Resumo
- A lacrainha é a tesourinha (ordem Dermaptera), inseto noturno de 1 a 2,5 cm com pinça no abdômen, diferente da lacraia venenosa.
- Vive em locais úmidos e escuros, tem metamorfose incompleta e a fêmea cuida dos ovos, um comportamento raro entre insetos.
- Não é venenosa nem praga agressiva, ajuda no controle de pulgões e ácaros, mas pode beliscar se manuseada.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Dermaptera |
|---|---|
| Família | Anisolabididae (mais comum no Brasil) e Forficulidae |
| Origem e distribuição | Cosmopolita, presente em todo o Brasil |
| Tamanho | 10 a 25 mm de comprimento |
| Cores | marrom-escuropretomarrom-avermelhadobege-claro |
| Asas e voo | Maioria áptera no Brasil; quando alada, voo curto e raro |
| Alimentação | Onívora: pulgões, ácaros, ovos de insetos e matéria em decomposição |
| Metamorfose | Incompleta (ovo > ninfa > adulto) |
| Expectativa de vida | 4 a 12 meses |
| Habitat | Solo úmido, sob pedras, vasos, folhiço e frestas escuras |
| Comportamento social | Solitária, noturna, com cuidado maternal da fêmea |
| Principais predadores | Aranhas, lagartixas, pássaros, besouros e formigas |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Alto |
| Presença em casas | Alto |
| Benefício para a agricultura | Alto |
| Dano às plantas | Baixo |
| Vida em grupo | Baixo |
Lacrainha e lacraia são a mesma coisa?
Não. Essa é a confusão mais comum e a mais importante de desfazer. Lacraia é uma centopeia (classe Chilopoda), com corpo achatado, muitas pernas, antenas longas e garras venenosas na cabeça. Lacrainha é um inseto (classe Insecta), com seis pernas, três partes no corpo e uma pinça na traseira.
Na prática, se o bicho tem pinça atrás e anda devagar à noite, é lacrainha. Se tem muitas pernas ao longo do corpo e corre rápido, é lacraia. A diferença importa porque a lacraia pode causar dor intensa com veneno, enquanto a lacrainha não tem veneno.
| Característica | Lacrainha (tesourinha) | Lacraia (centopeia) |
|---|---|---|
| Pernas | 6 | 21 a 23 pares |
| Pinça | Atrás, no abdômen | Na frente, ligada à glândula de veneno |
| Risco | Beliscão leve, sem veneno | Picada dolorosa, venenosa |
| Hábito | Noturna, lenta, escondida | Noturna, muito rápida, predadora |
Como identificar a lacrainha corretamente
A lacrainha tem corpo alongado e achatado, de 10 a 25 mm, geralmente marrom-escuro a preto brilhante, com pernas mais claras. A cabeça é pequena, com antenas filiformes de 12 a 15 segmentos e aparelho bucal mastigador.
O detalhe inconfundível são os cercos em forma de pinça na ponta do abdômen. Em Euborellia annulipes, a espécie mais doméstica no Brasil, os cercos são curtos, grossos e levemente curvos. Machos têm cercos mais arqueados; fêmeas, mais retos. Essa espécie é áptera (sem asas), diferente da europeia Forficula auricularia, que tem asas dobradas em leque sob élitros curtos.
As ninfas parecem adultos em miniatura, porém mais claras e sem pinça bem formada. Elas passam por 4 a 6 trocas de pele até a fase adulta. Se você encontrar um bicho claro, de 3 a 5 mm, com pinça pequena correndo sob um vaso, é uma ninfa de lacrainha.
Onde vive e onde é mais comum no Brasil
A lacrainha é cosmopolita e noturna, e no Brasil ocorre em todos os estados, de áreas urbanas a rurais. Prefere locais úmidos, escuros e com matéria orgânica: sob pedras, cascas de árvore, folhiço, vasos, entulho, frestas de muros, ralos e até dentro de toalhas úmidas no banheiro.
