Resumo
- A águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) é um bútio europeu de asas largas e arredondadas, famoso pelo voo planado em círculos e pelo miado agudo.
- Vive em bosques, campos agrícolas e áreas montanhosas da Europa e Ásia, caça pequenos mamíferos e é parcialmente migratória no norte da distribuição.
- No Brasil não existe em vida livre e não pode ser criada como pet, sendo protegida por leis europeias e classificada como Pouco Preocupante pela IUCN.
Características
Ficha da espécie
| Família | Accipitridae |
|---|---|
| Origem e distribuição | Paleártico: Europa, norte da África e Ásia temperada |
| Habitat | Bordas de florestas, campos agrícolas, pastagens e montanhas até 2.000 m |
| Tamanho (comprimento) | 40 a 58 cm |
| Envergadura | 109 a 136 cm |
| Peso | 500 a 1.400 g (fêmeas maiores que machos) |
| Cores | marrombegebrancoruivopreto |
| Expectativa de vida | 12 a 25 anos na natureza |
| Alimentação | Carnívora generalista: roedores, aves, répteis e minhocas |
| Canto | Miado descendente e agudo, repetido em voo |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho de gravetos em árvores; 2 a 3 ovos brancos com manchas marrons |
| Comportamento social | Solitária ou em par territorial; forma grupos apenas na migração |
| Variedades ou subespécies | 6 subespécies reconhecidas, ex: B. b. buteo e B. b. vulpinus |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Baixo |
|---|---|
| Intensidade do canto | Médio |
| Inteligência | Alto |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer a águia-de-asa-redonda sem confundir
A águia-de-asa-redonda não é águia de verdade. O nome popular engana, mas ela pertence ao grupo dos bútios, rapinas de porte médio do gênero Buteo, mais próximas do gavião-asa-de-telha brasileiro do que das águias do gênero Aquila.
O traço que lhe dá o nome está na silhueta. Em voo, mostra asas largas, bem arredondadas nas pontas, e cauda curta e larga com 8 a 10 barras finas escuras. Pousada, parece atarracada, com cabeça grande, bico curto e curvado e pernas amarelas.
A plumagem é a maior armadilha para iniciantes. A espécie tem três morfos principais: claro, intermediário e escuro, variando do bege quase branco ao marrom-chocolate uniforme. O padrão mais comum tem peito claro com estrias escuras, barriga barrada e uma mancha escura no pulso da asa, visível por baixo quando plana.
- Morfos claros: peito e ventre quase brancos com poucas manchas.
- Morfos ruivos: tons avermelhados intensos, comuns na subespécie vulpinus.
- Morfos escuros: marrom uniforme, sem contraste, confundido com águia-d’asa-redonda-escura.
Para não confundir com a águia-calçada (Hieraaetus pennatus), observe a cauda: a de-asa-redonda tem cauda barrada e mais curta, sem o contraste claro da calçada. Já do milhafre, difere pelo voo menos acrobático e cauda não bifurcada.
Onde vive e por que você não a encontra no Brasil
A distribuição da águia-de-asa-redonda é totalmente paleártica. Ela ocupa quase toda a Europa, do Reino Unido à Rússia, além do norte da África e Ásia temperada até o Japão nas subespécies orientais. Não ocorre naturalmente nas Américas.
Seu habitat preferido é o mosaico: borda de bosque com campo aberto. Precisa de árvores altas para nidificar e de áreas abertas para caçar. Por isso é abundante em paisagens agrícolas, pastagens, charnecas e colinas, de 0 a 2.000 metros de altitude.
No Brasil, qualquer avistamento alegado é erro de identificação com gaviões do gênero Rupornis ou Parabuteo. A espécie só pode ser vista aqui em zoológicos ou centros de falcoaria autorizados, nunca em vida livre. Quem busca observação na natureza precisa viajar para a Europa, onde é a rapina mais vista em estradas.
O que a águia-de-asa-redonda come e como caça
É uma generalista oportunista, e isso explica seu sucesso. A base da dieta são pequenos mamíferos, sobretudo ratazanas-do-campo (Microtus), que podem representar mais de 60% das presas em anos de abundância.
Quando os roedores escasseiam, muda o cardápio sem dificuldade:
- Mamíferos: camundongos, coelhos jovens e musaranhos.
- Aves: filhotes e adultos pequenos, capturados no solo.
