Resumo
- O pato-mergulhão é um pato mergulhador raro do Cerrado, com bico fino e serrilhado e penacho verde-escuro na cabeça.
- Vive em casais territoriais ao longo de rios limpos e encachoeirados, onde mergulha para capturar peixes pequenos.
- Está criticamente em perigo de extinção, com menos de 250 indivíduos adultos na natureza, e sua criação em casa é proibida por lei.
Características
Ficha da espécie
| Família | Anatidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul; hoje quase restrito ao Brasil central (Serra da Canastra, Chapada dos Veadeiros e Jalapão) |
| Habitat | Rios de cabeceira com águas cristalinas, corredeiras e mata ciliar no Cerrado e transição com Mata Atlântica |
| Tamanho | 49 a 56 cm de comprimento |
| Envergadura | 70 a 77 cm |
| Peso | 600 a 700 g |
| Cores | verde-escuropretocinzabrancocastanho-avermelhado |
| Expectativa de vida | 10 a 15 anos na natureza |
| Alimentação | Piscívora: peixes pequenos, larvas de insetos aquáticos e pequenos crustáceos |
| Canto | Vocalização curta, áspera e aguda, tipo krack-krack, mais ouvida em alarme |
| Reprodução | Monogâmica; ninho em oco de árvore ou fenda de rocha; 3 a 6 ovos; incubação cerca de 32 dias |
| Comportamento social | Vive em casais territoriais estáveis, defende 8 a 12 km de rio |
| Variedades ou subespécies | Nenhuma subespécie reconhecida; espécie monotípica |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Baixo |
|---|---|
| Intensidade do canto | Baixo |
| Inteligência | Alto |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Muito alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
O que é o pato-mergulhão e por que ele é tão raro
O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) é um dos patos mais raros e ameaçados do planeta. É um mergulhão verdadeiro, do mesmo gênero dos mergansers do Hemisfério Norte, mas o único que ocorre no Hemisfério Sul.
Ele foi descrito em 1817 e chegou a ser considerado extinto entre as décadas de 1940 e 1950. Redescoberto na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais, tornou-se símbolo da conservação de rios do Cerrado.
Na nossa avaliação, ele é um bioindicador implacável: onde o pato-mergulhão sobrevive, o rio está saudável. Onde ele some, o ecossistema já entrou em colapso silencioso.
Como identificar: tamanho, cores e características físicas
É um pato de tamanho médio, entre 49 e 56 cm, mais esguio que um pato doméstico. O corpo é alongado e hidrodinâmico, feito para cortar a correnteza.
A plumagem é predominantemente verde-escuro brilhante na cabeça e pescoço, com um penacho fino e arrepiado na nuca. O dorso é cinza-escuro e o peito é cinza-claro finamente estriado. O ventre é mais claro, quase esbranquiçado.
O detalhe que não deixa dúvida é o bico longo, fino e serrilhado, preto com bordas avermelhadas, com cerca de 30 dentículos em cada lado. Essa serra funciona como uma pinça para segurar peixes escorregadios.
Os olhos são escuros, as pernas e os pés são avermelhados e as asas mostram um espelho branco bem visível em voo. Macho e fêmea são muito parecidos, mas o macho tem o penacho ligeiramente mais longo e a cabeça mais verde.
Filhotes têm penugem escura no dorso e clara no ventre, com uma máscara escura nos olhos. Já nadam e mergulham no primeiro dia de vida.
Onde vive: habitat e distribuição atual no Brasil
O pato-mergulhão é especialista em rios de cabeceira com águas cristalinas, corredeiras, poços profundos e cachoeiras. Ele não vive em lagos, represas ou brejos parados.
Precisa de mata ciliar preservada para fazer ninho em ocos de árvores grandes, como jequitibás e ingás, e também usa fendas em paredões rochosos. Sem árvore oca perto do rio, não há reprodução.
Sua distribuição histórica incluía Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Bahia, Paraná, Santa Catarina e partes da Argentina e Paraguai. Hoje está extinto em mais de 80% dessa área.
As populações remanescentes mais importantes estão no Parque Nacional da Serra da Canastra (MG), no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e na região do Jalapão (TO). Estimativas recentes apontam menos de 250 indivíduos maduros na natureza, divididos em subpopulações isoladas.
Cada casal é extremamente territorial e defende 8 a 12 km lineares de rio o ano inteiro. Isso explica por que a espécie nunca foi abundante, mesmo antes da ação humana.
O que come e como caça mergulhando
É um piscívoro quase exclusivo. Cerca de 90% da dieta são peixes pequenos, principalmente lambaris e piabas de 3 a 10 cm, além de larvas de libélulas, besouros aquáticos e pequenos crustáceos.
A técnica de caça é o mergulho ativo. Ele afunda o corpo, nada submerso com forte impulso dos pés e persegue a presa sob a água por até 20 segundos. O bico serrilhado impede a fuga.
Caça preferencialmente em poços transparentes abaixo de corredeiras, onde a visibilidade é total. Em rios turvos por assoreamento ou esgoto, simplesmente não consegue se alimentar.
Costuma se alimentar nas primeiras horas da manhã e no final da tarde. No meio do dia, descansa em pedras no meio do rio, sempre atento.
Comportamento, canto e vida em casal territorial
O pato-mergulhão vive em casais monogâmicos e fiéis ao território. O vínculo do casal pode durar várias temporadas e ambos defendem o trecho de rio juntos.