É mais abundante em regiões de clima quente e úmido e em casas com jardim, horta ou quintal com folhas acumuladas. Durante o dia fica escondida; à noite sai para caçar. Não faz ninho nem colônia, mas pode se agregar em dezenas sob o mesmo abrigo se houver umidade e alimento.
Em apartamentos, aparece vinda de vasos de plantas, substrato novo ou frestas de janelas. Não infesta alimentos como baratas e não rói estruturas como cupins. Sua presença indica umidade excessiva e abrigo disponível, não falta de higiene.
O que a lacrainha come
É onívora e oportunista. A base da dieta são pequenos artrópodes: pulgões, ácaros, ovos e lagartas pequenas, além de insetos mortos. Por isso é considerada predadora benéfica em hortas e jardins.
Também consome matéria vegetal em decomposição, fungos, pólen, pétalas caídas e brotos muito tenros. Em alta densidade, pode mordiscar mudas, morangos, milho doce e pétalas de flores, mas o dano é pontual e raramente econômico.
- Alimentos preferidos: pulgões, ácaros, ovos de traças e de moscas, colêmbolos.
- Complementos: folhas em decomposição, frutas muito maduras no solo.
- Dano ocasional: furos pequenos em folhas novas e flores quando faltam presas.
Ciclo de vida e reprodução: a mãe que cuida dos ovos
A lacrainha tem metamorfose incompleta (hemimetabolia): ovo, ninfa e adulto, sem fase de pupa. Esse é um dos fatos mais interessantes do grupo: a fêmea exibe cuidado maternal raro entre insetos.
Após acasalamento noturno no solo, a fêmea cava uma pequena câmara úmida e põe 30 a 60 ovos brancos e brilhantes. Ela permanece sobre eles, limpando um a um para evitar fungos, virando e defendendo contra predadores. Se for perturbada, pode carregar os ovos para outro abrigo.
Os ovos eclodem em 7 a 20 dias, conforme temperatura. As ninfas nascem claras e ficam com a mãe por alguns dias, depois se dispersam. Passam por 4 a 6 ínstares em 40 a 70 dias até virar adulto. Em clima quente, pode haver duas gerações por ano; em clima mais frio, uma.
A lacrainha morde ou é venenosa? Riscos para pessoas e pets
Não é venenosa e não pica. A pinça traseira serve para defesa, captura de presas e para dobrar as asas nas espécies aladas. Se manuseada, pode dar um beliscão fraco, que raramente perfura a pele. Não há injeção de veneno.
Em pessoas sensíveis, o beliscão pode causar vermelhidão leve e dor momentânea, semelhante a uma beliscada de formiga. Não há risco de necrose, alergia grave ou transmissão de doença. Em cachorros e gatos, a ingestão acidental não é tóxica, mas pode causar irritação na boca ou vômito leve se o pet comer várias.
O mito de que lacrainha entra no ouvido e perfura o tímpano vem do nome em inglês earwig. Não há registro científico disso. Ela pode eventualmente entrar em ouvido por acaso, como qualquer inseto pequeno, mas não tem comportamento de buscar ouvidos. Em caso de dor, inflamação ou inseto no ouvido, procure atendimento médico.
Papel no ecossistema: praga ou aliada do jardim?
Na nossa avaliação, a lacrainha é muito mais benéfica do que praga para quem tem jardim ou horta doméstica. Um único indivíduo pode consumir dezenas de pulgões e ácaros por noite, ajudando no controle biológico sem agrotóxico.
O problema surge quando há superpopulação em estufas, sementeiras ou canteiros com muita palha úmida. Aí ela pode atacar plântulas e flores. Mesmo assim, o dano costuma ser menor que o de lagartas, lesmas e pulgões que ela mesma controla.
