Resumo
- Teredo é um molusco bivalve xilófago conhecido como turu ou verme-de-navio, que perfura madeira submersa com valvas brocantes.
- Vive em águas costeiras, estuários e manguezais do mundo todo, dentro de galerias calcárias que cava em troncos, píeres e cascos.
- Não é perigoso para pessoas, não tem veneno nem ataca, mas causa grande impacto econômico ao destruir estruturas de madeira no mar.
Características
Ficha da espécie
| Grupo | Molusco (bivalve) |
|---|---|
| Ordem | Myida |
| Família | Teredinidae |
| Origem e distribuição | Cosmopolita; mares temperados e tropicais, muito comum no Atlântico |
| Tamanho | 10 a 30 cm (Teredo navalis até 20 cm; outros Teredo até 30 cm) |
| Peso | 5 a 30 g |
| Cores | brancocremeacinzentadorosado |
| Profundidade | 0 a 30 m (entremarés e infralitoral) |
| Habitat | Madeira submersa, manguezais, estuários, píeres e cascos |
| Alimentação | Xilófaga (madeira) e filtradora (plâncton) |
| Reprodução | Sexuada, hermafrodita protândrico, larva véliger planctônica |
| Expectativa de vida | 1 a 3 anos |
| Estado de conservação | Não Avaliado (NE) pela IUCN |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Sociabilidade | Baixo |
| Inteligência | Muito baixo |
| Velocidade | Muito baixo |
| Capacidade de migração | Baixo |
| Importância para o ecossistema marinho | Alto |
O que é o Teredo e por que não é um verme
O Teredo é um gênero de moluscos bivalves da família Teredinidae, e não um verme. A confusão vem do corpo longo, cilíndrico e mole, que pode passar de 20 cm, muito diferente de uma ostra ou marisco típico.
A espécie mais conhecida é Teredo navalis, descrita por Linnaeus em 1758. Ela ficou famosa ao devastar os diques de madeira da Holanda em 1731-1732, episódio que obrigou os holandeses a trocar madeira por pedra nas defesas costeiras.
O que parece ser a “cabeça” carrega duas valvas brancas e estriadas, bem pequenas, que funcionam como brocas. Na outra extremidade ficam dois sifões e um par de paletas calcárias em forma de pá, usadas para fechar a galeria quando o animal se retrai.
Como identificar o Teredo na madeira
Por fora, a madeira parece intacta, com apenas furos de 1 a 3 mm. Por dentro, está toda escavada por galerias circulares revestidas de carbonato de cálcio branco e liso.
O animal em si é esbranquiçado a creme, às vezes rosado ou acinzentado, gelatinoso e muito frágil fora da galeria. Não tem tentáculos, olhos visíveis ou concha externa grande.
A identificação certeira depende das paletas. Em Teredo navalis, elas são em forma de colher com lâmina achatada e haste curta. Outros gêneros parecidos, como Bankia, têm paletas com aspecto de pente.
- Sinais na madeira: pequenos orifícios redondos, serragem fina e galerias em forma de U ou sinuosas.
- Toque: madeira leve, oca e que se desfaz com facilidade.
- Erro comum: confundir com cupim ou com Limnoria (um isópode que rói a superfície, sem galerias profundas).
Onde vive: distribuição e profundidade
O Teredo é cosmopolita. Ocorre no Atlântico, Pacífico e Índico, de águas frias temperadas a tropicais. No Brasil é comum do Maranhão ao Rio Grande do Sul, sobretudo em estuários e manguezais onde há troncos submersos.
Vive entre 0 e 30 m de profundidade, com pico na zona entremarés e infralitoral raso. Precisa de água salgada ou salobra (salinidade acima de 7-9) e madeira disponível. Não sobrevive em água doce pura por muito tempo.
A dispersão acontece na fase larval. A larva véliger fica 2 a 4 semanas no plâncton e pode viajar com correntes e água de lastro de navios. Foi assim que Teredo navalis se espalhou da Europa para as Américas e Ásia.
