Resumo
- O biguá é um cormorão preto de 58 a 73 cm, comum em todo o Brasil, reconhecido por secar as asas abertas ao sol após mergulhar.
- Mergulhador exímio, alimenta-se principalmente de peixes e pode ficar até 60 segundos submerso, capturando presas com o bico em forma de gancho.
- Vive em bandos e nidifica em colônias sobre a água, com status de conservação Pouco Preocupante e população estável.
Características
Ficha da espécie
| Família | Phalacrocoracidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | Das Américas, do sul dos EUA ao sul da Argentina; presente em todo o Brasil |
| Habitat | Águas interiores e costeiras: rios, lagoas, represas, estuários e manguezais |
| Tamanho (comprimento) | 58 a 73 cm |
| Envergadura | 90 a 105 cm |
| Peso | 1 a 1,5 kg |
| Cores | pretomarrom-escuroamarelo (pele da face)verde-azulado (olhos) |
| Expectativa de vida | 12 a 15 anos na natureza |
| Alimentação | Piscívora (peixes, crustáceos, anfíbios e insetos aquáticos) |
| Canto | Grasnados guturais e coaxados, mais intenso nas colônias |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em plataforma de gravetos sobre árvores alagadas; 3 a 4 ovos azul-claros |
| Comportamento social | Altamente gregário e colonial |
| Variedades ou subespécies | 2 subespécies: N. b. mexicanum e N. b. brasilianum (ocorre no Brasil) |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Muito alto |
|---|---|
| Intensidade do canto | Baixo |
| Inteligência | Alto |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Muito alto |
| Nível de atividade | Alto |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer o biguá: tamanho, cores e silhueta inconfundível
O biguá adulto é quase todo preto, com reflexos esverdeados nas asas quando visto ao sol. O bico é longo, fino e com a ponta em forma de gancho, ideal para segurar peixes escorregadios.
Mede de 58 a 73 cm e pesa entre 1 e 1,5 kg, com envergadura de 90 a 105 cm. É menor e mais leve que o biguá-de-penacho da Patagônia, com quem às vezes é confundido no sul.
Três detalhes entregam a identificação mesmo de longe:
- Pele nua amarela ao redor do bico e na garganta, bem visível.
- Olhos verde-azulados ou turquesa, muito claros nos adultos.
- Cauda longa e pescoço em forma de S quando em voo, diferente de patos e garças.
Filhotes e jovens são marrom-acinzentados com barriga mais clara, e só ficam totalmente pretos após a primeira muda completa. Em voo, o biguá mantém o pescoço esticado e bate as asas de forma rápida e contínua.
Onde vive o biguá no Brasil e nas Américas
O biguá é uma das aves aquáticas de maior distribuição nas Américas. Ocorre do Texas e Louisiana, nos Estados Unidos, até o Cabo Horn, no Chile e Argentina, passando por todo o Brasil.
Aqui ele está em todos os biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. É tão adaptável que colonizou represas urbanas como a Billings e o Guarapiranga, em São Paulo, e o Lago Paranoá, em Brasília.
Prefere águas calmas e rasas com poleiros por perto: troncos, pedras, postes e até boias. Você o encontra em rios, lagoas, açudes, estuários, manguezais e ao longo da costa, mas evita mar aberto.
É parcialmente migratório no extremo sul e no extremo norte da distribuição, mas na maior parte do Brasil é residente o ano todo. Em áreas alagáveis como o Pantanal, desloca-se conforme o nível da água.
O que o biguá come e como ele pesca mergulhando
A dieta é essencialmente piscívora. No Brasil consome principalmente lambaris, tilápias, traíras pequenas, muçuns e peixes invasores abundantes em represas.
Complementa com crustáceos, girinos, rãs, insetos aquáticos e, ocasionalmente, pequenas serpentes d’água. Não é seletivo: pega o que for mais abundante e fácil de capturar no local.
