo para humanos
Caranguejo-uçá de corpo inteiro sobre a lama do manguezal

O caranguejo-uçá (Ucides cordatus) é o caranguejo mais emblemático dos manguezais do Brasil. De carapaça larga e coloração que varia do azul-acinzentado ao marrom-avermelhado, ele passa quase toda a vida dentro de tocas escavadas na lama e sai para se alimentar de folhas em decomposição.

É uma espécie-chave para o equilíbrio do manguezal: ao cavar galerias e triturar folhas, oxigena o solo e acelera a ciclagem de nutrientes. Muito capturado para consumo humano, tem captura controlada por defeso e é símbolo cultural e econômico de comunidades costeiras.

Também conhecido como: Uçá, Caranguejo-verdadeiro, Caranguejo-uçá-verdadeiro, Uca cordatus (sinônimo antigo), Swamp ghost crab (inglês), Crabe de palétuvier (francês)

Faz parte de: Animais Marinhos do Brasil, Crustáceos Marinhos

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Galeria de fotos de Caranguejo-uçá

Caranguejo-uçá de corpo inteiro sobre a lama do manguezal
Caranguejo-uçá adulto em seu habitat natural no manguezal.
Close da cabeça e olhos do caranguejo-uçá
Detalhe dos olhos em pedúnculo e da carapaça lisa do uçá.
Detalhe da carapaça e das patas do caranguejo-uçá
Textura da carapaça e pelos das patas, típicos da espécie.
Caranguejo-uçá na entrada da toca no manguezal
Toca em forma de galeria, essencial para a sobrevivência do uçá.
Caranguejo-uçá se alimentando de folha de mangue
Alimentação à base de folhas em decomposição.
Grupo de caranguejos-uçá durante a andada no manguezal
Andada reprodutiva no verão, quando milhares caminham pelo mangue.

Perfil rápido de Caranguejo-uçá

Estado de conservação

LC
Pouco Preocupante

Amplamente distribuído, mas com populações locais em declínio por sobrepesca e perda de habitat.

População
Decrescente
Protegido por
Sim, com defeso e tamanho mínimo no Brasil (ICMBio/IBAMA). Captura de fêmeas proibida o ano todo.

Calendário

Andada (acasalamento)JFMAMJJASOND
Desova e liberação de larvasJFMAMJJASOND
Defeso (proibição de captura)JFMAMJJASOND
Muda de carapaça mais frequenteJFMAMJJASOND

Toxicidade e riscos

  • PetsNão tóxico
  • PessoasNão tóxico, mas pode acumular contaminantes se o manguezal for poluído

Beliscão dolorido se manuseado; sem peçonha.

Vida útil

Na natureza
10 a 13 anos, com maturidade entre 2 e 3 anos
Em manguezais impactados
4 a 7 anos, devido à captura e poluição

Reprodução

Acasalamento
Sazonal, durante a andada no verão
Estrutura social
Solitário e territorial, encontros apenas para cópula
Padrão sazonal
Desova entre dezembro e abril, pico em janeiro-março
Tipo de nascimento
Ovíparo com fase larval planctônica
Ninhada
90.000 a 200.000 ovos por fêmea, liberados no estuário

Habitat

Ambientes

  • Manguezais lodosos
  • Apicuns e zonas entre-marés
  • Margens de estuários e canais de maré

Biomas

  • Manguezal
  • Zona Costeira e Estuarina

Detalhes da dieta

Alimento principal

  • Folhas de mangue em decomposição (Rhizophora, Avicennia, Laguncularia)

Outros alimentos

  • Detritos vegetais e matéria orgânica
  • Propágulos e algas
  • Matéria animal em decomposição (oportunista)

Encontrado em 11 países

  • Brasil
  • Estados Unidos
  • México
  • Cuba
  • Venezuela
  • Guiana
  • Suriname
  • Guiana Francesa
  • Colômbia
  • Panamá
  • Trinidad e Tobago

Classificação científica

Reino
Animalia
Filo
Arthropoda
Classe
Malacostraca
Ordem
Decapoda
Família
Ocypodidae
Gênero
Ucides
Espécie
Ucides cordatus (Linnaeus, 1763)

Resumo

  • O caranguejo-uçá é um crustáceo semiterrestre que vive em tocas de até 1,6 m nos manguezais do Atlântico ocidental, da Flórida ao sul do Brasil.
  • Alimenta-se principalmente de folhas de mangue e matéria orgânica, e se reproduz no verão durante a famosa andada, quando milhares caminham sincronizados pela lua.
  • Está classificado como Pouco Preocupante pela IUCN, mas sofre com captura excessiva, destruição do manguezal e poluição no Brasil.