O que come e como perfura a madeira
O Teredo tem dieta dupla. Ele raspa madeira com as valvas e também filtra plâncton e matéria orgânica com os sifões. Em madeiras pobres, a filtração pode representar mais de 50% da energia.
A perfuração é mecânica e química. As valvas giram e raspam como uma broca, enquanto glândulas secretam enzimas. Os fragmentos de madeira vão para o intestino, onde são digeridos com ajuda da bactéria simbionte Teredinibacter turnerae.
Essa bactéria, descoberta dentro das brânquias do Teredo, produz celulases e fixa nitrogênio. É ela que permite ao animal viver de um alimento tão pobre em nitrogênio como a celulose. Sem ela, o Teredo não digeriria madeira.
O crescimento da galeria é rápido: 1 a 2 cm por semana em águas quentes. O túnel cresce com o animal e nunca é abandonado. Quando a madeira acaba ou fica superlotada, os indivíduos morrem por falta de espaço e oxigênio.
Reprodução e ciclo de vida
O Teredo é hermafrodita protândrico: nasce macho e depois se torna fêmea. Alguns indivíduos podem liberar espermatozoides e depois ovos na mesma estação reprodutiva.
A fecundação é externa na maioria das espécies de Teredo. A fêmea libera de centenas de milhares a mais de 1 milhão de ovos na água. Em águas tropicais brasileiras, a desova ocorre principalmente na primavera e verão, quando a água passa de 20°C.
O ciclo tem três fases bem marcadas:
- Larva véliger: nada livre por 15 a 30 dias e se alimenta de microalgas.
- Fixação: ao encontrar madeira, a larva se fixa, metamorfoseia e começa a escavar em 24 a 48 horas.
- Adulto escavador: cresce dentro da galeria por 1 a 3 anos, sem sair.
Em laboratório, Teredo navalis já se fixou em madeira em menos de 12 horas após a metamorfose. Essa rapidez explica por que cascos e píeres sem proteção são infestados em poucas semanas.
É perigoso para humanos?
Não. O Teredo não morde, não pica, não tem veneno e não ataca pessoas. O contato direto é inofensivo, embora o animal seja frágil e morra rapidamente fora da água.
O perigo real é estrutural e econômico. Uma viga infestada pode parecer sólida por fora e estar oca por dentro, com risco de colapso de trapiches, píeres e embarcações de madeira. Historicamente, afundou navios e destruiu portos inteiros antes do uso de revestimentos protetores.
Para humanos, o único cuidado é não consumir madeira infestada e evitar acidentes com estruturas enfraquecidas. Em algumas regiões do Pará e do Sudeste Asiático, o turu é até consumido como alimento (cru com limão ou cozido), sem registro de toxicidade, mas seu valor é cultural, não nutricional.
Impacto econômico e importância ecológica
Do ponto de vista humano, o Teredo é uma praga marinha. No Brasil, é a principal causa de deterioração de madeira de mangue, currais de pesca, casas de palafita e embarcações artesanais. O prejuízo global com Teredinidae é estimado em bilhões de dólares por ano em manutenção portuária.
Por outro lado, no ecossistema ele tem papel fundamental. Ao triturar troncos e raízes, acelera a ciclagem de carbono e libera nutrientes presos na madeira. Suas galerias vazias viram abrigo para caranguejos, poliquetas, peixes juvenis e outros invertebrados.
Em manguezais naturais, essa reciclagem é benéfica. O problema surge quando o equilíbrio é quebrado por madeira tratada, poluição ou introdução de espécies invasoras via navios, que levam Teredos para áreas sem predadores naturais.
| Medida de controle | Como funciona | Limitação |
|---|---|---|
| Madeira de lei densa | Resiste mais à broca | Não é imune; mais cara |
| Tratamento com CCA/creosoto | Torna a madeira tóxica ao molusco | Impacto ambiental; proibido em alguns locais |
| Revestimento (fibra, concreto, plástico) | Barreira física | Custo e manutenção |
| Substituição por materiais não lenhosos | Elimina o substrato | Nem sempre viável em comunidades tradicionais |
Comportamento, predadores e conservação
O Teredo é séssil e solitário depois de fixado. Não migra, não forma colônias organizadas e passa a vida inteira na mesma galeria, com apenas os sifões expostos para respirar e filtrar.
