Resumo
- A traça-do-tomateiro é a lagarta da mariposa Tuta absoluta, que ataca tomate e outras solanáceas abrindo minas nas folhas e brocas nos frutos.
- Tem metamorfose completa e ciclo muito rápido de 24 a 38 dias, com fêmeas que põem mais de 200 ovos e até 12 gerações por ano no Brasil.
- Não pica nem é venenosa para humanos e pets, mas é praga quarentenária grave que exige monitoramento, barreiras físicas e controle biológico para ser contida.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Lepidoptera |
|---|---|
| Família | Gelechiidae |
| Origem e distribuição | América do Sul; hoje cosmopolita, presente em todo o Brasil, Europa, África e Ásia |
| Tamanho | Adulto: 6 a 7 mm de comprimento, 10 mm de envergadura; lagarta: 7 a 9 mm |
| Cores | cinza-prateadomarrompretoverde-clarocreme |
| Asas e voo | 2 pares de asas estreitas e franjadas; voo baixo, curto e noturno |
| Alimentação | Fitófaga; lagarta minadora e broqueadora de solanáceas |
| Metamorfose | Completa (ovo > larva > pupa > adulto) |
| Expectativa de vida | Ovo a adulto: 24 a 38 dias; adulto: 10 a 15 dias |
| Habitat | Cultivos de tomate a campo e protegido, áreas com solanáceas espontâneas |
| Comportamento social | Solitário; larvas não formam colônias, adultos se agregam apenas para acasalar |
| Principais predadores | Vespas predadoras, crisopídeos, joaninhas, aranhas e parasitoide Trichogramma pretiosum |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Baixo |
Como identificar a traça-do-tomateiro sem confundir
A traça-do-tomateiro adulta é uma mariposa minúscula, cinza-prateada com manchas pretas nas asas anteriores e antenas filiformes longas. Ela mede só 6 a 7 mm e passa despercebida de dia, escondida na face inferior das folhas.
O sinal mais evidente não é o adulto, e sim o dano da lagarta. Procure por minas irregulares e esbranquiçadas nas folhas, como se alguém tivesse desenhado túneis translúcidos. Dentro da mina há uma lagarta verde-clara com cabeça escura e uma mancha preta atrás da cabeça.
Nos frutos, o ataque é diferente: pequenos furos com fezes escuras na entrada e galerias internas. É fácil confundir com broca-grande (Helicoverpa) ou com larva-minadora (Liriomyza), mas a traça deixa minas mais largas e ataca ao mesmo tempo folha, haste, ponteiro e fruto.
O ovo é outro detalhe útil para monitoramento: minúsculo (0,35 mm), oval, branco-creme que amarela antes de eclodir, colocado isolado na parte de baixo da folha, nos brotos ou no cálice do fruto. Com lupa de 10x já dá para ver.
Onde vive e como se espalhou pelo Brasil e pelo mundo
A espécie é nativa da América do Sul, descrita no Peru em 1917. No Brasil foi detectada no final dos anos 1970 e hoje ocorre de norte a sul, tanto em cultivo a campo quanto em estufa.
A expansão global foi explosiva. Depois de chegar à Espanha em 2006, em menos de dez anos colonizou o Mediterrâneo, o Oriente Médio, grande parte da África e chegou à Ásia. Viaja como carona em frutos, mudas e caixas, além de voar curtas distâncias.
No campo, prefere áreas quentes e secas, com temperatura entre 20 e 30 °C. Estufas são o ambiente perfeito: sem chuva para derrubar ovos, alimento o ano todo e pouca ventilação. Em regiões frias do Sul, a população cai no inverno, mas não desaparece.
Fora da lavoura, sobrevive em plantas espontâneas da família Solanaceae, como joá-bravo (Solanum sisymbriifolium), Maria-pretinha e figueira-brava. Por isso a entressafra com mato solanáceo mantém a praga viva.
O que a lagarta realmente come e por que o tomateiro sofre tanto
A lagarta é oligófaga em solanáceas. O hospedeiro preferido é o tomateiro (Solanum lycopersicum), mas aceita berinjela, batata, pimentão, tabaco e até pimenteira ornamental quando não há tomate.
Ela não rói a borda da folha como outras lagartas. Ela entra no mesófilo e come por dentro, deixando as duas epidermes intactas. Isso reduz a fotossíntese, seca o folíolo e abre porta para fungos.
