Resumo
- O peixe-pulmonado respira ar com pulmões verdadeiros e pode sobreviver meses fora da água enterrado em um casulo de muco durante a seca.
- No Brasil a espécie é a piramboia (Lepidosiren paradoxa), de até 1,25 m, que vive em pântanos e várzeas da Amazônia e do Pantanal.
- Não é peixe de aquário comum: exige aquários gigantes, é territorial, vive décadas e tem criação restrita e desaconselhada para iniciantes.
Características
Ficha da espécie
| Nome científico | Lepidosiren paradoxa (sul-americana) – grupo Dipnoi com 6 espécies atuais |
|---|---|
| Família | Lepidosirenidae (sul-americana), Protopteridae (africanas) e Ceratodontidae (australiana) |
| Origem | América do Sul, África e Austrália |
| Tipo de água | Doce, parada e pobre em oxigênio |
| Tamanho | 70 a 125 cm (L. paradoxa); até 200 cm e 50 kg (Protopterus aethiopicus) |
| Expectativa de vida | 20 a 30 anos na natureza; 60 a 90 anos em cativeiro |
| Cores | marrom-acinzentadoolivapretomanchas escurasventre claro |
| Alimentação | Onívora com tendência carnívora |
| Reprodução | Ovípara com cuidado parental do macho |
| Variedades | 6 espécies: 1 sul-americana, 4 africanas, 1 australiana |
Perfil e comportamento
| Facilidade de criação | Muito baixo |
|---|---|
| Agressividade | Médio |
| Sociabilidade | Muito baixo |
| Nível de atividade | Baixo |
| Exigência com a qualidade da água | Alto |
| Adequação a aquários pequenos | Muito baixo |
O que é o peixe-pulmonado e por que ele respira ar
O peixe-pulmonado é um fóssil vivo do grupo Dipnoi, linhagem que surgiu há cerca de 400 milhões de anos e hoje conta com apenas seis espécies vivas. Ele não é um peixe ósseo comum nem um anfíbio, mas um elo entre os dois.
A grande diferença está na respiração. Além de brânquias reduzidas, ele possui um ou dois pulmões verdadeiros ligados à faringe por uma glote. A piramboia sul-americana tem pulmões pares, enquanto a australiana tem um único pulmão. Ele precisa subir à superfície para engolir ar, ou morre afogado mesmo dentro da água.
Essa adaptação surgiu para sobreviver em águas paradas, quentes e quase sem oxigênio, como pântanos e banhados sazonais. Quando o oxigênio dissolvido cai, a respiração branquial se torna insuficiente e o pulmão assume até 90% da troca gasosa.
Como reconhecer: características que não deixam dúvida
O corpo é alongado, cilíndrico e coberto por escamas pequenas e lisas, lembrando uma enguia robusta. As nadadeiras pares são muito finas, filamentosas na piramboia, ou em forma de remo nas espécies africanas e australiana, e as nadadeiras dorsal, caudal e anal são fundidas em uma só borda contínua.
A cabeça é achatada, com olhos pequenos, focinho arredondado e quatro pares de narinas internas que se comunicam com a boca, permitindo cheirar e respirar ar ao mesmo tempo. A coloração da piramboia adulta é marrom-oliva a preta com manchas escuras irregulares e ventre mais claro; filhotes têm manchas amarelo-alaranjadas bem marcadas que somem com a idade.
Dentes são outro detalhe único. Em vez de dentes separados, possui placas dentárias cortantes em forma de leque no céu da boca, usadas para esmagar caramujos, crustáceos e pequenos peixes. Não confunda com a pirarucu ou o muçum: o pulmonado tem movimento serpenteante e sobe para respirar a cada poucos minutos.
Onde vive no Brasil e no mundo: habitat e distribuição
No Brasil, Lepidosiren paradoxa ocorre nas bacias do Amazonas e do Paraguai, incluindo várzeas, igapós, banhados do Pantanal e campos alagados do Chaco. Prefere águas rasas, turvas e com muita vegetação, onde pode se esconder entre raízes e lodo.
Fora daqui, as quatro espécies africanas do gênero Protopterus ocupam pântanos e rios sazonais da África Central e Oriental, e a única australiana, Neoceratodus forsteri, vive em rios perenes de Queensland. Todas dependem de ambientes de água doce que secam parcial ou totalmente.
