Resumo
- A irerê é um pato assobiador de 42 a 48 cm, com rosto branco, bico preto e peito castanho, que vive em bandos grandes em lagoas e várzeas do Brasil e da África.
- Alimenta-se de sementes, grãos e pequenos invertebrados aquáticos, forrageia à noite e nidifica no chão com 8 a 12 ovos cuidados pelo casal.
- Tem canto assobiado característico, faz deslocamentos sazonais conforme as chuvas e é classificada como Pouco Preocupante, sendo protegida contra captura na natureza.
Características
Ficha da espécie
| Família | Anatidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul e África subsaariana, distribuição disjunta |
| Habitat | Lagoas rasas, várzeas, banhados, arrozais e estuários |
| Tamanho (comprimento) | 42 a 48 cm |
| Envergadura | 85 a 95 cm |
| Peso | 500 a 800 g |
| Cores | brancopretocastanho-avermelhadocinza |
| Expectativa de vida | 10 a 15 anos na natureza |
| Alimentação | Sementes, grãos, insetos aquáticos e pequenos crustáceos |
| Canto | Assobio agudo de três notas "wi-wi-wi" |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho no chão entre capim; 8 a 12 ovos brancos, incubação 26 a 30 dias |
| Comportamento social | Altamente gregária, bandos de dezenas a milhares |
| Variedades ou subespécies | Monotípica, sem subespécies reconhecidas |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Alto |
| Inteligência | Médio |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer a irerê: tamanho, cores e marcas inconfundíveis
A irerê tem 42 a 48 cm de comprimento e pesa entre 500 e 800 g, menor que um pato-doméstico e mais esguia que a maioria das marrecas. As pernas longas e o pescoço alongado dão postura ereta, quase de ganso em miniatura.
O traço que não deixa dúvida é o rosto branco puro que contrasta com a nuca e o bico pretos. O peito é castanho-avermelhado com finas estrias pretas, os flancos são barrados de branco e preto, e o dorso é cinza-acastanhado.
Em voo, mostra faixa branca nas asas e barriga preta, além de pernas que se projetam além da cauda. Jovens são mais apagados, com rosto acinzentado e menos contraste, mas já exibem o bico escuro.
Onde vive a irerê no Brasil e no mundo
No Brasil ocorre em todos os biomas, da Amazônia ao Pampa, sendo mais numerosa no Pantanal, Nordeste e no Sul durante a safra de arroz. Prefere lagoas rasas, banhados, várzeas, açudes e arrozais com capim alto por perto.
É uma das poucas aves aquáticas com distribuição disjunta entre América do Sul e África subsaariana, sem populações intermediárias. Essa separação é natural e antiga, não resultado de introdução.
Evita rios de correnteza forte e matas fechadas. Onde há espelho-d’água aberto com vegetação marginal, a irerê aparece, inclusive em áreas urbanas com lagos de parque.
O que a irerê come e como se alimenta
A base da dieta é vegetal: sementes de gramíneas nativas e grãos de arroz, complementada com insetos aquáticos, pequenos crustáceos, moluscos e folhas tenras. Em arrozais, pode se alimentar de grãos caídos após a colheita.
Forrageia de forma diferente dos patos mergulhadores. Filtra a água rasa com o bico, cata sementes no chão úmido e, à noite, forma bandos que pastam em campos alagados. É mais ativa ao crepúsculo e à noite que durante o calor do dia.
Essa atividade noturna explica por que muitos bandos são ouvidos antes de vistos. O hábito também reduz competição com outras marrecas diurnas.
Comportamento e vida em bando: por que anda sempre em grupo
Irerê raramente anda sozinha. Vive em bandos coesos de 20 a 200 aves, que na seca podem se juntar em aglomerações de mais de mil indivíduos em poucos hectares de água.
Dentro do bando há hierarquia frouxa, mas forte sincronia. Decolam, voam em formação desordenada e pousam quase ao mesmo tempo, sempre vocalizando. Quando pousadas, mantêm vigilância coletiva: enquanto algumas comem, outras ficam com o pescoço ereto.
Outra peculiaridade é pousar em árvores. Graças aos dedos longos e garras curvas, apoia-se em galhos e até em cercas, comportamento raro entre patos brasileiros e típico do gênero Dendrocygna.
O canto assobiado que deu nome à espécie
O nome irerê é onomatopeico. O canto é um assobio agudo e melancólico de três notas, “wi-wi-wi” ou “i-re-rê”, repetido em coro pelo bando em voo.
É diferente do grasnado de patos. O som é fino, penetrante e audível a centenas de metros, o que ajuda o grupo a se manter unido em voos noturnos. Macho e fêmea cantam, com timbres ligeiramente distintos.
Durante o dia pousada, emite chamados mais curtos e suaves. À noite, o coro se intensifica e é um dos sons mais característicos de várzeas no interior do Brasil.