No ponteiro, a larva broqueia a gema apical e trava o crescimento da planta. No fruto, entra logo abaixo do cálice e faz galerias na polpa. Um único fruto pode ter 3 a 5 lagartas, tornando-o imprestável para mercado.
Diferente de lagartas que só atacam em um estádio, a traça ataca do transplantio à colheita. Como o tomateiro produz folhas e frutos continuamente, sempre há tecido jovem para ela.
Ciclo de vida completo: de ovo a mariposa em menos de um mês
O ciclo é de metamorfose completa e muito rápido. A 25 °C, vai de ovo a adulto em cerca de 30 dias. No calor do verão brasileiro, pode fechar em 24 dias; no frio, estica para 38 dias.
A fêmea põe 200 a 260 ovos ao longo de 10 a 15 dias de vida adulta, a maioria nas primeiras noites após acasalar. Cada ovo eclode em 4 a 6 dias.
A larva passa por 4 ínstares em 12 a 15 dias. Nos dois primeiros, é minadora de folha; nos dois últimos, sai da mina e pode broquear hastes e frutos. Quando bem alimentada, fica rosada no último ínstar.
A pupa se forma dentro de um casulo sedoso branco, geralmente no solo, na folha seca ou no fruto. Dura 7 a 10 dias. O adulto emerge ao entardecer, já pronto para acasalar na mesma noite. No Brasil central, são 10 a 12 gerações por ano sem pausa.
Comportamento: voo noturno, acasalamento e como ela se esconde
O adulto é estritamente noturno e de voo baixo. De dia fica imóvel, camuflado. Ao entardecer, machos são atraídos pelo feromônio sexual da fêmea e podem ser capturados em armadilhas delta com isca sintética.
A lagarta tem comportamento de se esconder dentro da planta, o que a protege de chuva, predadores e pulverizações mal dirigidas. Se perturbada, pode sair da mina e tecer um fio de seda para se pendurar e escapar.
Não há vida em grupo organizada. Cada mina geralmente tem uma única lagarta, embora uma folha possa ter dezenas de minas. Adultos não formam enxames; apenas se concentram onde há luz artificial à noite.
Em estufa, a dispersão é quase toda por caminhada da lagarta e voo curto do adulto entre plantas. Por isso focos começam em reboleiras e se espalham em mancha.
Pica, morde ou é venenosa? Riscos para pessoas e pets
Não pica, não morde e não tem veneno. A traça-do-tomateiro não possui ferrão, cerdas urticantes nem glândulas de toxina. O contato com asas ou lagartas não causa alergia na maioria das pessoas.
Para cachorros, gatos e outros pets, também não é tóxica. Se um animal comer folhas com lagartas, o risco é o mesmo de ingerir qualquer inseto: desconforto leve, não envenenamento. O perigo real para pets vem do uso incorreto de agrotóxicos.
Frutos atacados não se tornam venenosos, mas não devem ser consumidos quando há podridão secundária ou cheiro de fermentação. Lave bem e descarte frutos brocados com galerias escuras.
Em caso de contato com grande quantidade de mariposas em ambiente fechado, pessoas sensíveis podem ter irritação nasal passageira por escamas, como ocorre com outras mariposas. Ventilar o ambiente resolve.
Por que é considerada uma das piores pragas do tomate
O status de praga-chave vem de três fatores combinados: ataque múltiplo, ciclo curto e resistência. Ela ataca folha, haste e fruto ao mesmo tempo, o que nenhuma outra praga do tomateiro faz com tanta intensidade.
Sem controle, perdas de 80% a 100% são comuns em tomate para mesa e industrial. A Embrapa classifica a Tuta absoluta como praga de maior impacto econômico na tomaticultura brasileira, ao lado da mosca-branca.
Outro problema é a rápida seleção de resistência a inseticidas quando o mesmo princípio ativo é usado repetidamente. Populações resistentes a piretróides, diamidas e espinosinas já foram documentadas na América do Sul e na Europa.
| Característica | Traça-do-tomateiro (Tuta absoluta) | Larva-minadora (Liriomyza) | Broca-grande (Helicoverpa) |
|---|---|---|---|
| Mina na folha | Larga, irregular, com lagarta verde dentro | Fina, serpenteada, branca | Não faz mina |
| Dano no fruto | Furo pequeno perto do cálice, galeria interna | Não ataca fruto | Furo grande, lagarta exposta |
| Tamanho da lagarta | Até 9 mm | Até 3 mm (larva de mosca) | Até 30 mm |
| Horário | Noturno (adulto) | Diurno | Noturno |
Como lidar e controlar sem desequilibrar o ambiente
O controle eficaz é manejo integrado (MIP), não pulverização calendário. Comece com monitoramento: armadilhas com feromônio (1 a 2 por hectare) e vistoria semanal de 20 a 30 plantas, procurando ovos e minas novas.