A técnica de pesca é toda subaquática. Ele mergulha com um impulso, nada com os pés palmados e persegue o peixe debaixo d’água, usando as asas semiabertas como leme. Um mergulho dura em média 20 a 60 segundos e pode chegar a 8 a 10 metros de profundidade.
Diferente de patos, suas penas não são totalmente impermeáveis. Isso reduz a flutuabilidade e ajuda a afundar rápido, mas o obriga a sair da água para secar. Por isso é tão comum vê-lo com as asas abertas.
Comportamento social e o famoso hábito de secar as asas ao sol
O biguá é extremamente sociável. Vive, pesca e dorme em bandos que podem ter de dezenas a milhares de indivíduos, e forma dormitórios coletivos em árvores à beira d’água.
O comportamento mais famoso é secar as asas. Após mergulhar, ele pousa em local exposto e abre as asas como um leque, imóvel por minutos. Isso seca a plumagem, regula a temperatura e ajuda a eliminar parasitas.
Essa postura também tem função social: em colônias, abrir as asas sinaliza dominância e marca território no poleiro. É um dos melhores marcadores para identificar a espécie a distância.
Em voo, desloca-se em formação em V ou em fila, com o pescoço esticado e batimentos rápidos. Na água, nada com o corpo bem submerso, deixando só pescoço e cabeça de fora, o que já gerou o apelido de “pato-serpente” em algumas regiões.
Canto e comunicação: por que o biguá é quase silencioso
Fora da época reprodutiva, o biguá é uma ave silenciosa. Adultos em alimentação quase não vocalizam, o que surpreende quem espera um canto elaborado.
Quando vocaliza, emite grasnados roucos, coaxados guturais e estalos de garganta. O som é baixo e áspero, audível apenas a curta distância.
A colônia na época de ninhos é outra história. Machos fazem exibições com estalos de bico, sacudidas de cabeça e vibração da bolsa gular amarela para atrair fêmeas. Filhotes pedem comida com piados agudos e insistentes que deixam a colônia bem barulhenta.
A comunicação visual pesa mais que a vocal. Posturas de ameaça com asas entreabertas, reverências e o balançar do pescoço são centrais nas disputas por poleiro e parceiro.
Reprodução, ninhos e filhotes: colônias barulhentas e fedidas
O biguá nidifica em colônias mistas, muitas vezes junto com garças, socós e colhereiros, sobre árvores ou arbustos alagados e ilhas. A escolha de local isolado pela água reduz a predação.
O ninho é uma plataforma rústica de gravetos, forrada com folhas e algas, construída por ambos os pais. Com o uso contínuo e o acúmulo de fezes, a árvore pode morrer e ficar completamente branca e sem folhas.
A postura é de 3 a 4 ovos azul-esverdeados cobertos por uma camada calcária esbranquiçada. A incubação dura cerca de 25 a 28 dias, com revezamento do casal.
Os filhotes nascem nus e cegos, e são alimentados com peixe regurgitado diretamente dentro da garganta. Ficam no ninho por cerca de 5 a 6 semanas e começam a voar com 10 a 12 semanas, mas continuam dependendo dos pais por mais tempo.
No Brasil, a reprodução pode ocorrer o ano todo conforme a oferta de alimento, com pico na estação seca, entre agosto e novembro na maior parte do Sudeste e Centro-Oeste, quando o nível da água baixa e os peixes ficam concentrados.
Biguá pode ser criado em casa? Legalidade e por que não é pet
Não. O biguá é ave silvestre nativa e protegida por lei. Capturar, manter em cativeiro, comprar ou vender sem autorização do IBAMA ou órgão estadual é crime ambiental (Lei 9.605/98).
Não existe criação legalizada para pet. Diferente de calopsita ou canário-da-terra, o biguá não se adapta a gaiolas ou viveiros domésticos: precisa de grandes corpos d’água, pesca peixes vivos diariamente e vive em colônias.