É um peixe extremamente sedentário. Passa o dia enterrado ou abrigado em tocas de lama e sai à noite para caçar. Durante as cheias se dispersa pela planície alagada; na seca, concentra-se nas poças remanescentes ou inicia a estivação.
Estivação: como sobrevive meses enterrado na lama seca
A estivação é o comportamento mais famoso do peixe-pulmonado e o que mais o distingue de qualquer outro peixe de água doce. Quando a poça seca, ele cava uma toca vertical de 30 a 50 cm na lama, enrola o corpo e secreta um casulo de muco que endurece e deixa apenas um pequeno orifício para respirar.
Dentro do casulo, o metabolismo cai drasticamente, os rins param de excretar amônia e passam a converter em ureia, e o animal vive do tecido muscular e da gordura armazenada. As espécies africanas aguentam até 4 anos sem água ou alimento nessa condição em laboratório; a piramboia sul-americana resiste de 6 a 12 meses, até a chuva voltar.
Ao retornar a água, o casulo se dissolve e o peixe retoma a atividade em poucas horas. Essa estratégia explica por que populações reaparecem em lagoas que ficaram completamente secas por meses, confundindo ribeirinhos que acham que o peixe nasceu da lama.
Comportamento e temperamento: solitário, territorial e noturno
É um peixe solitário, territorial e predominantemente noturno. Adultos não toleram outro pulmonado no mesmo abrigo e podem morder com força se provocados, graças às placas dentárias. Fora da reprodução, cada indivíduo defende uma toca ou área de vegetação densa.
A natação é lenta e ondulante, com uso das nadadeiras filamentosas como sensores táteis. Ele detecta vibrações e cheiros com grande precisão, mas tem visão fraca. Sobe para respirar a cada 5 a 15 minutos, emitindo um estalo audível na superfície que pescadores reconhecem à noite.
Em cativeiro, reconhece o tutor e pode aceitar alimento na mão, mas não é sociável com outros peixes. Peixes menores viram comida, e peixes grandes são atacados se invadirem o fundo. Por isso, na nossa avaliação, é um animal de observação, não de convivência comunitária.
Alimentação na natureza e em cativeiro
Na natureza é onívoro com forte preferência carnívora. Come caramujos, caranguejos de água doce, camarões, pequenos peixes, anfíbios, ovos e matéria vegetal em decomposição. Usa o olfato e as barbilas sensoriais para achar presas enterradas no lodo à noite.
Em cativeiro, aceita peixes inteiros, camarão, minhoca, mexilhão, pedaços de tilápia e ração carnívora de fundo, mas precisa de alimento fresco e variado. Filhotes exigem alimento vivo nos primeiros meses, como artêmia e larvas de inseto, e só depois aceitam carne picada.
Um erro comum é oferecer apenas ração seca. Isso causa deficiência nutricional e deformidade nas placas dentárias. Adultos comem 2 a 3 vezes por semana em porções grandes; o excesso de comida apodrece rápido e piora a qualidade da água, que já precisa ser muito bem filtrada.
Exigências de água e aquário
Se mantido, exige aquário acima de 1.000 litros para um único adulto, com tampa pesada porque escapa, substrato macio sem pedras pontiagudas, tocas de PVC ou troncos e plantas flutuantes para sombra. Temperatura de 24 a 28 °C, pH 6,0 a 7,5 e oxigênio baixo não é problema, mas amônia e nitrito devem estar zerados.
Filtragem biológica potente e trocas parciais semanais são obrigatórias, apesar da resistência à água pobre em oxigênio. Ele produz muito resíduo nitrogenado e suja a água rapidamente, o que exige manutenção constante.
Reprodução e cuidado parental diferente dos outros peixes
A reprodução ocorre na estação das cheias, entre setembro e dezembro no Brasil. O macho cava uma toca em forma de U na vegetação alagada, com duas entradas, e atrai a fêmea para desovar ali. A fêmea libera ovos grandes, de 3 a 4 mm, com vitelo abundante, que ficam aderidos ao fundo da toca.
