Resumo
- O gafanhoto-do-milho é o Schistocerca cancellata, gafanhoto migrador de 3,5 a 6 cm que ataca milho e gramíneas em bandos.
- Tem metamorfose incompleta, vive de 3 a 6 meses e tem pico de atividade na primavera e verão, quando põe ovos no solo.
- Não pica, não é venenoso e não oferece risco direto a pessoas ou pets, mas pode causar grande dano agrícola.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Orthoptera |
|---|---|
| Família | Acrididae |
| Origem e distribuição | América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile) |
| Tamanho | 3,5 a 6 cm (fêmeas maiores que machos); envergadura com asas até 10 cm |
| Cores | verdemarromamareladocinzacom manchas escuras nas asas |
| Asas e voo | Duas pares de asas; voo forte e migratório, até 100 km/dia em bandos |
| Alimentação | Herbívoro - milho, sorgo, trigo, arroz, pastagens e gramíneas nativas |
| Metamorfose | Incompleta (ovo > ninfa > adulto) |
| Expectativa de vida | 3 a 6 meses na natureza |
| Habitat | Lavouras, pastagens, cerrado e áreas abertas |
| Comportamento social | Solitário ou gregário; forma bandos migratórios na fase gregária |
| Principais predadores | Aves, lagartos, aranhas, louva-a-deus e fungos entomopatogênicos |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Médio |
| Presença em casas | Muito baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Muito alto |
Como identificar o gafanhoto-do-milho sem confundir
O gafanhoto-do-milho é o Schistocerca cancellata, também chamado de gafanhoto sul-americano. Adulto tem 3,5 a 6 cm, corpo alongado, cabeça com olhos grandes e antenas curtas e filiformes.
A coloração varia muito entre fases. Na fase solitária é mais verde ou marrom-claro, bem camuflado. Na fase gregária, quando forma bandos, fica mais amarelado com manchas escuras e listras pretas no dorso.
As asas anteriores são coriáceas e manchadas, as posteriores são membranosas e amareladas na base. Em repouso, as asas cobrem o abdômen. As pernas traseiras são muito desenvolvidas para salto, com fêmur grosso e listrado.
Não confunda com gafanhotos pequenos de jardim (Acrididae diversos) que têm 1 a 2 cm e nunca formam nuvens. Outro erro comum é confundir com esperança (Tettigoniidae), que tem antenas muito mais longas que o corpo. O gafanhoto-do-milho tem antenas curtas e corpo mais robusto.
Onde vive e por que aparece tanto no milho
É nativo da América do Sul, com ocorrência do centro-oeste do Brasil até a Patagônia. No Brasil, é mais comum no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além de áreas do Nordeste em anos de surto.
Vive em áreas abertas, pastagens, cerrado, bordas de mata e principalmente lavouras. Prefere regiões quentes e com estação chuvosa bem marcada, onde o solo fica úmido para postura.
Aparece no milho porque a planta oferece alimento ideal em todas as fases: folhas tenras para ninfas e folhas, pendão e espigas em formação para adultos. Lavouras extensas e contínuas funcionam como corredor para migração.
Os surtos históricos estão ligados a desmatamento, monocultura e verões com chuvas irregulares seguidas de seca. O último grande surto que chegou ao Rio Grande do Sul veio da Argentina e Paraguai entre 2019 e 2020, com nuvens de milhões de indivíduos.
O que o gafanhoto-do-milho come de verdade
É herbívoro mastigador e altamente polífago dentro das gramíneas. Prefere milho, sorgo, trigo, arroz, cana, aveia e capins como braquiária e capim-colonião.
Uma ninfa consome poucas gramas por dia, mas um bando adulto pode comer o equivalente ao seu peso diariamente. Em alta densidade, desfolham completamente a planta, comem o cartucho do milho e raspam grãos leitosos da espiga.
Quando a gramínea preferida acaba, ataca soja, alfafa e até plantas nativas, mas sempre volta para gramíneas se houver escolha. Não se alimenta de outros insetos, sangue ou restos.
Ciclo de vida e reprodução: de ninfa a nuvem
Tem metamorfose incompleta: ovo, ninfa (5 a 6 ínstares) e adulto. Não tem fase de larva ou pupa.
A fêmea põe 80 a 120 ovos por postura, em vagens no solo fofo e úmido, a 5 a 10 cm de profundidade. Pode fazer 2 a 3 posturas na vida. Os ovos ficam em dormência na seca e eclodem com as primeiras chuvas fortes.
As ninfas nascem sem asas, são chamadas de “saltões” e andam em bandos a pé. Passam por 5 mudas em cerca de 35 a 45 dias até virar adulto alado. Adultos vivem mais 2 a 4 meses.
Em condições de alta densidade e contato físico constante, ocorre a gregarização: mudança hormonal que escurece a cor, aumenta a atividade e faz o inseto buscar o bando. É essa transformação que cria as nuvens migratórias.
Quanto tempo leva para virar praga
Do ovo ao adulto migrador são 90 a 120 dias em temperatura de 25 a 32 °C. Com calor e alimento farto, o ciclo encurta. Uma área com postura em outubro pode ter bando voando já em dezembro.
Comportamento: quando vive sozinho e quando forma bando
Na maior parte do tempo vive solitário e discreto, espalhado no campo, voando pouco e fugindo com saltos curtos. Nessa fase, é difícil notar sua presença.
Quando a densidade passa de 30 a 50 ninfas por m², o toque entre indivíduos dispara a fase gregária. As ninfas passam a marchar juntas e os adultos a voar coordenados, seguindo vento e cheiro de vegetação.
O voo migratório acontece de dia, com vento a favor, a 10 a 30 metros de altura, mas pode subir mais. Bandos percorrem 20 a 100 km por dia e param ao entardecer para se alimentar.
