Resumo
- A tesourinha é um inseto noturno de 12 a 25 mm reconhecido pela pinça (cerco) na ponta do abdômen, usada para defesa e acasalamento.
- Apesar do mito, não é venenosa, não põe ovos no ouvido e só belisca se for muito manuseada, sem risco grave para pessoas e pets.
- É ao mesmo tempo benéfica na agricultura por comer pulgões e lagartas e praga ocasional quando ataca pétalas, morangos e hortaliças tenras.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Dermaptera |
|---|---|
| Família | Forficulidae (principal no Brasil: Forficulidae e Labiduridae) |
| Origem e distribuição | Cosmopolita; presente em todo o Brasil e Europa, Ásia e Américas |
| Tamanho | 12 a 25 mm (algumas espécies até 30 mm) |
| Cores | marrom-escuropretomarrom-avermelhadoamarelo-claro (pernas) |
| Asas e voo | Possui asas membranosas dobradas sob élitros curtos; voa pouco e raramente |
| Alimentação | Onívora: pulgões, lagartas, ovos de insetos, pétalas e frutos moles |
| Metamorfose | Incompleta (ovo > ninfa > adulto) |
| Expectativa de vida | 10 a 12 meses na natureza |
| Habitat | Sob pedras, troncos, vasos, frestas úmidas e plantações |
| Comportamento social | Solitária, mas pode se agregar em abrigos úmidos; fêmea com cuidado parental |
| Principais predadores | Pássaros, lagartixas, aranhas, sapos e besouros |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Alto |
| Presença em casas | Alto |
| Benefício para a agricultura | Alto |
| Dano às plantas | Baixo |
| Vida em grupo | Baixo |
Como identificar a tesourinha sem confundir
A tesourinha não deixa dúvida quando você vê de perto: corpo alongado, achatado e brilhante, com uma pinça em forma de tesoura na ponta do abdômen. São os cercos, e não uma boca. Ela tem 6 pernas, antenas longas e finas com 12 a 15 segmentos e élitros curtos que parecem capinhas que não cobrem o abdômen.
O detalhe que entrega o sexo está na pinça. Machos têm cercos mais curvos e fortes, em forma de alicate; fêmeas têm cercos quase retos e mais finos. Essa diferença é visível a olho nu e é a forma mais confiável de separar macho e fêmea sem lupa.
Muita gente confunde com lacraia ou barata. A lacraia tem muitas pernas e corre muito rápido; a tesourinha tem só 6 pernas e anda mais devagar, se escondendo quando exposta à luz. Outro truque: se o inseto levantar a traseira e abrir a pinça quando tocado, é tesourinha.
Onde vive e por que aparece dentro de casa
Tesourinha ama umidade, escuro e frestas apertadas. Na natureza fica sob pedras, cascas de árvore, folhas acumuladas, vasos e lenha. Em áreas urbanas, entra por frestas de portas, ralos e caixas de hortaliça e se instala em banheiros, cozinhas, lavanderias e quintais.
No Brasil ela ocorre em todos os biomas, mas é mais vista na Mata Atlântica, Cerrado e áreas agrícolas do Sul e Sudeste. A espécie Doru luteipes, amarela com manchas escuras, é extremamente comum em plantações de milho no Brasil central.
Ela aparece mais na primavera e verão, quando calor e umidade aumentam a atividade noturna. Em casas, o pico é após chuvas ou regas noturnas. Durante o dia fica escondida; à noite sai para caçar. Se você encontra várias juntas embaixo do mesmo vaso, não é colônia organizada, é apenas um abrigo úmido bom que várias escolheram.
O que a tesourinha come: predadora ou praga?
A dieta é onívora e oportunista. Na horta e no jardim, ela é predadora de pulgões, ácaros, ovos de lagartas, lagarta-do-cartucho e pequenas larvas. Por isso a Embrapa considera a Doru luteipes uma aliada importante no controle biológico do milho.
Quando faltam presas, ela complementa com pétalas, pólen, frutas muito maduras, mudas tenras e matéria em decomposição. É aí que vira praga leve: pode roer morangos, alface, couve-flor, dália e crisântemo, deixando furos irregulares nas folhas e flores.
Em casa, não ataca comida armazenada como formigas ou traças. Se entra na cozinha, está atrás de umidade e de pequenos insetos, não do seu arroz.
Ciclo de vida e o raro cuidado materno entre insetos
A tesourinha tem metamorfose incompleta: ovo, ninfa e adulto, sem fase de pupa. A fêmea põe 20 a 60 ovos brancos e brilhantes em um ninho subterrâneo raso, geralmente no outono e inverno.
E aqui vem o fato que pouca gente conhece: a mãe cuida da ninhada. Ela lambe os ovos constantemente para evitar fungos, move os ovos se o ninho alagar e defende o local com a pinça. Após a eclosão, alimenta e protege as ninfas de primeiro ínstar até elas se dispersarem. Esse cuidado parental é raríssimo em insetos não sociais.
As ninfas parecem adultos em miniatura, mas sem asas e com pinça mais reta. Passam por 4 a 5 mudas em 2 a 3 meses até virar adulto. A maioria vive cerca de 1 ano, e os adultos morrem logo após a reprodução, no fim do verão.
A tesourinha morde ou pica? O que faz a pinça do bumbum
Não, tesourinha não é venenosa, não pica e não transmite doença. A pinça serve para defesa, capturar presas pequenas, dobrar as asas e segurar a fêmea durante o acasalamento. Se você apertar o inseto na mão, ele pode dar um beliscão que parece uma pinçada de unha, mas raramente fura a pele.
O mito de que ela entra no ouvido para cortar o tímpano vem do nome em inglês earwig e do latim auricularia. É folclore europeu antigo. Na prática, não há registro médico relevante de tesourinha entrando em ouvido humano como comportamento natural; ela foge de luz e calor corporal.
