Resumo
- O pulgão-do-algodoeiro (Aphis gossypii) é um inseto sugador de 1 a 1,8 mm, verde a preto, que vive em colônias e se reproduz por partenogênese sem precisar de macho.
- Polífago e cosmopolita, ocorre em todo o Brasil e ataca algodão, cucurbitáceas, citros e ornamentais, causando enrolamento foliar, melada e fumagina.
- Não pica nem é venenoso, mas é vetor de vírus graves; o controle mais eficaz combina jato d'água, inimigos naturais e manejo cultural, sem depender só de inseticida.
Características
Ficha do inseto
| Ordem | Hemiptera |
|---|---|
| Família | Aphididae |
| Origem e distribuição | Possivelmente Paleártica, hoje cosmopolita; presente em todo o Brasil |
| Tamanho | 1 a 1,8 mm (áptero); alado até 1,9 mm |
| Cores | verde-claroverde-escuroamarelomarrompreto |
| Asas e voo | Formas ápteras e aladas; voo curto e dispersivo |
| Alimentação | Fitófago sugador de floema |
| Metamorfose | Incompleta (hemimetabolia) |
| Expectativa de vida | 10 a 25 dias no verão; até 40 dias no frio |
| Habitat | Face inferior de folhas e brotos de herbáceas, arbustos e árvores |
| Comportamento social | Colonial gregário, com mutualismo com formigas |
| Principais predadores | Joaninha, crisopídeo, sirfídeo, vespas Aphidiinae |
Perfil e comportamento
| Periculosidade para pessoas | Muito baixo |
|---|---|
| Importância para o ecossistema | Baixo |
| Presença em casas | Baixo |
| Benefício para a agricultura | Muito baixo |
| Dano às plantas | Muito alto |
| Vida em grupo | Muito alto |
Como identificar o pulgão-do-algodoeiro sem confundir
O Aphis gossypii é pequeno e mole, com corpo oval e brilhante, pernas claras e dois sifúnculos escuros na traseira do abdômen. Essa dupla de tubinhos é a marca dos afídeos e solta feromônio de alarme.
A cor varia muito, o que confunde. No mesmo pé você encontra indivíduos verde-claros, amarelados, verde-escuros e até pretos, dependendo da planta hospedeira, temperatura e fase da colônia. Ninfas são iguais aos adultos, só que menores e sem asas.
Existem duas formas adultas: áptera (sem asas), que fica na colônia sugando, e alada, com cabeça e tórax pretos, abdômen verde e asas transparentes bem visíveis. A alada surge quando a planta fica lotada ou de má qualidade.
Para diferenciar de outros pulgões, observe o tamanho e a antena. O pulgão-do-algodoeiro tem antena com 6 segmentos e menor que o corpo, enquanto o pulgão-preto-do-citros (Toxoptera) é maior e mais escuro, e o pulgão-verde-do-pessegueiro (Myzus persicae) tem sifúnculos mais longos e claros.
Onde vive e por que está em todo o Brasil
É uma espécie cosmopolita e altamente invasora, registrada em todos os continentes exceto Antártida. No Brasil ocorre de norte a sul, tanto em lavoura extensiva quanto em vaso de varanda.
Prefere brotações novas, face inferior das folhas e botões florais, onde a seiva é mais rica e a proteção contra sol e chuva é maior. Em algodão fica no ponteiro; em melão, pepino e abóbora, nas folhas do terço médio; em hibisco e crisântemo, nos botões.
Vive melhor com calor e seca moderada, entre 20 °C e 30 °C. Em estufas e hortas urbanas se reproduz o ano inteiro. No campo, picos na primavera e verão, quando há brotação intensa.
Dispersão é feita pelas fêmeas aladas, levadas pelo vento por centenas de metros. Mudas, vasos e buquês infestados também espalham a praga entre cidades.
O que ele come e por que ataca tantas plantas
É polífago extremo, com mais de 700 hospedeiras registradas em 90 famílias botânicas. Isso explica por que aparece em culturas tão diferentes.
