Resumo
- O cocoruto é um ibis de 46 a 54 cm, preto-esverdeado com face nua vermelho-rosada e bico curvo amarelado, comum em banhados e arrozais da América do Sul.
- Vive em bandos, alimenta-se de invertebrados aquáticos fuçando a lama e nidifica em colônias sobre a vegetação alagada, com 2 a 4 ovos por postura.
- É espécie silvestre de menor preocupação (LC) e não deve ser criada como pet: no Brasil só com autorização do IBAMA e para fins conservacionistas.
Características
Ficha da espécie
| Família | Threskiornithidae (ibis e colhereiros) |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul: do norte da Colômbia e Venezuela ao centro da Argentina e Uruguai; em todo o Brasil |
| Habitat | Banhados, brejos, várzeas, campos alagados, arrozais e margens de rios e lagoas |
| Tamanho (comprimento) | 46 a 54 cm |
| Envergadura | 80 a 95 cm |
| Peso | 490 a 600 g |
| Cores | pretoverde-bronzeadovermelho-rosado (face)amarelado (bico)rosado (pernas) |
| Expectativa de vida | 10 a 15 anos na natureza; até 20 em cativeiro autorizado |
| Alimentação | Invertebrados aquáticos, pequenos peixes, anfíbios e sementes |
| Canto | Grasnados roucos e guturais, pouco melódico, usado em voo e na colônia |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em plataforma de gravetos sobre arbustos/alagados; 2 a 4 ovos azul-esverdeados |
| Comportamento social | Gregário, vive em bandos de 5 a 50 indivíduos; forma colônias reprodutivas |
| Subespécies | 2: P. i. infuscatus e P. i. berlepschi |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Baixo |
| Inteligência | Médio |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer o cocoruto: tamanho, cores e a cara pelada
O cocoruto não se confunde com outras aves aquáticas escuras quando visto de perto. O corpo é preto com brilho verde-bronzeado nas asas, visível sob sol forte, e o detalhe que entrega a espécie é a face nua vermelho-rosada que vai do bico aos olhos, sem penas.
O bico é longo, curvo e amarelado, mais claro na ponta, e as pernas são rosadas e relativamente longas. Mede 46 a 54 cm e pesa entre 490 e 600 g, menor que o tuiuiú e maior que a maioria dos maçaricos.
Em voo, mantém pescoço e pernas esticados, como todo ibis, e bate as asas com ritmo firme. Jovens têm face menos vermelha e plumagem mais opaca, o que gera confusão com o maçarico-preto juvenil.
Onde vive o cocoruto no Brasil e na América do Sul
É uma ave de áreas alagadas abertas. Prefere banhados, brejos, várzeas, campos inundáveis, açudes e arrozais, sempre onde possa fuçar a lama rasa. Evita floresta densa e rios de correnteza forte.
No Brasil ocorre em praticamente todos os estados, mas é mais abundante no Pantanal, Sul, Sudeste e em várzeas da Amazônia. No Nordeste aparece em brejos e açudes do interior, com populações mais localizadas.
Fora do Brasil, vai da Colômbia e Venezuela ao Equador, Guianas, Bolívia, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. Não é migrador de longa distância, mas faz deslocamentos regionais conforme o nível da água e a oferta de alimento.
O que o cocoruto come e como se alimenta
A dieta é baseada em invertebrados aquáticos. Ele enfia o bico curvo na lama e tateia, capturando larvas de insetos, caramujos, minhocas, crustáceos e pequenos moluscos.
Complementa com pequenos peixes, girinos, anfíbios e sementes quando há escassez de presas. Em arrozais, aproveita grãos caídos e invertebrados expostos pela irrigação, o que o aproxima de áreas agrícolas.
Alimenta-se quase sempre em grupo, caminhando devagar em fila ou em leque. Essa busca tátil explica por que prefere água rasa com fundo lodoso e por que é mais ativo no início da manhã e no fim da tarde.
Comportamento e vida em bando
O cocoruto é altamente gregário. Fora da reprodução, forma bandos de 5 a 50 aves que dormem e se alimentam juntos. É comum vê-lo pousado em árvores baixas ou postes perto de banhados.
É pouco arisco em áreas protegidas, mas mantém distância de pessoas em locais com caça. Quando alarmado, o bando levanta voo junto emitindo grasnados e costuma fazer voos circulares antes de pousar novamente.
Diferente de garças, não fica imóvel à espera da presa. Está sempre caminhando e sondando o substrato, com movimentos constantes de cabeça. Essa atividade explica seu nível de atividade alto e a necessidade de grandes áreas alagadas.
Canto e comunicação: o que esperar
Não espere canto melódico. O cocoruto emite grasnados roucos, guturais e nasais, descritos como “crué-crué” ou “gruh-gruh”, principalmente em voo e dentro da colônia.
A vocalização serve para manter coesão do bando e alertar sobre predadores. Em colônias reprodutivas o barulho aumenta, com chamados constantes entre parceiros e filhotes.