Características

Ficha da espécie

GrupoCrustáceo
OrdemDecapoda
FamíliaOcypodidae (Ucididae)
Origem e distribuiçãoAtlântico ocidental, da Flórida (EUA) ao estado de Santa Catarina (Brasil)
TamanhoLargura da carapaça de 4 a 10 cm (adultos comumente 8 a 10 cm)
Peso150 a 320 g
Coresazul-acinzentadomarrom-avermelhadoroxoverde-oliva
Profundidade0 a 2 m (zona entre-marés, semiterrestre)
HabitatManguezais lodosos, apicuns e margens de estuários
AlimentaçãoFolhas de mangue, detritos vegetais e matéria orgânica
ReproduçãoOvípara, com larvas planctônicas; desova no mar
Expectativa de vida10 a 13 anos na natureza
Estado de conservaçãoPouco Preocupante (LC) - IUCN

Perfil e comportamento

Periculosidade para pessoasMuito baixo
SociabilidadeMédio
InteligênciaBaixo
VelocidadeBaixo
Capacidade de migraçãoBaixo
Importância para o ecossistema marinhoMuito alto

Como identificar o caranguejo-uçá sem confundir

O caranguejo-uçá tem carapaça larga, lisa e sem espinhos, com largura que chega a 10 cm nos machos maiores. As fêmeas são ligeiramente menores e têm abdômen mais largo e arredondado, enquanto os machos exibem abdômen estreito e em forma de triângulo.

A coloração é o primeiro engano: varia de azul-acinzentado a marrom-avermelhado e roxo, mudando conforme a muda e o ambiente. O que realmente o distingue são as patas com pelos ralos e quelas desiguais com tons alaranjados na parte interna, e os olhos em pedúnculos curtos.

Muita gente confunde com o caranguejo-guaiamum (Cardisoma guanhumi), mas o uçá é mais achatado, vive sempre dentro do mangue alagado e tem carapaça menos abobadada. Outro erro comum é chamar qualquer caranguejo de mangue de “uçá” — só Ucides cordatus tem esse nome.

Onde vive e por que depende do manguezal

O uçá é semiterrestre e endêmico do Atlântico ocidental, ocorrendo da Flórida e Caribe até o litoral de Santa Catarina. No Brasil, é mais abundante no Norte e Nordeste, onde os manguezais são mais extensos.

Vive exclusivamente na zona entre-marés dos manguezais, em solos lodosos e ricos em matéria orgânica. Cada indivíduo cava e mantém uma toca em forma de J ou L, com 0,6 a 1,6 m de profundidade, que fica alagada na maré alta e exposta na baixa.

Essa toca não é só abrigo. Ela oxigena o sedimento, drena a água e cria micro-habitat para outros organismos. Em manguezais preservados, a densidade chega a 1,5 a 2,5 tocas por m², o que mostra o papel de engenheiro ecossistêmico da espécie. Sem manguezal íntegro, o uçá simplesmente não sobrevive.

O que come e como transforma folha em nutriente

A dieta é majoritariamente herbívora-detritívora. O alimento principal são folhas de mangue-vermelho (Rhizophora mangle), mangue-preto (Avicennia) e mangue-branco (Laguncularia) já caídas e em decomposição.

Ele coleta a folha, leva para a entrada da toca e a tritura com as quelas. Esse comportamento de rasgar e reter folhas por dias acelera a decomposição por fungos e bactérias. Ao se alimentar, ingere também micro-organismos e detritos, devolvendo ao solo fezes ricas em nutrientes.

Em menor proporção consome propágulos, algas e matéria animal em decomposição, mas não é predador ativo. Essa alimentação faz dele um dos principais responsáveis pela ciclagem de carbono no manguezal — sem ele, as folhas se acumulariam e o solo ficaria anóxico.