Com o estilete sugador, perfura o floema e suga seiva rica em açúcares. Injeta saliva que entope vasos e deforma a folha. O excesso de açúcar é excretado como melada (honeydew), líquido brilhante e pegajoso.
- Hospedeiras preferidas: algodão, melão, melancia, pepino, abóbora, pimenta, berinjela, hibisco, algodão ornamental e citros.
- Hospedeiras secundárias: plantas daninhas como picão-preto e caruru, que mantêm a população na entressafra.
- O que não come: não mastiga folha, não faz galeria e não ataca raiz; o dano é sempre por sucção.
Essa amplitude alimentar faz dele ponte de vírus entre culturas. Um mesmo clone pode se alimentar em algodão hoje e em pepino amanhã, levando vírus junto.
Ciclo de vida e reprodução explosiva
No Brasil a reprodução é quase toda por partenogênese telítoca: fêmeas geram fêmeas sem acasalamento. É também vivípara, já nasce a ninfa, não põe ovo na maior parte do ano.
O fenômeno mais impressionante é a geração telescópica: dentro de uma fêmea já há embriões, e dentro desses embriões já há outros embriões. Uma única fêmea pode gerar 30 a 80 ninfas em 7 a 10 dias.
O ciclo é curto. De ninfa a adulto são 4 a 7 dias no verão. A fase adulta dura 10 a 20 dias. Em condições ideais, a população dobra em 2 a 3 dias, formando colônias de centenas em uma semana.
Quando surgem machos e ovos
Em regiões subtropicais com inverno rigoroso, no outono surgem machos e fêmeas sexuadas que põem ovos de resistência. No Brasil tropical isso é raro; a população se mantém por clonagem contínua o ano todo, o que aumenta a resistência a inseticidas.
Comportamento em colônia e a parceria com formigas
Vive em colônias densas e agregadas, com dezenas a milhares de indivíduos lado a lado. Quando perturbada, libera feromônio de alarme pelos sifúnculos e parte da colônia se dispersa.
Tem mutualismo clássico com formigas doceiras. As formigas coletam a melada e, em troca, protegem os pulgões de joaninhas e vespas, chegando a carregá-los para brotos novos. Onde há formigas subindo e descendo o caule, vale procurar pulgões.
O voo da forma alada é fraco e curto, mais de dispersão passiva pelo vento do que de busca ativa. Por isso barreiras físicas como tela anti-afídeo em estufa funcionam bem.
É perigoso para pessoas e pets? Pica ou é venenoso?
Não pica, não morde, não tem ferrão e não é venenoso. O aparelho bucal só perfura tecido vegetal. Contato acidental com pele não causa reação na maioria das pessoas.
Para pets, a ingestão acidental ao lamber planta infestada não é tóxica. O risco maior é indireto: plantas muito infestadas podem ter sido pulverizadas, e a melada atrai fungos e formigas.
Pessoas muito sensíveis podem ter irritação leve ou alergia respiratória em infestações enormes dentro de casa ou estufa, pela poeira de exúvias e fumagina, mas é incomum. Em caso de irritação persistente, lave a área e procure orientação médica.
Estrago na lavoura e no jardim: vírus, melada e fumagina
O dano direto é a sucção contínua. Folhas enrolam, brotos atrofiam, flores abortam e frutos ficam pequenos e deformados. Em algodão, causa o encarquilhamento do ponteiro; em cucurbitáceas, o encrespamento e amarelecimento.
O dano indireto é pior. A melada cobre folhas e frutos e serve de substrato para o fungo fuliginoso Capnodium, a fumagina preta, que bloqueia fotossíntese e deprecia o produto. Algodão com melada perde qualidade de fibra.
| Problema causado | Como aparece | Consequência |
|---|---|---|
| Transmissão de vírus | Mosaico, amarelecimento, nanismo | Perda total em melão e pepino; mosaico do algodoeiro |
| Melada + fumagina | Folhas pretas e pegajosas | Queda de fotossíntese, fruto sem valor comercial |
| Enrolamento foliar | Folhas encarquilhadas e brotos tortos | Redução de crescimento e floração |
É vetor de vírus importantes como Cucumber mosaic virus (CMV), Watermelon mosaic virus, Zucchini yellow mosaic virus, Citrus tristeza virus e Cotton leafroll dwarf virus. Basta segundos de picada de prova para transmitir vírus não persistentes, por isso inseticida sozinho raramente impede virose.