Tem baixa intensidade sonora individual comparado a papagaios ou bem-te-vis, mas o coro de dezenas de aves pode ser ouvido a centenas de metros no banhado.
Reprodução, ninho e filhotes
Reproduz-se em colônias, muitas vezes mistas com garças e outros ibis. O ninho é uma plataforma rústica de gravetos e capim construída sobre arbustos, taboas ou árvores baixas dentro ou na borda do alagado.
A postura tem 2 a 4 ovos azul-esverdeados claros, incubados por ambos os pais por cerca de 21 a 23 dias. Os filhotes nascem semialtriciais, cobertos de penugem escura e com bico ainda curto.
Os pais alimentam os jovens por regurgitação e eles deixam o ninho com cerca de 3 a 4 semanas, mas continuam próximos à colônia por mais tempo. No Brasil, o pico reprodutivo vai de agosto a dezembro, variando com as cheias regionais.
As duas subespécies de cocoruto
| Subespécie | Distribuição | Traço distintivo |
|---|---|---|
| P. i. infuscatus | Leste e sul da América do Sul (Brasil central e oriental, Paraguai, Uruguai, Argentina) | Face vermelha mais extensa, bico mais amarelado |
| P. i. berlepschi | Norte e oeste (Colômbia, Venezuela, Guianas, norte do Brasil) | Tamanho ligeiramente menor, tons mais esverdeados |
A diferença é sutil em campo e muitos guias tratam as duas como variação clinal. Para identificação prática, localidade e habitat são mais úteis que plumagem.
É possível ter cocoruto em casa? Legalidade e cuidados
Não. O cocoruto é ave silvestre nativa protegida por lei. No Brasil, capturar, manter ou vender aves da natureza sem autorização é crime ambiental (Lei 9.605/98).
Só criadouros científicos ou conservacionistas autorizados pelo IBAMA e órgãos estaduais podem manter a espécie, e não há criação doméstica legal como ocorre com calopsita ou canário. Aves apreendidas não se adaptam bem à gaiola e sofrem com estresse.
Quem gosta da espécie deve optar por observação em vida livre, fotografia e turismo no Pantanal. Se encontrar filhote caído, o correto é acionar o órgão ambiental local, não levar para casa.
Conservação e importância ecológica
A espécie é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população grande e tendência considerada estável. A adaptação a arrozais e açudes ajudou a manter números mesmo com perda de banhados naturais.
As principais ameaças são drenagem de áreas úmidas, uso intensivo de agrotóxicos em arrozais, queimadas no Pantanal e perseguição por dano a lavouras. Contaminação por pesticidas afeta diretamente os invertebrados que consome.
Ecologicamente, atua como controlador de invertebrados e indicador de saúde de banhados. Onde o cocoruto desaparece, geralmente o alagado já está degradado. Proteger várzeas e manter manejo de água sem drenagem total são medidas-chave.
Perguntas frequentes
Cocoruto e tapicuru são a mesma ave?
Sim. Cocoruto, tapicuru e maçarico-de-cara-pelada são nomes populares para Phimosus infuscatus, o ibis de face nua.
Qual a diferença entre cocoruto e curicaca?
O cocoruto é menor, todo preto-esverdeado com face nua vermelha. A curicaca (Theristicus caudatus) é maior, tem pescoço e peito claros e topete, além de canto muito mais forte.
O cocoruto canta bonito?
Não. O canto é rouco e gutural, usado para contato do bando e na colônia, sem melodias.
Onde é mais fácil ver cocoruto no Brasil?
Em banhados do Pantanal, no interior do Rio Grande do Sul, em várzeas do Sudeste e em arrozais irrigados do Sul e Centro-Oeste.
Posso criar cocoruto em casa?
Não. É ave silvestre protegida por lei. Só criadouros autorizados pelo IBAMA podem mantê-la e a venda de aves capturadas na natureza é crime.
O cocoruto está ameaçado de extinção?
Não. É classificado como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população estável, mas depende da conservação de áreas úmidas.
O que o cocoruto come?
Principalmente invertebrados aquáticos como larvas, caramujos e minhocas, além de pequenos peixes e sementes, capturados fuçando a lama com o bico curvo.
Você sabia?
A cara pelada muda de cor
A pele nua da face fica mais vermelha e inchada na época reprodutiva, sinal de condição hormonal. Fora da estação, empalidece para rosado-claro.
Bico com tato, não visão
Ele não precisa ver a presa: o bico tem terminações sensíveis que detectam vibração de caramujos e larvas enterrados na lama.
Colônias barulhentas e mistas
Nidifica lado a lado com garças, colhereiros e jaçanãs, formando colônias de dezenas a centenas de ninhos que funcionam como proteção coletiva contra predadores.
Confundido com curicaca
Muita gente chama qualquer ibis escuro de curicaca, mas o cocoruto é menor, não tem pescoço branco e tem face totalmente nua, enquanto a curicaca (Theristicus caudatus) tem pescoço claro e topete.









