Resumo
- O trinta-réis é o nome popular das andorinhas-do-mar (Sterninae), aves aquáticas de bico fino, cauda bifurcada e voo leve, parentes das gaivotas.
- Vive em colônias no litoral, ilhas, restingas e bancos de areia de rios e lagoas, alimentando-se principalmente de peixes pequenos capturados em mergulhos verticais.
- No Brasil as espécies mais vistas são o trinta-réis-boreal, o trinta-réis-de-bando e o trinta-réis-grande, a maioria migratória e protegida por lei, sem criação doméstica permitida.
Características
Ficha da espécie
| Família | Laridae (subfamília Sterninae) |
|---|---|
| Origem e distribuição | Cosmopolita; no Brasil ocorre do Oiapoque ao Chuí, no litoral e interior |
| Habitat | Praias, ilhas costeiras, restingas, manguezais, bancos de areia em rios e lagoas |
| Tamanho (comprimento) | 29 a 50 cm conforme a espécie |
| Envergadura | 70 a 95 cm |
| Peso | 90 a 300 g |
| Cores | brancocinza-claropretoamarelovermelholaranja |
| Expectativa de vida | 12 a 25 anos na natureza |
| Alimentação | Piscívora: peixes pequenos, crustáceos e insetos aquáticos |
| Canto | Gritos agudos, ásperos e repetitivos do tipo "kri-kri" |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em depressão na areia; 1 a 3 ovos camuflados, incubação de 21 a 26 dias |
| Comportamento social | Altamente colonial e gregário, forma bandos de centenas a milhares |
| Variedades ou subespécies | Cerca de 40 espécies no mundo; 10 a 12 registradas no Brasil |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Alto |
| Inteligência | Médio |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Muito alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Que ave é o trinta-réis e como reconhecê-la na hora
O trinta-réis é a andorinha-do-mar, nome popular brasileiro para as aves da subfamília Sterninae. Apesar do parentesco com gaivotas, o trinta-réis é mais esguio, leve e elegante, com bico fino em forma de punhal e cauda profundamente bifurcada em forma de tesoura.
Em voo, a diferença é imediata. Enquanto a gaivota plana e bate asas com força, o trinta-réis tem voo flutuante, ágil e com batidas rápidas, pairando antes de mergulhar. Na água, quase não pousa: prefere ficar no ar ou em bancos de areia.
O nome “trinta-réis” teria origem no seu grito estridente, que lembra a expressão antiga. Em inglês é tern, em espanhol charrán. No Brasil também é chamado de gaivina.
Tamanho, cores e marcas que não deixam confundir
A maioria dos trinta-réis brasileiros mede 29 a 40 cm, com peso entre 90 e 180 g. O maior de todos, o trinta-réis-grande (Phaetusa simplex), chega a 50 cm e 300 g e destoa pelo porte robusto.
A plumagem base é branco e cinza-claro nas costas e asas, com boné preto na cabeça durante a época reprodutiva. Fora dela, a testa fica branca e o boné parece falhado. O bico e as patas são o melhor guia de campo: variam de amarelo intenso no trinta-réis-grande a vermelho com ponta preta no boreal e amarelo com ponta preta no de-bando.
Filhotes e juvenis são mais amarronzados e escamados, com bico escuro. Adultos em voo mostram pontas das asas mais escuras e cauda bifurcada bem visível. Não há dimorfismo sexual evidente: macho e fêmea são iguais.
Onde vive o trinta-réis no Brasil: do mar à Amazônia
O trinta-réis é essencialmente aquático, mas não é só marinho. No Brasil ocupa três ambientes principais: litoral oceânico, ilhas costeiras e águas interiores como rios, lagos e açudes.
No litoral, prefere praias arenosas, restingas, ilhas desertas e barras de rio. No interior, o trinta-réis-grande e o trinta-réis-anão são comuns em bancos de areia do Amazonas, Araguaia, São Francisco e Pantanal, onde nidificam na seca.
A distribuição é ampla e muda com a estação. Espécies como o trinta-réis-boreal (Sterna hirundo) e o trinta-réis-ártico só aparecem no verão austral, quando migram do Hemisfério Norte. Já o trinta-réis-de-bando (Thalasseus acuflavidus) e o trinta-réis-róseo (Sterna dougallii) são residentes e nidificam em ilhas do Sudeste e Nordeste.