A andada e a reprodução: o espetáculo do verão

A reprodução é o evento mais conhecido do uçá: a andada. Entre dezembro e abril, com pico em janeiro a março, machos e fêmeas saem das tocas e caminham em massa pelo manguezal.

A andada é sincronizada com as luas cheia e nova e com as marés de sizígia. Os machos disputam fêmeas com exibições de quelas e cópula que ocorre dentro ou fora da toca. Dias depois, a fêmea fecundada migra até a borda do mangue para liberar os ovos no mar.

Cada fêmea carrega 90 mil a 200 mil ovos aderidos aos pleópodes, com coloração que vai do laranja ao marrom-escuro. As larvas (zoeas) são planctônicas e passam cerca de 30 dias no estuário e no mar antes de voltarem como megalopas para o mangue. A maturidade sexual ocorre com 4 a 5 cm de largura de carapaça, por volta de 2 a 3 anos.

Comportamento e vida dentro da toca

O uçá é solitário e territorial. Cada toca tem um dono, que a defende e a mantém fechando a entrada com lama durante a muda. É um animal de hábitos diurnos na maré baixa, quando sai para forragear e limpar a galeria.

A muda (ecdise) acontece uma a duas vezes por ano nos adultos. Nessa fase, ele fica semanas entocado, sem se alimentar, até a nova carapaça endurecer. É o período de maior vulnerabilidade à predação e à captura.

A comunicação é feita por batidas das quelas no solo e vibrações, além de sinais químicos na água da toca. Apesar da aparência lenta, pode se deslocar com rapidez curta quando ameaçado, mas prefere recuar para a galeria a confrontar.

Como é a toca por dentro

A galeria tem uma câmara alagada no fundo, onde o caranguejo mantém água para umedecer as brânquias. Essa água é renovada a cada maré. O túnel inclinado evita o afogamento e mantém a umidade estável mesmo em dias de sol forte.

É perigoso para humanos?

Não. O caranguejo-uçá não é venenoso, não ataca e oferece risco mínimo. As quelas podem beliscar forte se o animal for manuseado, causando dor e pequenos cortes, mas sem peçonha ou toxina.

O risco real está no consumo sem cuidados. Como vive em sedimento estuarino, pode acumular metais pesados e bactérias se o manguezal estiver poluído. Por isso, a captura em áreas contaminadas e o consumo cru são desaconselhados.

Para catadores, o perigo é ergonômico e ambiental: o método antigo do laço (armadilha com laçada na toca) é proibido por lei por ser pouco seletivo e prender fêmeas e juvenis. O método permitido é o braceamento, com captura manual, que exige esforço físico e respeito ao defeso.

Ameaças, defeso e conservação no Brasil

Globalmente a IUCN classifica como Pouco Preocupante (LC), mas com população em declínio. No Brasil, o quadro é mais crítico: é considerado sobre-explotado em vários estados e tem captura regulamentada.

As principais ameaças são captura acima da reposição, destruição do manguezal para carcinicultura e expansão urbana, poluição por esgoto e óleo, e a doença do caranguejo letárgico, causada por fungo que dizimou populações no Nordeste nos anos 1990-2000.

Para proteger a reprodução, existe o defeso da andada, determinado anualmente pelo ICMBio/IBAMA. Em geral, são 3 a 4 períodos de 4 a 5 dias entre janeiro e abril, quando é proibido capturar, transportar e comercializar o uçá. Fora do defeso, só é permitida a captura de machos com carapaça acima de 6 cm, e fêmeas são sempre proibidas.

Medida Regra no Brasil
Defeso da andada Proibição total em luas de verão (datas anuais do ICMBio)
Tamanho mínimo 6 cm de largura da carapaça
Fêmeas Captura proibida o ano todo
Método proibido Laço, redinha e qualquer armadilha

Curiosidades que pouca gente sabe e como observar sem impacto

O uçá pode fechar a toca com uma “rolha” de lama e ficar dias sem sair, respirando a água estocada. Essa estratégia o protege de predadores como guaxinins, gaviões e garças, além de manter a umidade.