Para o ecossistema, funciona como decompositora e predadora de solo, reciclando matéria orgânica e servindo de alimento para aranhas, lagartixas e pássaros. Eliminar todas as lacrainhas com veneno costuma piorar o equilíbrio e aumentar pragas.
Como lidar com lacrainhas dentro de casa sem veneno
Controle começa por remover abrigo e umidade, não por inseticida. A lacrainha não resiste a local seco e iluminado.
- Reduza umidade: conserte vazamentos, ventile banheiros, não deixe toalhas e panos úmidos no chão.
- Remova abrigos: limpe folhiço encostado na parede, afaste vasos da janela, vede frestas de portas e ralos.
- Armadilha simples: enrole jornal úmido ou coloque um pedaço de mangueira cortada no jardim à noite; pela manhã, sacuda os insetos longe de casa.
- Barreira física: use tela em ralos e vedação em vasos com brita na superfície para dificultar abrigo.
Evite inseticida doméstico de amplo espectro, que mata também predadores benéficos. Se a infestação for grande em horta, prefira manejo integrado: armadilhas, controle de umidade e preservação de inimigos naturais. Em caso de dúvida sobre identificação com lacraia, fotografe e compare a pinça atrás versus garras na frente.
Curiosidades que pouca gente sabe
A lacrainha tem asas dobradas como origami. Nas espécies aladas, as asas membranosas são 10 vezes maiores que o élitro e são dobradas em leque sob ele com ajuda da pinça. É um dos mecanismos de dobradura mais complexos entre insetos.
Outra curiosidade é a higiene dos ovos. A fêmea lambe os ovos constantemente para aplicar secreções antifúngicas. Experimentos mostram que ovos sem cuidado materno mofam em poucos dias.
Por fim, a pinça não serve só para defesa: machos a usam em disputas por fêmeas e território, e ambos os sexos a usam para segurar a presa enquanto comem. A força é pequena para humanos, mas suficiente para imobilizar um pulgão.
Perguntas frequentes
Lacrainha é venenosa?
Não. Ela não tem glândula de veneno e não pica. Pode apenas beliscar com a pinça traseira se for apertada, causando dor leve e passageira.
Qual a diferença entre lacrainha e lacraia?
Lacrainha é inseto de 6 pernas com pinça atrás; lacraia é centopeia de muitas pernas com garras venenosas na frente. São grupos diferentes.
Lacrainha entra no ouvido?
É mito. Ela não procura ouvidos. Pode entrar acidentalmente como qualquer inseto pequeno, mas não há comportamento específico para isso.
Lacrainha faz mal para plantas?
Raramente. Ela predá pulgões e ácaros. Só em grande número pode mordiscar mudas e flores tenras, mas o dano costuma ser pequeno.
Como tirar lacrainha de dentro de casa?
Reduza umidade, vede frestas e ralos, afaste folhiço e vasos da parede e use armadilha de jornal úmido à noite para capturar e soltar fora.
Lacrainha voa?
A espécie mais comum em casas no Brasil (Euborellia annulipes) não tem asas e não voa. Espécies aladas voam pouco e raramente.
Quanto tempo vive uma lacrainha?
De 4 a 12 meses, dependendo da espécie, temperatura e disponibilidade de alimento e umidade.
Você sabia?
Mãe que lava os ovos
A fêmea de lacrainha limpa cada ovo com a boca para evitar fungos. Sem esse cuidado, mais de 80% dos ovos mofam e não eclodem.
Asas de origami
Nas espécies aladas, a asa membranosa é dobrada em até 40 dobras sob élitros curtíssimos, e a pinça ajuda a puxar e guardar a asa.
Pinça com identidade
Dá para sexar a olho nu: machos têm cercos mais curvos e grossos, fêmeas têm cercos retos e finos. A forma varia entre espécies.
Vive sem asas no Brasil
A lacrainha mais comum em casas brasileiras, Euborellia annulipes, é áptera e nunca voa, por isso é vista sempre correndo no chão.