O que o trinta-réis come e como pesca
A dieta é quase exclusivamente piscívora. Consome peixes pequenos de 3 a 10 cm como manjubas, sardinhas e lambaris, além de crustáceos, insetos aquáticos e pequenos moluscos quando há escassez.
A técnica de caça é o espetáculo. O trinta-réis paira a 5 a 12 metros de altura, com bico apontado para baixo, e ao avistar o peixe faz um mergulho vertical em picada, entrando poucos centímetros na água. Diferente de atobás, não mergulha fundo: pesca na superfície.
Em áreas interiores, também captura insetos em voo, como libélulas, e segue barcos de pesca para aproveitar restos. Filhotes são alimentados com peixes inteiros trazidos no bico pelos pais, várias vezes ao dia.
Comportamento, voo e canto: por que vive em bandos barulhentos
Trinta-réis é extremamente sociável. Fora da reprodução já forma bandos, mas na época de cria reúne colônias de centenas a mais de 10 mil casais na mesma praia. Essa estratégia dilui a predação, mas torna a espécie vulnerável a perturbações.
O canto é alto, áspero e repetitivo, do tipo kri-kri-kri ou kirra. Serve para manter o bando coeso, alertar predadores e defender território. Em colônia, o barulho é constante e pode ser ouvido a centenas de metros.
São aves diurnas, ativas e territoriais no ninho. Defendem o território com voos rasantes e mergulhos de intimidação contra humanos, cachorros e gaviões. Fora da colônia, são mais tolerantes e frequentemente vistas descansando lado a lado com gaivotas e talha-mares.
Reprodução, ninhos no chão e filhotes
A reprodução ocorre na estação seca no interior e na primavera-verão no litoral, entre setembro e fevereiro na maior parte do Brasil. O casal é monogâmico na temporada e faz elaborada corte com oferta de peixe do macho para a fêmea.
O ninho é minimalista: uma simples depressão na areia ou cascalho, sem forro ou com poucas conchas e gravetos. Essa simplicidade exige camuflagem. Os 1 a 3 ovos são bege, creme ou oliváceos com manchas marrons e pretas, quase invisíveis entre pedras.
A incubação dura 21 a 26 dias, revezada pelo casal. Os filhotes nascem semi-precociais, cobertos de penugem camuflada, e deixam o ninho com poucos dias, escondendo-se perto. Voam com 25 a 30 dias, mas continuam sendo alimentados pelos pais por mais semanas. Uma única ninhada por ano é o padrão.
Por que os ninhos são tão vulneráveis
Por nidificar no chão, o trinta-réis perde ovos para pisoteio, maré alta, cachorros, ratos e coleta humana. Uma única passagem de veículo na praia pode destruir dezenas de ninhos. Por isso, muitas ilhas de nidificação são hoje unidades de conservação com acesso restrito na época reprodutiva.
Migração e ciclo anual: o viajante que cruza hemisférios
Boa parte dos trinta-réis vistos no Brasil é migratória de longa distância. O caso mais extremo é o trinta-réis-boreal e o trinta-réis-ártico (Sterna paradisaea), que nidificam no Ártico e passam o inverno austral no litoral brasileiro, percorrendo mais de 10 mil km em cada perna. O ártico detém o recorde mundial de migração entre todas as aves.
No ciclo anual, eles chegam ao Brasil entre abril e junho, permanecem em áreas de invernada para trocar penas e acumular gordura, e retornam ao norte entre setembro e outubro. Durante a muda, ficam mais acastanhados e com bico escuro.
Espécies residentes, como o trinta-réis-grande, fazem migrações curtas regionais acompanhando o nível dos rios. Quando as praias fluviais somem na cheia, dispersam para lagos e açudes.