Outro fato pouco divulgado é que ele não bebe água doce: filtra a salinidade na própria toca e regula o sal pelas brânquias, por isso precisa da maré para renovar a água.

Se quiser observar, faça em passarelas de manguezal ou com guias de comunidades extrativistas, na maré baixa, sem pisar nas tocas e sem tocar nos animais. Nunca vire o caranguejo de costas, não use lanterna direta nos olhos e não compre fora da safra ou abaixo do tamanho legal. O turismo responsável ajuda a manter o mangue em pé — que vale mais vivo do que na panela.

Perguntas frequentes

Caranguejo-uçá é venenoso?

Não. Ele não tem peçonha nem toxina. O risco é apenas o beliscão das quelas e o consumo de animais de áreas poluídas.

Qual a diferença entre uçá e guaiamum?

O uçá (Ucides cordatus) vive dentro do mangue alagado e tem carapaça mais lisa e achatada; o guaiamum (Cardisoma guanhumi) vive em áreas mais altas e secas e tem carapaça mais abobadada e azulada.

Quando é a andada do caranguejo-uçá?

Entre dezembro e abril, com pico de janeiro a março, sempre nas luas cheia e nova e marés grandes.

Pode capturar caranguejo-uçá o ano todo?

Não. Há defeso na época da andada e proibição permanente de captura de fêmeas e de indivíduos com menos de 6 cm de carapaça.

O que o caranguejo-uçá come?

Principalmente folhas de mangue caídas e em decomposição, além de detritos orgânicos. Ele tritura as folhas e acelera a ciclagem de nutrientes.

Quanto tempo vive o caranguejo-uçá?

De 10 a 13 anos na natureza em áreas preservadas; menos em áreas com forte pressão de captura.

Por que o caranguejo-uçá faz tocas tão profundas?

Para manter umidade, regular a salinidade, se proteger de predadores e passar a muda em segurança. As tocas chegam a 1,6 m de profundidade.

Você sabia?

1

Fazendeiro do mangue

Um único caranguejo-uçá pode triturar até 8 kg de folhas por ano, acelerando a decomposição e fertilizando o solo do manguezal.

2

Andada marcada pela lua

A andada não é aleatória: acontece sempre nas luas cheia e nova de verão, quando a maré alta ajuda as fêmeas a liberar os ovos no mar.

3

Toca com ar-condicionado

A galeria em forma de J mantém uma câmara de água no fundo que funciona como reserva para umedecer as brânquias nos dias de maré baixa.

4

Doença letárgica

Nos anos 1990, um fungo (Exophiala cancerae) causou mortalidade de até 90% em alguns manguezais do Nordeste, deixando caranguejos lentos e desorientados.

Fontes

  1. IUCN Red List - Ucides cordatus
  2. ICMBio - Defeso do caranguejo-uçá
  3. WoRMS - World Register of Marine Species
  4. SeaLifeBase

Prós e contras: Caranguejo-uçá

Prós

  • Espécie-chave que mantém o manguezal saudável e produtivo
  • Importante para a economia de comunidades extrativistas
  • Fácil de observar na natureza sem necessidade de mergulho
  • Ciclo de vida bem estudado, com manejo e defeso definidos
  • Baixo risco para humanos

Contras

  • Muito sensível à poluição e à destruição do manguezal
  • Sobrepesca ameaça populações locais no Brasil
  • Não é animal de estimação e não se adapta ao cativeiro
  • Captura ilegal com laço ainda ocorre e prejudica o estoque
  • Doenças fúngicas podem causar mortalidade em massa
Nossa opinião

Na nossa avaliação, o caranguejo-uçá é o melhor indicador de saúde do manguezal brasileiro: onde ele some, o mangue já está degradado. Proteger a andada e valorizar o manejo comunitário é mais eficaz que proibições isoladas, porque une conservação e renda.

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Sansão Monteiro
Escrito porSansão MonteiroEditor de Animais

Ele é criador de conteúdo sobre animais, com foco em raças de cães e gatos, comportamento, características físicas e cuidados essenciais. Através de pesquisa em fontes confiáveis, procura…

Última revisão em 19.10.2026. Conteúdo informativo; em caso de dúvida, consulte um profissional.