Como manejar sem desequilibrar o jardim
Controle eficaz é manejo integrado, não pulverização calendarizada. Começa na prevenção e na preservação de inimigos naturais.
- Jato d’água forte na face inferior das folhas derruba 70% da colônia e não afeta polinizadores. Repita a cada 2 a 3 dias.
- Preserve predadores: joaninhas, larvas de crisopídeo e de sirfídeos comem dezenas por dia. Evite inseticida de amplo espectro que mata esses aliados.
- Remova brotos muito infestados e descarte em saco fechado, não no chão. Limpe plantas daninhas hospedeiras ao redor.
- Barreira física: em horta, use tela anti-afídeo e cobertura morta prateada que reflete luz e confunde o pulgão alado.
- Controle biológico: em cultivo protegido, liberações de Aphidius colemani e fungos entomopatogênicos são usadas com sucesso.
Se precisar intervir, prefira sabão neutro ou óleo vegetal emulsionável em baixa concentração no fim da tarde, atingindo só a colônia, e nunca com plantas em plena floração visitadas por abelhas. Para lavouras, siga recomendação de assistência técnica e respeite o manejo de resistência, já que há populações resistentes a piretroides e organofosforados no Brasil.
Curiosidades que só o pulgão-do-algodoeiro tem
Apesar de minúsculo, tem biologia sofisticada. Consegue alternar cor e tamanho do corpo conforme a planta hospedeira, o que já fez pesquisadores acharem que eram espécies diferentes. Só o DNA mostrou que era tudo Aphis gossypii.
Outro detalhe é a rapidez de adaptação. Clones coletados em algodão e em pepino no mesmo município podem ter perfis de resistência a inseticidas completamente distintos, exigindo manejo localizado.
Perguntas frequentes
Pulgão-do-algodoeiro pica pessoas?
Não. O aparelho bucal só perfura plantas. Ele não pica, não morde e não tem veneno.
Qual a diferença para outros pulgões?
É menor (até 1,8 mm), com sifúnculos escuros e antenas mais curtas que o corpo. A cor varia de verde a preto na mesma colônia.
Por que a planta fica preta e pegajosa?
É a melada açucarada excretada pelo pulgão, que alimenta o fungo da fumagina. O preto bloqueia a luz e enfraquece a planta.
Como acabar com pulgão-do-algodoeiro sem inseticida?
Use jato d'água na face inferior das folhas, remova brotos muito atacados, preserve joaninhas e crisopídeos e barre formigas que protegem a colônia.
Ele transmite vírus para plantas?
Sim, mais de 50 vírus, incluindo mosaicos de cucurbitáceas e viroses do algodão e citros. A transmissão pode ocorrer em segundos.
Onde ele aparece dentro de casa?
Em vasos de hibisco, pimenta ornamental, suculentas e hortas de varanda, sempre em brotos novos e no verso das folhas.
Você sabia?
Mestre do disfarce
A cor do pulgão-do-algodoeiro muda conforme a hospedeira e a temperatura. Um mesmo clone pode ser verde-claro no pepino e quase preto no hibisco, o que já causou confusão taxonômica por décadas.
Nascimento telescópico
Fêmeas carregam dentro de si filhas que já carregam netas. Essa geração telescópica permite que uma única fêmea origine milhares em duas semanas sem nenhum macho.
Vetor relâmpago
Para vírus não persistentes como o do mosaico do pepino, bastam 30 segundos de picada de prova para transmitir. Por isso a planta pode ser infectada mesmo que o pulgão seja expulso logo depois.
Criado por formigas
Formigas pastoreiam o pulgão-do-algodoeiro como gado: coletam a melada, defendem a colônia de joaninhas e até transportam pulgões para brotos novos e mais nutritivos.










