Resumo
- O percevejo-aquático é um predador aquático da ordem Hemiptera, famoso pela picada extremamente dolorosa e pelo tamanho que pode passar de 10 cm.
- Vive em lagos, brejos e piscinas de todo o Brasil, respira com um tubo ou bolha de ar e voa à noite atraído por luzes artificiais.
- O macho de algumas espécies carrega até 150 ovos nas costas até a eclosão, um cuidado parental raro entre os insetos.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Hemiptera |
|---|---|
| Família | Belostomatidae, Notonectidae, Nepidae e Naucoridae (principais) |
| Origem e distribuição | Cosmopolita; presente em todo o Brasil |
| Tamanho | 1,5 cm (Notonectidae) a 12 cm (Lethocerus grandis) |
| Cores | marrompretocinzaverde-olivaamarelado |
| Asas e voo | Com asas funcionais; voo noturno atraído por luz |
| Alimentação | Carnívora: peixes pequenos, girinos, larvas e insetos aquáticos |
| Metamorfose | Incompleta (hemimetábola) |
| Expectativa de vida | 6 meses a 1 ano na natureza |
| Habitat | Lagos, lagoas, brejos, rios de baixa correnteza e piscinas |
| Comportamento social | Solitário e territorial |
| Principais predadores | Aves aquáticas, peixes grandes, anfíbios e libélulas grandes |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Médio |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Muito alto |
| Presença em casas | Baixo |
| Benefício para a agricultura | Médio |
| Dano às plantas | Muito baixo |
| Vida em grupo | Muito baixo |
O que é o percevejo-aquático e como identificar na hora
O percevejo-aquático é um hemíptero predador da infraordem Nepomorpha. Ele não é besouro nem barata, apesar do nome popular barata-d’água.
O corpo é achatado, oval e hidrodinâmico, com pernas dianteiras em forma de garra para agarrar a presa e pernas traseiras achatadas como remos. Na cabeça destacam-se olhos grandes e aparelho bucal em forma de bico curto e forte, dobrado sob o corpo.
Para não confundir, observe três pistas rápidas: vive dentro da água, nada com pernadas sincronizadas e, quando retirado da água, tenta picar imediatamente. Espécies terrestres de percevejo não têm as pernas traseiras natatórias.
As famílias mais comuns no Brasil
- Belostomatidae (barata-d’água gigante): 2,5 a 12 cm, marrom-escura, a maior e a que mais causa acidentes. Gêneros Lethocerus e Belostoma.
- Notonectidae (nadador-de-costas): 1,5 a 1,8 cm, nada de dorso para baixo, barriga clara e dorso escuro.
- Nepidae (escorpião-d’água): corpo alongado em forma de graveto, com sifão respiratório longo na ponta do abdômen que parece uma cauda.
- Naucoridae: 1 a 2 cm, oval e achatado, vive no fundo entre folhas submersas.
Onde vive e por que aparece em piscinas e luzes
O habitat preferido é água doce parada ou de correnteza muito lenta: lagoas, brejos, açudes, várzeas, igarapés e represas. Fica escondido entre vegetação aquática, lodo ou folhas no fundo, à espera da presa.
Ele respira ar atmosférico. Belostomatídeos sobem à superfície e capturam uma bolha de ar sob as asas, que funciona como escafandro e permite ficar submerso por mais de 30 minutos. Nepídeos respiram pelo sifão que mantêm fora da água.
Aparece em piscinas porque confunde o brilho da água com lagoas e porque é fortemente atraído por luz branca à noite. Em noites quentes e úmidas, adultos alados podem voar até 5 km e cair em varandas, quintais e dentro de casa. É mais frequente de outubro a março, na estação chuvosa.
O que ele come: um predador de emboscada
É estritamente carnívoro. A dieta inclui larvas de mosquito, besouros aquáticos, girinos, peixes pequenos, caramujos e até outros percevejos-aquáticos.
A caça é por emboscada. Ele fica imóvel e, quando a presa passa, agarra com as pernas anteriores raptoriais e injeta saliva rica em enzimas digestivas pelo bico. Essa saliva liquefaz músculos e órgãos em poucos minutos, e o inseto suga o conteúdo.
Um Lethocerus adulto pode capturar peixes de até 3 vezes o seu comprimento e girinos maiores que ele. Por isso, em aquicultura ele é considerado praga de alevinos, mas na natureza ajuda a controlar larvas de mosquitos.
Ciclo de vida e reprodução: o pai que carrega os ovos
Tem metamorfose incompleta. Da eclosão sai a ninfa, já aquática e parecida com o adulto, que passa por 5 mudas até virar adulto alado. O ciclo completo leva 45 a 90 dias dependendo da temperatura.
O acasalamento ocorre na água na primavera e verão. Nas espécies do gênero Belostoma, a fêmea cola 100 a 150 ovos nas costas do macho, que os carrega por 10 a 14 dias. Ele ventila os ovos com movimentos das pernas e sobe à superfície para oxigená-los.
Esse cuidado paterno é raríssimo entre insetos e aumenta muito a sobrevivência. Em Lethocerus, a fêmea põe os ovos em vegetação acima da linha d’água e o macho os guarda e umedece até eclodirem. Sem esse cuidado, os ovos ressecam e morrem.
Ele voa? Como se move na água e fora dela
Sim, voa muito bem, mas só na fase adulta e quase sempre à noite. As asas membranosas ficam dobradas sob os hemiélitros (asas anteriores mais duras). Durante o dia ele raramente voa.