- Répteis e anfíbios: lagartos, cobras pequenas e rãs.
- Invertebrados: minhocas e grandes insetos, especialmente no inverno.
A técnica mais comum é a espera. Fica horas pousada em poste, estaca ou galho baixo, observando o chão, e despenca em voo curto e direto. Também caça em voo baixo e, diferente de muitos bútios, consegue pairar como o peneireiro por alguns segundos antes do bote.
Um dado pouco conhecido: em campos úmidos do Reino Unido, minhocas podem compor até 40% da dieta no inverno, quando ela caminha pelo pasto como um tordo gigante.
Voo, comportamento e o famoso miado
O voo é a melhor forma de identificá-la à distância. Sobe em espiral com asas em V raso, planando em círculos por minutos sem bater as asas, aproveitando térmicas. Quando plana, as primárias formam dedos bem separados, mas menos pontiagudos que nos milhafres.
É territorial e majoritariamente solitária. Cada casal defende 1 a 3 km² de território durante a reprodução e ataca intrusos com voos rasantes. Fora da época reprodutiva, tolera outros indivíduos em áreas de alimentação, mas não forma colônias.
O canto é inconfundível e deu origem ao nome em inglês buzzard. É um miado agudo, descendente e melancólico, tipo “pii-uuu”, emitido principalmente em voo de exibição na primavera. No outono e inverno fica quase silenciosa. Não tem capacidade de imitar sons.
Temperamento e inteligência
Na nossa avaliação, é uma das rapinas mais adaptáveis da Europa justamente por ser cautelosa e não especialista. Aprende rápido a associar tratores a presas expostas e estradas a carcaças, mas mantém distância de humanos. Em falcoaria, é considerada teimosa e menos dócil que falcões, exigindo manejo experiente.
Reprodução, ninho e criação dos filhotes
A época reprodutiva vai de março a julho, com pico em abril. O casal é monogâmico e costuma manter o mesmo território por anos, reformando o ninho a cada estação.
O ninho é uma plataforma grande de gravetos forrada com folhas verdes, construída na forquilha de árvore alta, entre 10 e 25 metros do solo. Tem 60 a 80 cm de diâmetro e é reutilizado, ficando maior a cada ano.
A postura é de 2 a 3 ovos brancos com manchas marrons e lilás, raramente 4. A incubação dura 33 a 35 dias, feita principalmente pela fêmea, enquanto o macho traz alimento. Os filhotes nascem cobertos de penugem branca e ficam no ninho por 40 a 50 dias.
Um comportamento curioso é o voo de exibição nupcial: o macho sobe alto e despenca em mergulho ondulado, subindo e descendo, enquanto emite o miado. Se a ninhada falha por predação, raramente faz segunda postura no mesmo ano.
Migração e ciclo anual na Europa
A espécie é migradora parcial. Populações do norte e leste (Escandinávia, Rússia e subespécie vulpinus) são migratórias de longa distância e invernam na África subsaariana e sul da Ásia. Já as populações da Europa ocidental e central, incluindo B. b. buteo, são sedentárias ou fazem apenas deslocamentos curtos.
O ciclo anual é bem marcado:
- Fevereiro a março: retorno dos migrantes e início da defesa de território.
- Abril a junho: incubação e criação dos filhotes.
- Agosto a outubro: dispersão dos jovens e migração de outono, com grandes concentrações no Estreito de Gibraltar e no Bósforo.
- Novembro a janeiro: inverno, com aves sedentárias agrupadas em poleiros comunitários em noites frias.
Na migração, pode formar bandos de centenas de indivíduos em térmicas, um espetáculo famoso no outono em Falsterbo, na Suécia, onde mais de 10 mil bútios são contados em um único dia.
É possível ter águia-de-asa-redonda em casa? Legalidade
Não. A águia-de-asa-redonda é ave silvestre estritamente protegida em toda a União Europeia pela Diretiva Aves e no Reino Unido pelo Wildlife and Countryside Act. Sua captura, manutenção ou comércio sem licença é crime.
No Brasil, a situação é ainda mais restritiva. Por ser espécie exótica não domesticada, não consta na lista de aves autorizadas para criação amadora do IBAMA. Só pode ser mantida por zoológicos, centros de reabilitação e falcoeiros licenciados com plantel registrado e autorização do órgão ambiental estadual.