O cuidado é exclusivamente paterno. O macho guarda o ninho por 3 a 8 semanas, arejando os ovos com movimentos do corpo. Nos Protopterus africanos, o macho desenvolve filamentos branquiais vermelhos e vascularizados nas nadadeiras pélvicas durante a guarda, que liberam oxigênio extra na água parada da toca — uma adaptação única entre peixes.
As larvas nascem com brânquias externas ramificadas, como as de um girino, que são reabsorvidas em poucas semanas quando os pulmões se tornam funcionais. Filhotes ficam com o pai até conseguirem respirar ar sozinhos e depois se dispersam. Em cativeiro a reprodução é raríssima e quase nunca ocorre em aquário doméstico.
Estado de conservação e por que não é peixe para qualquer aquário
A piramboia sul-americana é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, mas sofre com drenagem de banhados, poluição e captura para comércio ilegal de aquário. A espécie australiana, Neoceratodus forsteri, é protegida por lei na Austrália e considerada em perigo devido a barragens e perda de habitat.
No Brasil, a criação exige origem comprovada e autorização do IBAMA quando envolve fauna nativa, e a importação de espécies africanas e australiana é restrita. Muitos exemplares à venda vêm do tráfico ou de criadouros sem registro, o que torna a compra arriscada legalmente.
Na nossa avaliação, o peixe-pulmonado é fascinante para estudo e conservação, não para aquário doméstico comum. Vive décadas, cresce muito, exige estrutura enorme e conhecimento avançado. Para a maioria dos aquaristas, observá-lo em instituições sérias ou em documentários é mais responsável do que tentar mantê-lo em casa.
| Espécie | Tamanho máximo | Pulmões | Onde vive |
|---|---|---|---|
| Lepidosiren paradoxa | 125 cm | 2 | América do Sul |
| Protopterus aethiopicus | 200 cm | 2 | África Oriental |
| Neoceratodus forsteri | 150 cm | 1 | Austrália |
Perguntas frequentes
Peixe-pulmonado respira fora da água?
Sim. Ele tem pulmões verdadeiros e precisa subir para engolir ar. Fora da água, se mantido úmido e em estivação, sobrevive meses dentro de um casulo de muco.
Quanto tempo o peixe-pulmonado vive?
Na natureza de 20 a 30 anos. Em aquários e zoológicos bem mantidos passa de 60 anos, com registros de 80 a 90 anos na espécie australiana.
Peixe-pulmonado pode ser criado em aquário?
Só por aquaristas muito experientes. Precisa de aquário acima de 1.000 litros, filtragem forte, tampa segura e alimentação variada. É territorial e vive décadas.
Onde vive o peixe-pulmonado no Brasil?
A piramboia (Lepidosiren paradoxa) vive em áreas alagadas da Amazônia e do Pantanal, em pântanos, várzeas e lagoas marginais com água parada.
O peixe-pulmonado é perigoso?
Não ataca pessoas, mas morde forte se manuseado. Suas placas dentárias esmagam caramujos e podem causar ferimentos.
Qual a diferença entre piramboia e peixe-pulmonado africano?
A piramboia tem nadadeiras filamentosas finas e até 1,25 m. As africanas (Protopterus) são maiores, até 2 m, com nadadeiras em forma de remo e quatro espécies diferentes.
Peixe-pulmonado entra em extinção?
A espécie sul-americana é Pouco Preocupante, mas a australiana é Em Perigo e protegida. Todas sofrem com drenagem de banhados e barragens.
Fatos surpreendentes sobre o peixe-pulmonado
Genoma gigante
O peixe-pulmonado australiano tem o maior genoma conhecido entre os vertebrados, com cerca de 43 bilhões de pares de bases, 14 vezes maior que o humano, cheio de DNA repetitivo.
Methuselah, o mais velho
Um Neoceratodus forsteri chamado Methuselah viveu 90 anos no Shedd Aquarium de Chicago, de 1933 a 2017, e só morreu após ser o peixe mais velho em cativeiro registrado.
Pai que respira pelos pés
Machos de Protopterus criam filamentos branquiais nas nadadeiras pélvicas na época reprodutiva para oxigenar os ovos dentro da toca alagada sem oxigênio.
Filhote com brânquias de anfíbio
Larvas de Lepidosiren nascem com quatro pares de brânquias externas plumosas como as de salamandras, que desaparecem quando o pulmão começa a funcionar.