Espécies de trinta-réis mais comuns no Brasil
Não existe um único trinta-réis. O CBRO reconhece mais de 10 espécies no país. As diferenças estão no tamanho, cor do bico e distribuição.
| Espécie | Tamanho | Bico / Patas | Onde ver |
|---|---|---|---|
| Trinta-réis-boreal Sterna hirundo | 34-37 cm | Vermelho com ponta preta | Litoral, migratório do norte |
| Trinta-réis-de-bando Thalasseus acuflavidus | 38-42 cm | Amarelo-alaranjado | Costa atlântica, colônias em ilhas |
| Trinta-réis-grande Phaetusa simplex | 38-50 cm | Amarelo intenso, grande | Rios da Amazônia, Pantanal, São Francisco |
| Trinta-réis-anão Sternula superciliaris | 22-25 cm | Amarelo com ponta preta | Rios e lagoas interiores |
| Trinta-réis-róseo Sterna dougallii | 33-38 cm | Vermelho-escuro a preto | Ilhas oceânicas do Nordeste |
Para identificação rápida: bico todo amarelo e grande porte em rio = trinta-réis-grande; pequeno, amarelo e em bando no mar = de-bando; vermelho com ponta preta no verão = boreal.
Conservação, ameaças e pode criar em casa?
A maioria dos trinta-réis é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, mas as populações locais estão em declínio. As principais ameaças são ocupação de praias, turismo desordenado, veículos na areia, poluição plástica, pesca com rede e subida do nível do mar que alaga colônias.
No Brasil, todos os trinta-réis são aves silvestres protegidas por lei. A captura, criação ou venda sem autorização do IBAMA é crime ambiental (Lei 9.605/98). Não existe criação legal como pet: são aves marinhas que precisam de espaço, colônia e peixe vivo, e não se adaptam a gaiolas.
A melhor forma de ajudar é observar à distância. Em praias com sinalização de nidificação, mantenha pelo menos 50 metros dos ninhos, não leve cachorro solto e nunca toque em ovos ou filhotes. Se encontrar um filhote aparentemente abandonado, os pais costumam estar por perto vigiando.
Para observação, use binóculos e procure no final da tarde, quando os bandos voltam para dormir em bancos de areia. Ilhas como as Cagarras (RJ), Moleques do Sul (SC) e Abrolhos (BA) são pontos clássicos, mas com acesso controlado.
Perguntas frequentes
Trinta-réis é gaivota?
Não. É parente próximo, da mesma família Laridae, mas pertence à subfamília Sterninae. É menor, mais leve, com bico fino e cauda bifurcada, e pesca mergulhando em voo.
Onde encontrar trinta-réis no Brasil?
No litoral de norte a sul, em praias, ilhas e estuários, e no interior em bancos de areia de rios como Amazonas, Araguaia, São Francisco e no Pantanal.
O que o trinta-réis come?
Principalmente peixes pequenos de superfície, além de crustáceos e insetos aquáticos capturados em mergulhos verticais de poucos centímetros.
Pode ter trinta-réis em casa?
Não. É ave silvestre protegida por lei federal. Criação, captura ou venda sem autorização do IBAMA é crime ambiental e a espécie não se adapta a gaiolas.
Quando o trinta-réis se reproduz?
Entre setembro e fevereiro no litoral e durante a seca (junho a outubro) nos rios interiores, fazendo ninho em depressão na areia com 1 a 3 ovos camuflados.
Trinta-réis migra?
Sim, várias espécies. O trinta-réis-boreal e o ártico cruzam o Atlântico e percorrem mais de 10 mil km entre o Ártico e o Brasil a cada estação.
Como diferenciar as espécies?
Observe o bico e o tamanho: bico todo amarelo e grande em rio é o trinta-réis-grande; bico amarelo em bando no mar é o de-bando; bico vermelho com ponta preta é o boreal.
Fatos surpreendentes sobre o trinta-réis
Mergulho sem se molhar muito
Ao pescar, o trinta-réis entra apenas 10 a 30 cm na água e sai quase seco, graças à plumagem muito impermeável. Ele não mergulha como um atobá.
Ovo que parece pedra
Os ovos são tão camuflados que pesquisadores treinados têm dificuldade de achá-los. A fêmea cobre o ninho com conchinhas para confundir predadores.
Recorde de longevidade
Um trinta-réis-boreal anilhado na Europa viveu 33 anos e cruzou o Atlântico mais de 60 vezes, somando distância equivalente a três voltas à Terra.
Pesca em equipe com botos
No litoral e em rios, bandos de trinta-réis seguem botos e cardumes que empurram peixes para a superfície, pescando juntos no mesmo local.









