Resumo
- A caturrita é um periquito de 28 a 30 cm, verde com peito cinza e asas azuladas, único entre os psitacídeos por construir ninhos comunitários de gravetos.
- Vive em colônias barulhentas e altamente sociais, alimenta-se de sementes, frutos e grãos e adaptou-se com sucesso às áreas urbanas do Brasil e de outros países.
- No Brasil sua criação só é legal com autorização do IBAMA e anilha de criadouro, e a captura na natureza é crime ambiental; na natureza a espécie é classificada como Pouco Preocupante e está em expansão.
Características
Ficha da espécie
| Família | Psittacidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul (centro-sul); introduzida na América do Norte e Europa |
| Habitat | Savanas, bordas de mata, áreas agrícolas e centros urbanos |
| Tamanho (comprimento) | 28 a 30 cm |
| Envergadura | 42 a 48 cm |
| Peso | 90 a 140 g |
| Cores | verdecinza-claroamarelo-esverdeadoazul |
| Expectativa de vida | 15 a 20 anos na natureza, até 30 em cativeiro |
| Alimentação | Granívora e frugívora (sementes, grãos, frutos, flores) |
| Canto | Grasnidos ásperos, gritos agudos e sequências tagarelas |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho comunal de gravetos; 5 a 8 ovos brancos; incubação 26 dias |
| Comportamento social | Colonial e gregária, vive em bandos de 10 a 100 indivíduos |
| Variedades ou subespécies | 3 subespécies: M. m. monachus, M. m. calita e M. m. cotorra |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Alto |
| Inteligência | Muito alto |
| Facilidade de criação | Baixo |
| Necessidade de espaço | Alto |
| Nível de atividade | Muito alto |
| Capacidade de imitar sons | Alto |
Como reconhecer a caturrita: tamanho, cores e traços inconfundíveis
A caturrita (Myiopsitta monachus) tem 28 a 30 cm e 90 a 140 g, porte de periquito grande, menor que um papagaio-verdadeiro e bem mais robusta que um periquito-australiano.
O padrão de cor é único entre os psitacídeos brasileiros: dorso e asas verde-vivo, testa, bochechas e peito cinza-claro com efeito escamado, barriga amarelo-esverdeada pálida e rêmiges azul-acinzentadas visíveis em voo.
O bico é curto, curvo e cor de chifre, mais claro que o de outros periquitos, e a cauda é longa, graduada e pontiaguda, verde por cima e acinzentada por baixo. Jovens são mais opacos, com menos cinza no peito e cauda mais curta.
Não há dimorfismo sexual evidente a olho nu. Macho e fêmea são idênticos na plumagem; a sexagem segura exige exame de DNA ou laparoscopia.
Onde vive a caturrita no Brasil e no mundo
A distribuição natural vai do centro da Argentina e Uruguai ao Paraguai, Bolívia e sul e sudeste do Brasil, do Rio Grande do Sul ao Piauí, com maior densidade no Pampa, Mata Atlântica e Cerrado.
Habita savanas, bordas de matas, capoeiras, pomares, plantações de milho, sorgo e arroz, parques urbanos e fiações. Evita floresta densa fechada e prefere áreas abertas com árvores esparsas para nidificar.
É uma das aves que mais se beneficiou da urbanização. Em cidades como Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro forma colônias em postes, torres de celular e árvores de praças, onde encontra alimento e poucos predadores.
Fora da América do Sul, populações asselvajadas estabelecidas existem nos Estados Unidos, Espanha, Itália, Reino Unido, Bélgica e Japão, originadas de fugas e solturas. É considerada espécie invasora em parte da Europa e da América do Norte.
O único periquito que constrói ninho de gravetos: comportamento e vida em colônia
A caturrita é o único psitacídeo que não nidifica em oco. Ela tece um ninho volumoso de gravetos secos, espinhos e até arame, com câmaras internas forradas de folhas macias.
Cada estrutura funciona como um prédio de apartamentos: de 3 a mais de 20 casais ocupam câmaras separadas com entrada própria, mas compartilham a mesma base. Ninhos antigos podem atingir 1 a 2 metros de diâmetro e pesar mais de 100 kg, exigindo manutenção constante.
