Resumo
- O Bloodhound é um sabujo gigante de faro extremo, capaz de seguir rastros com mais de 100 horas e com prova aceita em tribunais nos EUA.
- Dócil, paciente e muito apegado à família, mas teimoso e independente quando está farejando, exige tutor paciente e treino com reforço positivo.
- Precisa de rotina com exercícios olfativos, limpeza frequente de orelhas e pele, atenção à torção gástrica e quintal seguro contra fugas.
Características
Ficha da raça
| Origem | Bélgica / França (Santo Huberto) e desenvolvimento na Inglaterra |
|---|---|
| Grupo | Grupo 6 - Sabujos farejadores e raças assemelhadas (FCI) / Hound Group (AKC) |
| Tamanho | Grande |
| Altura | 58 a 72 cm na cernelha (fêmeas 58 a 66 cm; machos 62 a 72 cm) |
| Peso | 36 a 50 kg (fêmeas 36 a 45 kg; machos 41 a 50 kg) |
| Expectativa de vida | 10 a 12 anos |
| Pelagem | Curta, densa, áspera e bem assentada ao corpo |
| Cores | pretocastanhofígadocastanhofulvo (vermelho) |
| Tipos ou variedades | Não há variedades oficiais |
| Escovação | Semanal |
| Principais problemas de saúde | Displasia coxofemoral e de cotovelo, torção gástrica, otites, entrópio e ectrópio |
Perfil e comportamento
| Nível de afeto | Muito alto |
|---|---|
| Simpatia | Alto |
| Adequado para crianças | Alto |
| Aceita outros animais | Alto |
| Necessidade de exercício | Alto |
| Ludicidade | Médio |
| Nível de energia | Médio |
| Treinabilidade | Baixo |
Origem e história: o sabujo de Santo Huberto
O Bloodhound descende dos grandes sabujos criados por monges na região das Ardenas, na atual Bélgica e França, por volta do século VII. O monge Huberto, depois canonizado como Santo Huberto, padroeiro dos caçadores, selecionou cães de faro incansáveis para rastrear veados e javalis.
Esses Chiens de Saint-Hubert eram mantidos com extremo rigor no mosteiro de Saint-Hubert. Em 1066, Guilherme, o Conquistador, levou vários exemplares para a Inglaterra, onde a raça foi refinada e ganhou o nome Bloodhound — não por ser sanguinário, mas por “blooded hound”, ou seja, sabujo de sangue puro e linhagem preservada.
Na Inglaterra e depois nos Estados Unidos, o Bloodhound deixou a caça e virou cão de rastreio humano. É uma das primeiras raças reconhecidas pelo AKC, em 1885, e até hoje é mantido por canis de polícia para busca de desaparecidos e foragidos.
Como reconhecer um Bloodhound: tamanho e aparência inconfundível
É impossível confundir um Bloodhound adulto. É um cachorro grande, pesado e de ossatura forte, com altura de 58 a 72 cm e peso que facilmente passa dos 40 kg. A impressão é de força sem perder a nobreza.
A cabeça é o ponto mais marcante: longa e estreita, com pele muito solta que forma rugas profundas na testa e laterais. As orelhas são extremamente longas, finas e aveludadas, chegando a arrastar no chão quando o cachorro baixa a cabeça para farejar. Os olhos são caídos, com pálpebra inferior aparente, e os lábios pendentes formam os famosos “beiços” do sabujo.
O corpo é retangular, peito profundo, dorso firme e cauda longa em forma de sabre, portada alta quando em movimento. O conjunto transmite resistência, não velocidade. Filhotes já nascem com excesso de pele e orelhas desproporcionais, o que os deixa com aparência enrugada desde cedo.
Pelagem e cores: como identificar o Bloodhound verdadeiro
A pelagem é curta, densa e um pouco áspera ao toque, feita para proteger na mata sem acumular sujeira. Não é um pelo que exige tosa, mas solta pelos de forma moderada o ano todo, com pico na primavera.
A FCI e o CBKC reconhecem apenas três combinações de cores, sempre com castanho avermelhado:
- Preto e castanho: manto preto nas costas com marcas castanho nas patas, peito, focinho e sobrancelhas.
- Fígado e castanho: variação marrom-avermelhada no lugar do preto, mais clara e rara.
- Fulvo (vermelho): cor sólida que vai do dourado claro ao vermelho intenso, às vezes com sombreado mais escuro no dorso.