Além disso, tem odor forte devido à dieta piscívora e às fezes muito ácidas, é arisco ao contato humano e pode infligir bicadas dolorosas com o bico em gancho. Centros de reabilitação só o mantêm temporariamente para soltura.
Se encontrar um filhote caído ou ave ferida, não tente criar. Acione o órgão ambiental local, Polícia Ambiental ou CETAS. A melhor forma de ter contato é pela observação na natureza, com binóculos, mantendo distância de ninhos e dormitórios.
Conservação, ameaças e como não confundir o biguá
O biguá é classificado como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população grande e em expansão em várias regiões. No Brasil é uma das aves aquáticas mais abundantes.
Essa abundância não significa ausência de ameaças. As principais são contaminação da água por agrotóxicos e metais pesados, que se acumulam nos peixes, redes de pesca onde se afoga, perseguição de pescadores que o veem como competidor e destruição de áreas úmidas.
Por outro lado, a construção de represas e açudes criou novos habitats artificiais que favoreceram a espécie em áreas urbanas, onde quase não tem predadores naturais.
Erros comuns de identificação:
- Biguá x pato-mergulhão (Mergus octosetaceus): o pato-mergulhão é muito mais raro, tem topete e bico serrilhado vermelho, vive só em rios de cabeceira limpos do Cerrado e Mata Atlântica.
- Biguá x anhinga (Anhinga anhinga): a anhinga tem pescoço ainda mais longo e fino, bico reto em forma de punhal e cauda muito longa; também seca as asas, mas nada com o corpo ainda mais submerso.
- Biguá x corvo-marinho-de-orelha: espécie norte-americana ausente no Brasil.
Na nossa avaliação, o biguá é a melhor porta de entrada para quem quer começar a observar aves aquáticas no Brasil: é comum, fácil de identificar pelo hábito de secar as asas e tolera a presença humana mais que qualquer outra ave mergulhadora nativa.
Perguntas frequentes
Biguá é pato?
Não. Apesar de nadar e mergulhar, é um cormorão da família Phalacrocoracidae, parente dos atobás, não dos patos (Anatidae).
Por que o biguá fica com as asas abertas?
Para secar as penas, que não são totalmente impermeáveis, além de regular a temperatura e sinalizar dominância no poleiro.
Quanto tempo o biguá fica embaixo d'água?
Em média 20 a 60 segundos por mergulho, podendo chegar a 8 a 10 metros de profundidade para perseguir peixes.
Onde encontrar biguá no Brasil?
Em todo o país, em rios, lagoas, represas urbanas, manguezais e litoral. É a ave aquática mais comum em centros urbanos.
Biguá pode ser criado em casa?
Não. É ave silvestre protegida por lei; manter ou comprar sem autorização do IBAMA é crime ambiental e ele não se adapta a gaiolas.
Qual a diferença entre biguá e anhinga?
A anhinga tem pescoço mais fino e longo, bico reto em forma de punhal e cauda mais longa; o biguá tem bico em gancho e corpo mais robusto.
O biguá está ameaçado de extinção?
Não. É classificado como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, com população grande e estável, embora sofra com poluição e redes de pesca.
Fatos surpreendentes sobre o biguá
Penas que encharcam de propósito
As penas do biguá absorvem água porque sua glândula uropigial produz pouca cera impermeabilizante. Isso o faz afundar com menos esforço e mergulhar mais rápido que patos.
Olhos que enxergam debaixo d'água
Ele tem membrana nictitante transparente que funciona como óculos de mergulho e lente adaptada para corrigir a refração da água, permitindo focar o peixe em movimento.
Árvores branqueadas pelas fezes
Colônias ativas depositam tanto guano ácido que matam a vegetação onde nidificam. De longe, a árvore fica branca e sem folhas, marca visível de um ninhal.
Nome que mudou de gênero
Até 2021 era Phalacrocorax brasilianus. Estudos genéticos o transferiram para Nannopterum brasilianum, mesmo gênero do cormorão-de-orelha da América do Norte.