Na água, o nado é potente. As pernas traseiras achatadas e com franjas de pelos funcionam como remos. Notonectídeos nadam de costas com impulsos rápidos; belostomatídeos nadam com batidas lentas e controladas.
Fora da água ele é desajeitado e lento. Se cair no chão, caminha com dificuldade e tenta voltar para a água ou se esconder. É nessa hora que acontecem as picadas, quando alguém pisa descalço ou tenta pegá-lo com a mão.
Picada do percevejo-aquático dói? Riscos para pessoas e pets
A picada é considerada uma das mais dolorosas entre os insetos do Brasil, comparada à de vespa. O bico perfura a pele e injeta saliva irritante, causando dor aguda imediata, inchaço e vermelhidão que podem durar horas a 2 dias.
Não há veneno letal para humanos. O risco maior é infecção secundária por coçar ou espremer o local, e reação alérgica em pessoas sensíveis. Em cachorros e gatos, a picada no focinho ou pata provoca dor intensa, choro e edema, mas raramente exige mais que observação.
Não esmague o inseto com a mão. Se encontrar um dentro de casa ou na piscina, use pote com tampa ou rede para capturá-lo e solte em lagoa afastada. Lave o local da picada com água e sabão, aplique compressa fria e procure atendimento médico se houver falta de ar, febre ou dor que não melhora em 24 horas.
Papel no ecossistema: vilão ou aliado?
Na nossa avaliação, o percevejo-aquático é muito mais aliado do que praga. Como predador de topo em microambientes aquáticos, regula populações de larvas de mosquito, caramujos e insetos que poderiam desequilibrar lagoas.
Ele também é bioindicador. Águas muito poluídas com esgoto ou agrotóxicos eliminam suas presas e ele desaparece. Onde há diversidade de belostomatídeos e notonectídeos, a água costuma ter melhor qualidade ecológica.
O lado negativo aparece em criação de peixes. Em tanques de alevinos de tilápia e tambaqui, um único Lethocerus pode matar dezenas de filhotes em uma noite. Nesses casos o manejo é físico, com telas e remoção manual, não com veneno que contaminaria a água.
Como lidar e evitar encontros indesejados
Não é preciso matar. A convivência é simples com prevenção. O inseto só entra em áreas humanas por luz e por água parada exposta.
- Piscinas: mantenha coberta à noite, apague luzes próximas à água e limpe bordas com vegetação. Retire com puçá e solte longe.
- Luzes: troque luz branca forte por luz amarela ou quente na área externa, que atrai menos insetos aquáticos.
- Tanques de peixe: use telas de proteção e remova vegetação excessiva onde ele se esconde.
- Dentro de casa: feche janelas sem tela em noites chuvosas e não deixe baldes com água parada iluminados.
Se precisar manusear, nunca use dedos. Use luvas grossas ou pinça longa. Ele não persegue pessoas; se for deixado em paz, vai embora sozinho.
Curiosidades que pouca gente sabe
Apesar do tamanho, o percevejo-aquático gigante consegue fingir-se de morto quando ameaçado, liberando um líquido de cheiro forte por glândulas no tórax. O odor afasta aves.
Em algumas regiões da Ásia, espécies grandes de Lethocerus são consumidas fritas e consideradas iguaria. No Brasil não há consumo tradicional.
O recorde de tamanho no país é do Lethocerus grandis, com até 12 cm, maior que muitos peixes de riacho onde vive. Já o menor, Buenoa (Notonectidae), tem pouco mais de 5 mm.
Erros comuns: confundir com barata de esgoto e aplicar inseticida doméstico, que não funciona na água e contamina o ambiente. Outro erro é achar que todo percevejo-aquático transmite doença de Chagas. Ele não transmite Trypanosoma; os transmissores são os barbeiros terrestres (Triatominae).
Perguntas frequentes
Percevejo-aquático pica?
Sim. Se for manuseado ou pisado, perfura a pele com o bico e causa dor muito forte, inchaço e vermelhidão por horas.
Ele transmite doença de Chagas?
Não. Os transmissores são os barbeiros terrestres (Triatominae). O percevejo-aquático não transmite Trypanosoma cruzi.
Por que aparece na piscina?
Confunde o brilho da água com lagoas e é atraído por luz branca à noite. Voa de lagoas próximas e cai na piscina.
O que fazer se encontrar um em casa?
Não pegue com a mão. Capture com pote ou rede e solte em lagoa afastada. Mantenha janelas teladas e luzes externas amareladas.
É perigoso para cachorro e gato?
A picada dói muito e incha, mas não é letal. Lave o local e observe. Se o inchaço aumentar ou houver alergia, leve ao veterinário.
Como diferenciar da barata?
A barata-d'água tem pernas traseiras em forma de remo, corpo achatado para nadar e vive dentro da água. Baratas terrestres têm pernas finas e correm no seco.
Você sabia?
Pai-carregador
Em Belostoma, o macho carrega 100 a 150 ovos colados nas costas por até 14 dias, ventilando e oxigenando a postura até a eclosão.
Picada que dissolve
A saliva injetada liquefaz os tecidos da presa em minutos. Por isso a dor em humanos é tão intensa, mesmo sem veneno letal.
Voo noturno de quilômetros
Adultos podem voar até 5 km em noites quentes atraídos por luz branca, o que explica invasões a piscinas e varandas.
Finge de morto e fede
Quando ameaçado, libera secreção de cheiro forte por glândulas torácicas e fica imóvel para enganar predadores.