Para pets, o risco também é mínimo. Cachorros e gatos podem tentar comer e levar um beliscão na língua, mas não há veneno. Apenas lave o local se houver vermelhidão e observe. Em caso de alergia ou dor persistente, procure atendimento médico ou veterinário.
Ela voa? Comportamento noturno e defesa
Sim, a maioria tem asas, mas quase nunca voa. As asas membranosas ficam dobradas como origami embaixo de élitros curtíssimos. Quando voa, o voo é curto, desajeitado e só em noites quentes. No dia a dia ela prefere correr.
É estritamente noturna e fotofóbica: corre da luz. Se você acender a luz do quintal à noite, vai vê-la se escondendo em segundos. Essa é a melhor forma de confirmar que é tesourinha e não barata.
Quando ameaçada, além da pinça, algumas espécies liberam um líquido amarelado de cheiro forte e desagradável por glândulas no abdômen. É fétido, mas não queima nem mancha. Outra curiosidade: ela limpa as antenas constantemente passando pelas peças bucais, como um gato se lambendo.
Papel no ecossistema: amiga da horta ou vilã do jardim?
Na nossa avaliação, a tesourinha é mais benéfica do que praga na maioria dos cenários brasileiros. Em milho, soja e hortas orgânicas, uma única Doru luteipes pode consumir dezenas de pulgões e ovos de lagarta por noite, reduzindo necessidade de inseticida.
O problema aparece quando a população explode em jardins muito úmidos com muita matéria orgânica e pouca predação. Aí ela passa a atacar flores ornamentais e morangos, principalmente mudas recém-plantadas.
O equilíbrio é a chave. Se você tem poucas tesourinhas e muitas pragas, deixe-as trabalhar. Se tem muitas tesourinhas e furos em pétalas, é sinal de abrigo excessivo e umidade, não de infestação perigosa.
Como lidar com tesourinha em casa sem exagero
Antes de pensar em veneno, seque e organize. Recolha folhas acumuladas, afaste vasos da parede, vede frestas de portas e janelas, conserte vazamentos e não deixe toalhas úmidas no chão. Só isso já reduz 80% das ocorrências.
Para captura sem matar, use a armadilha clássica: enrole jornal úmido ou deixe um vaso com palha úmida de cabeça para baixo no quintal à noite. De manhã, dezenas estarão abrigadas ali. Leve para longe, em área com vegetação.
Na horta, prefira manejo integrado: barreiras físicas como anéis de papelão no caule de mudas, irrigação pela manhã para o solo secar à noite e incentivo a predadores naturais como pássaros e lagartixas. Evite inseticida de amplo espectro, que mata a tesourinha benéfica junto com polinizadores. Se precisar intervir, busque orientação técnica local.
Curiosidades que diferenciam a tesourinha de qualquer outro inseto
A dobra das asas da tesourinha é uma das mais complexas do reino animal. Uma asa de 15 mm é dobrada em 10 dobras diferentes para caber sob um élitro de 3 mm, um mecanismo estudado até para design de painéis solares dobráveis.
Outra singularidade: o macho tem dois pênis, mas usa apenas um por cópula, e pode perder um e continuar fértil com o outro. E a fêmea pode armazenar esperma por meses antes de fertilizar os ovos.
Por fim, nem toda tesourinha tem pinça igual. A espécie marinha Anisolabis maritima vive na zona entre marés, e a gigante Titanolabis colossea da Austrália chega a 50 mm. Já a brasileira Doru luteipes é pequena, amarelada e foi criada em laboratório pela Embrapa para soltura em lavouras como agente de controle biológico.
Perguntas frequentes
Tesourinha morde ou é venenosa?
Não é venenosa e não pica. Pode dar um beliscão com a pinça se for apertada, mas raramente fura a pele e não tem veneno.
Tesourinha entra no ouvido?
É mito. Ela foge de luz e calor e não busca ouvido humano. Não há registros de que isso ocorra como comportamento natural.
Por que tem tanta tesourinha na minha casa?
Umidade e abrigos escuros. Folhas acumuladas, vasos encostados na parede e frestas úmidas atraem. Secar e organizar o ambiente resolve na maioria dos casos.
Tesourinha voa?
Tem asas, mas voa pouco e mal. Prefere correr e se esconder. O voo, quando acontece, é curto e só em noites quentes.
Ela é praga ou benéfica?
As duas coisas. Come pulgões e lagartas e ajuda na horta, mas em grande número pode roer pétalas, morangos e mudas tenras.
Como tirar tesourinha sem matar?
Deixe jornal úmido enrolado ou vaso com palha úmida no chão à noite. De manhã, recolha e solte longe, em área com vegetação.
Tesourinha faz mal para cachorro e gato?
Não é tóxica. Se o pet morder, pode levar um beliscão leve. Só observe e lave a boca se houver irritação.
Você sabia?
Mãe que lambe os ovos
A fêmea de tesourinha limpa cada ovo com a boca para remover fungos e só abandona o ninho quando as ninfas fazem a segunda muda, um cuidado parental raríssimo em insetos.
Asa de origami
As asas membranosas são dobradas em até 10 dobras sob élitros de 3 mm e se abrem em segundos, um mecanismo que inspirou estudos de estruturas dobráveis na engenharia.
Dois pênis no macho
Machos de Forficula têm dois órgãos copuladores e usam apenas um por vez; se um quebrar durante o acasalamento, o outro continua funcional.
Predadora criada em laboratório
A Embrapa multiplica Doru luteipes em biofábricas para soltar em milharais contra a lagarta-do-cartucho, reduzindo uso de inseticidas.