Mesmo onde a falcoaria é permitida, não é ave para iniciantes. Exige recinto grande, alimentação diária com presas inteiras, treinamento constante e acompanhamento veterinário especializado. A venda de filhotes capturados na natureza é crime ambiental tanto na Europa quanto no Brasil.
Estado de conservação e principais ameaças
A IUCN classifica a águia-de-asa-redonda como Pouco Preocupante (LC), com população europeia estimada entre 1,1 e 2,6 milhões de casais e tendência estável ou em aumento em muitos países após a proibição de pesticidas organoclorados nas décadas de 1970 e 1980.
No Reino Unido, por exemplo, a população se recuperou de menos de 10 mil casais em 1970 para mais de 80 mil casais hoje, recolonizando áreas onde havia sido extinta por perseguição.
As ameaças atuais são outras:
- Envenenamento secundário por rodenticidas anticoagulantes usados na agricultura.
- Colisão com aerogeradores e atropelamentos em estradas, onde caça poleiros.
- Perseguição ilegal por parte de criadores de faisões e pombos-correio, ainda registrada no Reino Unido.
- Perda de habitat por intensificação agrícola e remoção de sebes e árvores isoladas.
Subespécies e como diferenciá-las
A variação geográfica gerou seis subespécies reconhecidas. As diferenças estão no tamanho, tom da plumagem e comportamento migratório. As duas mais conhecidas ilustram bem o contraste.
| Subespécie | Distribuição | Traço distintivo |
|---|---|---|
| B. b. buteo | Europa ocidental e central | Maior, sedentária, plumagem mais escura e barrada |
| B. b. vulpinus (bútio-dos-campos) | Norte e leste da Europa até Sibéria | Menor, muito ruiva, migradora de longa distância |
| B. b. rothschildi | Açores | Insular, menor e mais escura |
Para observadores, a dica prática é: no oeste da Europa você vê buteo o ano todo; no leste, na primavera e verão, o fluxo ruivo de vulpinus em migração é inconfundível.
Perguntas frequentes
Águia-de-asa-redonda existe no Brasil?
Não. Buteo buteo ocorre apenas na Europa, norte da África e Ásia temperada. No Brasil, confunde-se com gaviões nativos como o gavião-carijó.
Qual o tamanho da águia-de-asa-redonda?
Mede 40 a 58 cm de comprimento e 109 a 136 cm de envergadura, com peso entre 0,5 e 1,4 kg, sendo a fêmea maior que o macho.
O que ela come?
Principalmente ratazanas-do-campo e outros roedores, mas também aves, lagartos, rãs, minhocas e insetos, além de carcaças quando há oportunidade.
Como é o canto da águia-de-asa-redonda?
Um miado agudo e descendente, tipo “pi-uuu”, emitido em voo planado na época reprodutiva. É um dos sons mais característicos do campo europeu.
Ela é migratória?
Parcialmente. Populações do norte e leste migram para a África no inverno, enquanto as da Europa ocidental são sedentárias e ficam o ano todo no território.
Pode criar águia-de-asa-redonda em casa?
Não como pet. É ave silvestre protegida por lei na Europa e exótica não autorizada para criação amadora no Brasil, permitida apenas para zoológicos e falcoeiros licenciados.
Qual a diferença para a águia de verdade?
Águias verdadeiras (Aquila) são maiores, com tarsos emplumados e cauda mais longa. A de-asa-redonda é um bútio, mais compacto, de asas arredondadas e cauda curta barrada.
Fatos surpreendentes sobre a águia-de-asa-redonda
Mimetismo involuntário
O melro-d'água e até o gaio conseguem imitar perfeitamente o miado da águia-de-asa-redonda para assustar outras aves e roubar alimento, um truque acústico raro entre pássaros europeus.
Visão oito vezes melhor
Enxerga um rato a mais de 1 km de altura e detecta ultravioleta refletido pela urina de roedores, usando o rastro como mapa para encontrar colônias de ratazanas.
Recorde de longevidade
O indivíduo selvagem mais velho anilhado viveu 25 anos e 4 meses no Reino Unido, mas em cativeiro com manejo adequado pode passar dos 30 anos.
Ninho que vira ecossistema
Ninhos antigos abandonados são ocupados por corujas-do-mato, esquilos e até martas, e o acúmulo de folhas verdes que o casal traz tem função antisséptica contra parasitas.