Reprodução, ninho e cuidado com os filhotes
A reprodução coincide com a estação chuvosa, quando há mais alimento e cobertura vegetal. No Centro-Oeste e Sudeste, o pico vai de outubro a março; no Nordeste, acompanha as chuvas locais.
O ninho é simples, no chão entre capim alto ou sob arbustos, forrado com penugem. Raramente usa ocos de árvore, ao contrário da marreca-cabocla. A postura é de 8 a 12 ovos brancos a creme, raramente até 14.
A incubação dura 26 a 30 dias e ambos os pais se revezam. Os filhotes nascem precoces, cobertos de penugem amarelada com manchas escuras, e deixam o ninho em 24 horas. O casal os guia até a água e os protege por cerca de 60 dias, até voarem.
Como diferenciar da marreca-cabocla
| Característica | Irerê (D. viduata) | Marreca-cabocla (D. autumnalis) |
|---|---|---|
| Rosto | Branco puro | Cinza com mancha branca ao redor do bico |
| Bico | Preto | Vermelho-rosado |
| Peito | Castanho com estrias finas | Castanho uniforme |
| Barriga | Preta | Preta |
| Voz | Assobio triplo fino | Assobio mais áspero e repetido |
Migração e movimentos sazonais no Brasil
A irerê não faz migração intercontinental, mas realiza deslocamentos sazonais de centenas de quilômetros em busca de água. É considerada migrante parcial e nômade conforme o regime de chuvas.
Na seca, concentra-se em grandes lagoas permanentes e açudes. Com as primeiras chuvas, dispersa-se para reproduzir em áreas temporariamente alagadas. Esses movimentos são mais evidentes no Pantanal, no interior do Nordeste e nos arrozais do Rio Grande do Sul.
Voos migratórios ocorrem principalmente à noite, em bandos barulhentos. Anilhamentos mostram indivíduos que se deslocaram mais de 500 km entre estações.
Conservação, observação e é possível criar irerê em casa?
A espécie é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população grande e estável. A adaptabilidade a arrozais e açudes ajudou a manter números altos, mesmo com a perda de banhados naturais.
As principais pressões são drenagem de áreas úmidas, uso de agrotóxicos em arrozais e caça ilegal em algumas regiões. Ainda assim, não há declínio global significativo.
Para observação, procure lagoas rasas ao entardecer. Chegue com antecedência, mantenha distância e use binóculo. O melhor momento é quando os bandos chegam vocalizando para pernoitar.
Sobre criação: irerê é ave silvestre nativa. No Brasil, manter, capturar ou vender aves da natureza sem autorização é crime ambiental (Lei 9.605/98). Criação só é legal por criadouros autorizados pelo IBAMA ou órgão estadual, e a espécie exige lago, bando e manejo especializado, não se adaptando a gaiola ou quintal pequeno. Na nossa avaliação, não é ave para criação doméstica.
Perguntas frequentes
Irerê é pato ou marreca?
É um pato assobiador do gênero Dendrocygna, popularmente chamado de marreca-viuvinha. Tem porte médio, pernas longas e hábitos mais parecidos com gansos que com patos mergulhadores.
Como diferenciar irerê de marreca-cabocla?
A irerê tem rosto branco puro e bico preto; a marreca-cabocla tem bico vermelho-rosado e rosto acinzentado. O canto da irerê é um assobio triplo mais fino e melancólico.
Onde encontrar irerê no Brasil?
Em lagoas rasas, banhados, várzeas, açudes e arrozais de todos os biomas, com maior concentração no Pantanal, Nordeste e sul do Rio Grande do Sul.
Irerê migra?
Faz deslocamentos sazonais de centenas de quilômetros conforme as chuvas e a disponibilidade de água, com voos principalmente noturnos. É considerada migrante parcial.
O que a irerê come?
Principalmente sementes de gramíneas e grãos de arroz, além de insetos aquáticos, pequenos crustáceos e moluscos filtrados em água rasa.
Pode criar irerê em casa?
Não como pet convencional. É ave silvestre nativa; manter ave da natureza sem autorização do IBAMA é crime ambiental. Só criadouros autorizados podem mantê-la, com lago e manejo em bando.
A irerê está ameaçada de extinção?
Não. É classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população ampla e estável, embora sofra com drenagem de banhados e agrotóxicos.
Fatos que pouca gente sabe sobre a irerê
Pato que pousa em árvore
Ao contrário da maioria dos patos, a irerê tem dedos longos com garras que permitem se empoleirar em galhos, cercas e até telhados próximos à água.
Distribuição em dois continentes
Ocorre naturalmente na América do Sul e na África subsaariana, sem populações no meio do caminho — um dos poucos patos com essa distribuição disjunta.
Casal que incuba junto
Macho e fêmea se revezam na incubação dos ovos, e ambos guiam e defendem os filhotes na água, comportamento mais parecido com gansos que com patos.
Voo noturno barulhento
Grande parte dos deslocamentos é feita à noite, quando o bando mantém contato com assobios constantes; por isso é comum ouvi-la sem vê-la.