Medidas culturais fazem muita diferença: eliminar restos de cultura e plantas daninhas solanáceas após a colheita, fazer rotação com não solanáceas, usar mudas sadias e telar estufas com malha anti-inseto. Enterrar ou ensacar frutos atacados interrompe o ciclo da pupa.
O controle biológico é aliado central. O parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum e o predador Nesidiocoris tenuis são usados comercialmente, além de Bacillus thuringiensis (Bt) para lagartas jovens. Eles preservam polinizadores quando bem manejados.
Se precisar intervir quimicamente, prefira produtos seletivos e alterne modos de ação, sempre com receituário agronômico. Nunca use doses caseiras ou misturas sem orientação. Em horta doméstica, catação manual de folhas minadas e descarte em saco fechado já reduz muito a pressão.
Curiosidades que pouca gente sabe sobre a Tuta absoluta
Apesar do nome, ela não é traça de roupa. Traças de roupa são Tineidae que comem queratina; a traça-do-tomateiro é Gelechiidae, parente de mariposas de grãos, e só come planta viva.
A fêmea consegue detectar a planta de tomate pelo cheiro a metros de distância, mesmo no escuro. Estudos de olfatometria mostram preferência clara por voláteis de tomateiro em relação a batata ou berinjela.
Em laboratório, já se observou partenogênese facultativa rara: fêmeas virgens podem pôr poucos ovos viáveis sem macho, mas a reprodução sexuada é a regra no campo.
Na nossa avaliação, a traça-do-tomateiro é o melhor exemplo de como uma praga de menos de 1 centímetro pode quebrar uma cadeia produtiva inteira. Subestimar as primeiras minas é o erro mais caro do tomaticultor iniciante.
Perguntas frequentes
Traça-do-tomateiro pica ou é venenosa?
Não. O adulto não tem ferrão e a lagarta não tem cerdas urticantes nem veneno. Não há risco de picada para pessoas ou pets.
Como saber se é traça-do-tomateiro e não larva-minadora?
A traça faz minas largas e irregulares com lagarta verde dentro e também fura frutos. A larva-minadora faz trilhas finas e serpenteadas e não ataca o fruto.
Posso comer tomate com furo da traça?
Não é recomendado. O furo indica galeria interna com fezes e possível podridão por fungos e bactérias. Descarte frutos brocados.
Como acabar com a traça-do-tomateiro em horta caseira?
Retire e ensaque folhas minadas e frutos furados, elimine mato solanáceo, tele a horta e use armadilha com feromônio. Para lagartas jovens, Bt é a opção mais seletiva com orientação técnica.
Qual predador natural controla a traça?
Vespas Trichogramma que parasitam ovos, percevejos predadores como Nesidiocoris tenuis, crisopídeos e joaninhas que comem ovos e lagartas pequenas.
Em quanto tempo a traça vira praga?
Muito rápido. Com ciclo de cerca de 30 dias e 200 ovos por fêmea, um foco pequeno pode tomar a lavoura em 2 a 3 semanas no calor.
Você sabia?
Não é traça de armário
Apesar do nome popular, não tem parentesco com as traças que comem roupa. São famílias diferentes: Tuta é Gelechiidae, traça de roupa é Tineidae.
Farejadora de tomate no escuro
A fêmea localiza o tomateiro pelo cheiro dos voláteis da planta, mesmo à noite, e prefere botar ovos nos brotos mais jovens e tenros.
Pupa que se esconde no chão
Boa parte das pupas não fica na planta, mas no solo ou em restos secos sob a cultura, o que explica por que a limpeza pós-colheita é tão decisiva.
Resistência relâmpago
Por ter até 12 gerações por ano, populações expostas ao mesmo inseticida por safras seguidas podem selecionar resistência em menos de dois anos.