É uma ave arisca e silenciosa. Não forma bandos. Fora da época reprodutiva, o casal permanece junto, mas raramente se junta a outros casais. Encontros entre vizinhos terminam em perseguições rápidas sobre a água.
O canto é pouco conhecido do público. É um krack-krack áspero, curto e agudo, emitido principalmente em situação de alarme ou durante voos territoriais. Não é um pato vocal como marrecos domésticos.
Em voo, é rápido e baixo sobre o rio, com batidas de asa firmes. Nada com o corpo bem baixo na água e mergulha ao menor sinal de perigo, podendo ficar submerso e reaparecer metros adiante.
Reprodução, ninhos em ocos e cuidado com os filhotes
A estação reprodutiva vai de junho a setembro, no auge da seca no Cerrado, quando o nível do rio está baixo e estável e os ocos ficam seguros.
O ninho é feito em oco natural de árvore alta ou em fenda de rochedo, sempre a poucos metros da água, entre 3 e 12 metros de altura. A fêmea forra o fundo com penugem.
A postura é de 3 a 6 ovos de cor creme, incubados apenas pela fêmea por cerca de 32 dias, enquanto o macho vigia o território nas proximidades.
Um comportamento impressionante acontece no segundo dia após a eclosão: os filhotes pulam do oco, mesmo de alturas de até 10 metros, guiados pelo chamado da mãe na água. São leves o suficiente para não se machucarem e já seguem a mãe nadando e mergulhando.
A família permanece unida por cerca de 3 a 4 meses. A taxa de sobrevivência dos filhotes é baixa, e a perda de um único ninho tem impacto grande numa população tão pequena.
É possível ter pato-mergulhão em casa? Legalidade e cuidados
Não. O pato-mergulhão é uma ave silvestre criticamente ameaçada e protegida por lei. Sua captura, manutenção, compra ou venda são crime ambiental no Brasil, conforme a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98).
Não existe criação legalizada para pet. Apenas instituições autorizadas pelo IBAMA e ICMBio, com finalidade científica e de conservação, podem mantê-lo, e mesmo assim com extrema dificuldade. Ele exige rio corrente, água limpa e peixes vivos, condições impossíveis de replicar em cativeiro doméstico.
Tentar criar um pato-mergulhão em casa levaria à morte rápida do animal e a sanções legais graves para o tutor. A melhor forma de ajudar é apoiar projetos de conservação e não perturbar rios onde ele ocorre.
Conservação e principais ameaças
Classificado como Criticamente em Perigo (CR) pela IUCN, o pato-mergulhão é uma das aves aquáticas mais ameaçadas das Américas. A tendência populacional é de declínio contínuo.
As maiores ameaças são a construção de hidrelétricas e PCHs, que alagam corredeiras e transformam rios em lagos parados, o assoreamento por desmatamento, o uso de agrotóxicos, o turismo desordenado em rios e a extração de areia e diamantes.
Projetos como o Programa Pato-Mergulhão do ICMBio e do Instituto Terra Brasilis monitoram ninhos, instalam caixas-ninho artificiais em árvores e trabalham com proprietários rurais para recuperar mata ciliar. O ecoturismo controlado na Serra da Canastra também ajuda a financiar a proteção.
Sem rios livres e limpos, não há pato-mergulhão. Proteger essa ave significa proteger toda a bacia hidrográfica do Cerrado, da nascente à foz.
Perguntas frequentes
Onde o pato-mergulhão vive no Brasil hoje?
Principalmente na Serra da Canastra (MG), Chapada dos Veadeiros (GO) e Jalapão (TO), sempre em rios de cabeceira com água cristalina e corredeiras.
Quantos pato-mergulhões existem na natureza?
Menos de 250 indivíduos adultos, segundo a IUCN/BirdLife, divididos em populações pequenas e isoladas. É um dos patos mais raros do mundo.
O que o pato-mergulhão come?
Quase só peixes pequenos de 3 a 10 cm, como lambaris, além de larvas de insetos aquáticos e pequenos crustáceos capturados em mergulho.
Por que ele está em extinção?
Por desmatamento da mata ciliar, assoreamento, poluição, hidrelétricas que alagam corredeiras e turismo desordenado nos rios.
Pode criar pato-mergulhão em casa?
Não. É crime ambiental capturar, comprar ou manter a espécie. Só instituições científicas com autorização do IBAMA/ICMBio podem manejá-la para conservação.
Como diferenciar o pato-mergulhão de outros patos?
Pelo bico longo e fino com bordas serrilhadas, penacho verde-escuro na cabeça, corpo esguio e hábito de mergulhar em corredeiras de rios limpos.
Você sabia?
O pato que indica rio saudável
Ele só vive em rios com água cristalina. Se a água fica turva por assoreamento, ele abandona o local porque não consegue enxergar os peixes para caçar.
Salto de fé dos filhotes
Com apenas 1 a 2 dias de vida, os filhotes se jogam de ocos a até 10 metros de altura para alcançar a água, amortecendo a queda com a penugem leve.
Território quilométrico
Um único casal precisa de 8 a 12 km de rio preservado só para si. Essa exigência enorme explica por que a espécie nunca foi comum.
Bico com serra de verdade
O bico tem cerca de 30 dentículos afiados em cada lado, como uma serra, que travam peixes escorregadios durante o mergulho.