A vida social é intensa. Bandos de 10 a 100 aves voam juntos, pousam juntos e se revezam na vigilância. Há vocação para sentinela: enquanto o grupo se alimenta no chão, um ou dois indivíduos ficam em poleiro alto emitindo gritos de alerta.
São monogâmicas e fiéis ao par por várias estações, e ambos os sexos participam da construção e defesa do ninho. A agressividade territorial é baixa entre vizinhos da mesma colônia, mas forte contra outras espécies que tentam ocupar o ninho.
O que a caturrita come na natureza e na cidade
É essencialmente granívora e frugívora. A base são sementes de gramíneas nativas, girassol, cardo, frutos de aroeira, pitanga, goiaba, eucalipto e coquinhos.
Em áreas agrícolas consome milho, sorgo, arroz, trigo e soja, o que a coloca em conflito com produtores. Na cidade, aproveita restos de pão, ração de pombo, flores de tipuana e ipê e brotos tenros.
Alimenta-se tanto na copa quanto no chão, descendo em grupo e com revezamento de vigias. O bico forte quebra sementes duras, e a língua musculosa manipula o alimento com precisão.
- Principal: sementes e grãos (60 a 70% da dieta)
- Complemento: frutos polposos, flores, brotos e folhas jovens
- Ocasional: pequenos insetos e larvas, especialmente na criação dos filhotes
Canto, inteligência e comunicação: por que ela chama tanta atenção
O canto não é melodioso. É um grasnido áspero, alto e repetitivo, do tipo kri-kri-kri ou chá-chá, audível a centenas de metros. Em colônia, o coro é quase contínuo ao amanhecer e ao entardecer.
Apesar do timbre ruidoso, a caturrita tem grande capacidade de imitar assobios, palavras curtas e sons do ambiente quando criada desde filhote com interação diária. Não atinge a clareza de um papagaio-amazona, mas aprende 10 a 30 vocábulos com treino.
A inteligência se revela na construção do ninho, no uso de ferramentas simples e na resolução de problemas. Em cativeiro, aprende a abrir trincos, desatar nós e empilhar objetos. Na natureza, já foi observada usando espinhos para travar gravetos.
A comunicação combina vocalizações de contato, alarme, corte e briga com posturas corporais: eriçar penas da cabeça, abrir asas e balançar a cauda. É uma ave que precisa de estímulo social constante; isolada, desenvolve gritos excessivos e arrancamento de penas.
Reprodução, ninhos comunitários e filhotes
A estação reprodutiva no Brasil vai de setembro a março, com pico entre outubro e dezembro. O casal reforma a câmara do ano anterior ou constrói uma nova anexada ao bloco.
A fêmea põe 5 a 8 ovos brancos e arredondados, um a cada dois dias, e incuba por cerca de 26 dias enquanto o macho a alimenta e defende a entrada. Posturas de 11 ovos ocorrem, mas são raras.
Os filhotes nascem altriciais, sem penas e de olhos fechados, e permanecem no ninho por 40 a 45 dias. Ambos os pais alimentam com papa regurgitada rica em sementes semidigeridas.
Após saírem, os jovens ficam 2 a 3 semanas próximos à colônia sendo alimentados pelos pais e aprendendo rotas de alimento. A maturidade sexual chega entre 1 e 2 anos, e a fidelidade ao ninho natal é alta.
Caturrita pode ser criada em casa? Legalidade e cuidados
No Brasil, a caturrita é ave silvestre nativa protegida por lei. Capturar, manter ou vender exemplares da natureza é crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, com multa e detenção.
A criação só é legal se a ave vier de criadouro comercial autorizado pelo IBAMA ou órgão estadual, com anilha fechada, nota fiscal e cadastro no SisFauna/Sispass. Sem essa documentação, a posse é ilegal mesmo que a ave tenha sido encontrada caída.
Mesmo legalizada, não é um pet simples. Exige viveiro grande (mínimo 2 m de comprimento para um casal), poleiros de madeira natural, cordas, brinquedos destrutíveis e banho regular. Gaiola pequena de calopsita causa estresse, obesidade e problemas comportamentais.
Na nossa avaliação, a caturrita funciona melhor como ave de observação livre na cidade do que como ave de gaiola. Quem busca um psitacídeo para apartamento deve preferir espécies domesticadas como calopsita ou periquito-australiano, mais silenciosas e adaptadas ao manejo doméstico.