Para defesa, usa salto, voo rápido e regurgita líquido marrom de cheiro forte se for capturado. Não morde por agressividade, apenas mastiga se for pressionado contra a pele.
Ele morde, pica ou é venenoso? Riscos para pessoas e pets
O gafanhoto-do-milho não pica, não tem ferrão e não é venenoso. O aparelho bucal é mastigador, feito para folhas, não para perfurar pele.
Mordidas só ocorrem se o inseto for apertado na mão, e são superficiais, como uma beliscada. Não transmite doença, não contamina alimentos com toxina e não ataca colmeias.
Para pets, o risco é baixo. Cães e gatos que comem um ou dois gafanhotos geralmente não têm problema. Ingestão em grande quantidade pode causar vômito ou irritação gástrica pelo exoesqueleto quitinoso e pelo conteúdo vegetal.
A única atenção é para alergia a quitina ou a fungos que o inseto pode carregar, e para gafanhotos recém-pulverizados com inseticida. Se houver uso de veneno na lavoura, mantenha animais longe da área.
É praga ou faz parte do equilíbrio? Papel no ecossistema
Na natureza, em baixa densidade, tem papel normal: consome gramíneas, serve de alimento para aves e répteis e ajuda a reciclar nutrientes. O problema é o desequilíbrio.
Em monoculturas extensas e sem inimigos naturais suficientes, vira praga agrícola de alto impacto. A FAO o classifica como uma das pragas migratórias mais importantes das Américas.
Seus predadores naturais são anu-branco, gaviões, lagartos, aranhas, louva-a-deus e fungos como Metarhizium acridum. A redução desses predadores por desmatamento e uso excessivo de agrotóxicos favorece surtos.
Não é polinizador relevante e não beneficia diretamente a agricultura. Seu dano é quase sempre maior que qualquer benefício indireto como alimento para aves.
Como conviver e fazer controle sem veneno desnecessário
Em casa ou horta pequena, não é preciso pânico. Um ou poucos indivíduos podem ser retirados manualmente e soltos longe. Telas em horta e rotação de culturas ajudam.
Na lavoura, o manejo integrado recomendado pela Embrapa inclui:
- Monitoramento de posturas no solo após chuvas e de ninfas saltãs em reboleiras.
- Controle biológico com fungos entomopatogênicos e preservação de aves predadoras.
- Manejo cultural: aração para expor ovos, plantio escalonado e eliminação de plantas hospedeiras nas bordas.
- Controle químico localizado apenas com orientação técnica e produtos registrados, aplicado nas ninfas antes do voo.
Evite pulverização preventiva sem confirmação de infestação. Aplicar inseticida em bando adulto em voo é pouco eficaz, mata polinizadores e contamina água. Em caso de nuvem migratória, avise a defesa agropecuária estadual.
Curiosidades que pouca gente sabe
O gafanhoto-do-milho pode mudar de comportamento e até de anatomia em poucas gerações quando se agrupa. É o mesmo inseto, mas parece outra espécie na fase gregária.
Durante surtos, o barulho de milhões de asas batendo é audível a centenas de metros e lembra chuva forte. Agricultores antigos no sul do Brasil chamavam de “nuvem de gafanhotos” porque escurecia o sol.
Apesar do tamanho, ele não migra por vontade própria: viaja com o vento. Sem vento favorável, o bando fica parado e consome tudo ao redor até o vento mudar.
Diferente de lagartas, ele não tece casulo e não deixa teia. Se encontrar “espuma” ou “casulo” no milho, não é dele, e sim de outro inseto.
Perguntas frequentes
Gafanhoto-do-milho morde ou pica?
Não pica e não tem ferrão. Só pode dar uma beliscada superficial se for apertado na mão, sem veneno e sem risco grave.
Gafanhoto-do-milho é venenoso para cachorro ou gato?
Não é venenoso. Comer um ou dois não costuma fazer mal, mas comer muitos pode causar vômito. Evite se a área foi pulverizada.
Qual a diferença entre gafanhoto-do-milho e gafanhoto comum?
O gafanhoto-do-milho (Schistocerca cancellata) é maior (3,5 a 6 cm), migrador e forma bandos. Gafanhotos comuns de jardim são menores, solitários e não formam nuvens.
Como acabar com gafanhoto-do-milho na horta?
Retire manualmente, use tela anti-inseto e faça rotação de culturas. Evite inseticida sem necessidade e preserve predadores como aves e louva-a-deus.
Quando o gafanhoto-do-milho aparece mais?
Na primavera e verão, de outubro a março, após as primeiras chuvas, quando os ovos eclodem e as ninfas se agrupam.
Gafanhoto-do-milho voa longe?
Sim. Na fase gregária, bandos voam de 20 a 100 km por dia com ajuda do vento e podem cruzar estados e países.
O que atrai gafanhoto-do-milho?
Grandes áreas contínuas de milho e gramíneas, solo úmido para postura e falta de predadores naturais.
Você sabia?
Muda de personalidade
O mesmo gafanhoto-do-milho pode viver solitário e camuflado ou virar gregário e amarelo com listras pretas quando encosta muito em outros indivíduos.
Ovos que esperam a chuva
Os ovos ficam enterrados em vagens no solo e só eclodem após chuvas fortes, o que sincroniza o nascimento de milhares de ninfas ao mesmo tempo.
Viajante do vento
Bandos adultos não escolhem rota, eles decolam e deixam o vento levar, podendo cruzar fronteiras entre Argentina, Paraguai e Brasil em poucos dias.
Regurgita para se defender
Quando capturado, cospe um líquido marrom e malcheiroso do papo para afastar predadores, mas que não é venenoso para pessoas.