Mancha branca pequena no peito e nos dedos pode ocorrer, mas Bloodhound branco, malhado ou cinza não é puro. Desconfie de anúncios com cores fora desse padrão.
Personalidade e temperamento: dócil, sensível e obcecado por cheiros
Em casa, o Bloodhound é calmo, afetuoso e extremamente tolerante. Cria vínculo forte com o tutor, gosta de ficar por perto, encostar e seguir a pessoa de cômodo em cômodo. Com crianças costuma ser paciente e gentil, desde que respeitem seu espaço.
Fora de casa, muda a chave. Quando capta um cheiro interessante, entra em modo rastreio e fica surdo para chamados. Essa independência não é desobediência por maldade, é seleção genética para persistência. Por isso a treinabilidade é considerada baixa se comparada a pastores, mas a inteligência olfativa é altíssima.
É um cachorro sensível a broncas. Gritos e punições o fazem se fechar. Responde muito melhor a reforço positivo, petiscos e sessões curtas. Também não é cão de guarda: pode latir para avisar, mas tende a receber estranhos com abanos de cauda. Seu vocalize típico não é latido agudo, e sim um uivo grave e prolongado, o “bay”, que carrega longe.
Farejador nato: por que o faro do Bloodhound é prova em tribunal
O Bloodhound tem cerca de 250 a 300 milhões de receptores olfativos, contra 5 milhões de um humano. As orelhas longas varrem partículas do chão em direção ao focinho e a pele solta ao redor do nariz ajuda a reter o cheiro.
Essa capacidade é tão confiável que, nos Estados Unidos, o rastreio de um Bloodhound é aceito como prova em tribunal desde o século XIX — é a única raça com esse status. Polícias mantêm canis específicos de mantrailing, onde o cachorro segue o cheiro individual de uma pessoa por quilômetros.
Um Bloodhound bem treinado consegue seguir um rastro com mais de 100 horas de idade e por mais de 200 km em condições favoráveis. Em contrapartida, isso significa que passeios sem guia são impossíveis. Basta um cheiro para ele atravessar rua ou pular muro baixo. Quintal precisa ter cerca alta e sem frestas.
Cuidados essenciais: alimentação, exercícios, higiene e treino
Alimentação: por ser grande e de crescimento rápido, o filhote precisa de ração para raças grandes com controle de cálcio e energia para não sobrecarregar articulações. Adultos comem muito e engordam fácil. Divida em duas refeições diárias e nunca ofereça exercício intenso logo antes ou depois de comer, devido ao risco de torção gástrica.
Exercícios: não é um corredor de maratona, mas precisa de 60 a 90 minutos diários de atividade, preferencialmente com trabalho de faro. Caminhadas com tempo para cheirar, trilhas de cheiro no quintal e brinquedos de farejar cansam mais que corrida. Sem estímulo olfativo, fica entediado e destrutivo.
Higiene: o ponto crítico são as orelhas. Longas, pesadas e abafadas, acumulam umidade e cera e inflamam com facilidade. Limpeza semanal com produto veterinário e secagem após banho são obrigatórias. A pele das dobras do rosto precisa ser limpa e seca para evitar dermatite. Ele baba bastante e tem um odor corporal forte de sabujo, que aumenta se ficar úmido.
Treino: comece cedo, com socialização intensa entre 8 e 16 semanas para pessoas, sons e outros animais. Use guia longa em áreas abertas, nunca solto. Ensinar um “deixa” e um recall com recompensa altíssima é questão de segurança. Consistência e paciência valem mais que repetição mecânica.
Saúde: predisposições e como prevenir problemas graves
O Bloodhound é robusto, mas paga o preço do tamanho e da pele solta. Os problemas mais citados por FCI, AKC e veterinários são displasia coxofemoral e de cotovelo, torção gástrica (dilatação-vólvulo), otites crônicas, entrópio e ectrópio e dermatites nas dobras.
A torção gástrica é emergência. Tutores devem conhecer os sinais — abdômen estufado, tentativa de vômito sem conteúdo, inquietação — e buscar veterinário imediatamente. Medidas preventivas incluem comedouro no chão (não elevado sem indicação), porções menores, evitar estresse na hora de comer e conversar sobre gastropexia preventiva com o veterinário.