Conservação, expansão urbana e conflitos com humanos
A IUCN classifica a caturrita como Pouco Preocupante (LC), com população estável e em expansão. A conversão de florestas em áreas abertas e a oferta de alimento urbano favoreceram a espécie.
Os principais conflitos são danos a pomares e lavouras e ninhos em postes e torres, que podem causar curtos-circuitos e quedas de energia. Concessionárias fazem manejo com poda de ninhos fora da época reprodutiva e instalação de plataformas alternativas.
Predadores naturais incluem gaviões, falcões, corujas e gambás que atacam ovos e filhotes. A caça direta é incomum, mas o tráfico para comércio ilegal ainda existe em algumas regiões.
Para observar sem prejudicar, mantenha distância de colônias ativas entre setembro e janeiro, não ofereça pão ou alimentos ultraprocessados e nunca remova gravetos de ninhos. Denuncie comércio ilegal ao IBAMA ou Polícia Ambiental.
Subespécies e como diferenciar a caturrita de periquitos parecidos
Existem três subespécies reconhecidas, com diferenças sutis de tamanho e tonalidade:
| Subespécie | Distribuição principal | Traço distintivo |
|---|---|---|
| M. m. monachus | Sudeste do Brasil, Uruguai e nordeste da Argentina | Maior, verde mais escuro, cinza do peito bem marcado |
| M. m. calita | Oeste da Argentina e Bolívia | Menor, asas mais azuladas, tom geral mais claro |
| M. m. cotorra | Paraguai, norte da Argentina e Chaco | Intermediária, com amarelo mais vivo na barriga |
No Brasil, a forma mais vista é M. m. monachus. A confusão mais comum é com o periquito-de-encontro-amarelo e o tuim, mas a caturrita se distingue pelo peito cinza escamado e pelo ninho de gravetos — nenhum outro periquito brasileiro faz ninho aparente em postes.
Outra pista é o voo: batidas rápidas e trajetória ondulada, com gritos constantes em bando, diferente do voo mais silencioso e direto dos tuins.
Perguntas frequentes
Caturrita fala?
Pode imitar assobios e algumas palavras curtas se criada desde filhote com interação diária, mas o timbre é áspero e o vocabulário é menor que o de papagaios do gênero Amazona.
Qual a diferença entre caturrita e periquito australiano?
A caturrita é maior (28 a 30 cm), verde com peito cinza escamado e faz ninho de gravetos; o australiano tem 18 cm, cores variadas e nidifica em ocos.
Caturrita pode ser criada em casa legalmente?
Só se vier de criadouro autorizado pelo IBAMA com anilha e nota fiscal. Tirar da natureza ou comprar sem origem é crime ambiental.
O que a caturrita come?
Sementes, grãos, frutos, flores e brotos. Na cidade consome também milho, sorgo e frutos de árvores urbanas; não ofereça pão, chocolate ou alimentos salgados.
Quanto tempo vive uma caturrita?
De 15 a 20 anos na natureza e até 25 a 30 anos em cativeiro com alimentação adequada e acompanhamento veterinário.
Por que a caturrita faz ninho no poste?
Porque não usa ocos e precisa de suporte alto e firme para seu ninho comunal de gravetos. Postes e torres imitam árvores isoladas e ficam livres de muitos predadores.
Caturrita é praga agrícola?
Pode causar danos locais a milho, sorgo e fruticultura quando em bandos grandes, mas é também dispersora de sementes e controlada por manejo não letal fora da época reprodutiva.
Você sabia?
O único papagaio que constrói ninho de gravetos
Todos os outros psitacídeos usam ocos de árvores ou rochas. A caturrita tece uma estrutura de gravetos com câmaras forradas que pode passar de 1,5 metro e pesar mais de 100 kg.
Prédio com controle térmico natural
As câmaras internas mantêm temperatura até 5 °C mais estável que o exterior, protegendo ovos e filhotes de frio e calor extremos.
Invasora em três continentes
Fugas de cativeiro criaram populações selvagens em mais de 15 países, como Estados Unidos, Espanha e Itália, onde hoje compete com aves nativas por cavidades e alimento.
Bico que causa blecaute
Ao incorporar arames e gravetos metálicos nos ninhos sobre postes, colônias urbanas já provocaram curtos-circuitos e quedas de energia em várias cidades brasileiras.