Seus predadores naturais incluem peixes, caranguejos e aves que quebram a madeira para expô-lo. A maior ameaça, porém, é a falta de madeira ou a competição intraespecífica: quando muitos indivíduos ocupam o mesmo tronco, todos crescem menos.
Nenhuma espécie de Teredo está avaliada na Lista Vermelha da IUCN. O status geral é Não Avaliado (NE), com populações estáveis e até em expansão devido ao aquecimento dos mares e ao aumento do tráfego marítimo.
A conservação não foca em proteger o Teredo, mas em manejar seu impacto sem envenenar estuários. No Brasil, o IBAMA e institutos de pesquisa de manguezais recomendam manejo sustentável da madeira e uso de barreiras físicas em vez de tratamentos químicos indiscriminados.
Curiosidades e confusões comuns
Muita gente chama qualquer broca de madeira de “cupim do mar”, mas cupins são insetos terrestres e não têm relação com Teredo. Outra confusão é com Limnoria, um crustáceo isópode que rói a superfície da madeira e deixa aspecto de ampulheta, enquanto o Teredo faz túneis internos profundos.
Uma curiosidade pouco conhecida é que o Teredo produz pelotas fecais em forma de bastão que ficam acumuladas no fundo da galeria. Arqueólogos usam essas pelotas para identificar infestações antigas em naufrágios.
Outra é que o revestimento calcário da galeria é tão perfeito que naufrágios comidos por Teredo podem manter a forma externa por séculos, mesmo sem madeira interna. Foi o caso de navios do século XVII encontrados no Mar Báltico, onde a baixa salinidade limitou a ação do Teredo e preservou os cascos.
Perguntas frequentes
Teredo é verme ou molusco?
É molusco bivalve. Tem corpo alongado como verme, mas possui duas valvas calcárias na cabeça e pertence à família Teredinidae, parente de ostras e mexilhões.
Teredo faz mal para humanos?
Não morde, não pica e não tem veneno. O risco é indireto: madeira infestada fica oca e pode quebrar, causando acidentes em píeres e barcos.
Como saber se a madeira tem Teredo?
Procure furos redondos de 1 a 3 mm na superfície. Ao cortar, verá galerias brancas e lisas revestidas de calcário, muitas vezes com o animal creme dentro.
Teredo só ataca madeira no mar?
Sim, precisa de água salgada ou salobra. Não sobrevive em água doce e não ataca madeira seca fora d'água, diferente de cupins.
Como evitar infestação de Teredo?
Use barreiras físicas (concreto, fibra ou plástico), madeiras densas ou tratadas com preservantes autorizados e faça vistorias periódicas. Trocar madeira por materiais não lenhosos é a solução definitiva.
Teredo pode ser comido?
Sim, em algumas regiões do Brasil e da Ásia o turu é consumido cru ou cozido, retirado na hora da madeira de mangue. Não é tóxico, mas deve vir de áreas limpas e não poluídas.
Você sabia?
A broca que salvou e destruiu a Holanda
Em 1731, Teredo navalis destruiu as estacas de madeira dos diques holandeses e causou inundações. O país trocou madeira por pedra e criou um dos primeiros programas de pesquisa sobre bioerosão marinha.
Bactéria que digere madeira e fixa nitrogênio
O Teredo abriga Teredinibacter turnerae nas brânquias, bactéria que produz enzimas para quebrar celulose e ainda fixa nitrogênio do ar, algo raríssimo em animais.
Paletas que funcionam como porta
As duas paletas calcárias na ponta do corpo não são decoração: elas fecham a entrada da galeria como uma porta quando a salinidade cai ou o animal é perturbado, permitindo sobreviver dias isolado.
Comido como iguaria no Brasil
No litoral do Pará e Maranhão, o turu é retirado da madeira de mangue e comido cru com limão e farinha, chamado de "ostra de mangue". O sabor é descrito como suave e iodado.