Olhos caídos expõem a conjuntiva a poeira e precisam de checagem anual. Orelhas pedem inspeção semanal. Manter peso ideal é a melhor forma de proteger articulações. Exames de quadril e cotovelo nos pais são exigidos por criadores responsáveis. Consulte sempre um veterinário para plano de vacinas, vermifugação e check-ups.
Convivência com crianças, outros animais e vida em apartamento
Com crianças, o Bloodhound costuma ser um companheiro paciente e afetuoso, que tolera bem o manuseio. O cuidado é com o tamanho: um adulto animado pode esbarrar e derrubar crianças pequenas sem querer. Supervisão é essencial.
Com outros cachorros e até gatos, geralmente convive bem se socializado desde filhote. É um sabujo de matilha, não territorial. A dificuldade é com animais muito pequenos soltos no quintal, que podem despertar instinto de perseguição por cheiro.
Para apartamento, na nossa avaliação, não é a escolha mais adequada. Além do porte, ele uiva alto, baba e precisa de espaço ventilado. Vive melhor em casa com quintal grande, mas não isolado no fundo: precisa estar perto da família. Se ficar entediado ou sozinho por muitas horas, uiva, cava e tenta fugir seguindo rastros.
Vale a pena ter um Bloodhound? Para quem a raça é indicada
O Bloodhound é indicado para quem busca um cachorro de companhia tranquilo dentro de casa, mas ativo e curioso fora dela, e que valoriza o trabalho de faro. É excelente para tutores que gostam de trilhas, esportes de olfato e que têm tempo para passeios longos e cheios de pausas para cheirar.
Exige tutor com paciência, consistência e bom humor com baba, pelos e vocalização. Não é o cachorro mais obediente para adestramento de truques, mas é extremamente gratificante para quem entende sua motivação olfativa e trabalha com ela, não contra ela.
Se você procura um cão fácil para primeira experiência, que fique solto sem guia, que não solte cheiro ou que seja silencioso, o Bloodhound vai frustrar. Para quem aceita sua natureza de farejador teimoso e oferece manejo seguro, ele devolve com lealdade calma e presença marcante por muitos anos.
Perguntas frequentes
Bloodhound é bravo ou perigoso?
Não. É dócil, sensível e sociável, inclusive com estranhos. Pode assustar pelo tamanho e latido grave, mas não é cão de guarda e raramente mostra agressividade.
Bloodhound late muito?
Não late sem parar, mas uiva alto e com frequência quando entediado, sozinho ou quando sente um cheiro. O som carrega longe e pode incomodar vizinhos.
Bloodhound solta muito pelo e baba?
Sim. Solta pelos de forma moderada o ano todo e baba bastante, principalmente após beber água, comer ou com calor. Precisa de limpeza diária ao redor da boca.
Bloodhound pode ficar em apartamento?
Não é recomendado. Precisa de espaço, ventilação, quintal seguro e rotina de farejar. Em apartamento tende a uivar, ficar ansioso e desenvolver problemas de comportamento.
Quanto tempo de passeio o Bloodhound precisa?
De 60 a 90 minutos por dia, com parte do tempo dedicada a farejar com calma. Passeios só com guia e peitoral seguro, pois foge fácil atrás de cheiros.
Bloodhound se dá bem com crianças e outros cachorros?
Sim, quando socializado desde filhote. É paciente com crianças e sociável com outros cachorros, mas o porte grande exige supervisão com crianças pequenas.
Quanto tempo vive um Bloodhound?
Em média 10 a 12 anos. Manter peso ideal, prevenir torção gástrica e cuidar de orelhas e articulações ajuda a aumentar a longevidade.
Fatos surpreendentes sobre o Bloodhound
Prova judicial
Nos EUA, o faro do Bloodhound é o único aceito como evidência em tribunal. Um rastreio bem documentado já ajudou a condenar e também a inocentar suspeitos.
Orelhas que varrem cheiro
As orelhas podem medir mais de 30 cm e funcionam como vassouras: ao caminhar com o focinho baixo, elas levantam partículas do solo e as jogam em direção ao nariz.
Uniforme da polícia inglesa
No século XIX, os Bloodhounds da polícia de Londres eram tão famosos que a raça apareceu em charges e romances policiais como símbolo da caçada infalível.
Filhote enrugado
Filhotes já nascem com pele sobrando. As rugas não são flacidez da idade, mas uma adaptação para reter o cheiro ao redor do focinho durante o rastreio.












