Galeria superficial da paquinha em solo de canteiro

Paquinha: como identificar, danos no jardim e como eliminar a praga

Quem já viu mudas tombarem de um dia para o outro, com a raiz roída e pequenos túneis marcando o canteiro, talvez tenha encontrado a paquinha: um inseto pardo-escuro e parrudo, com patas dianteiras largas como pás, que parece um cruzamento entre grilo e toupeira.

A paquinha (Neocurtilla hexadactyla) mede cerca de 30 mm quando adulta e passa quase toda a vida debaixo da terra, em galerias rasas que ela mesma escava. É nativa das Américas e aparece em hortas, sementeiras, viveiros e lavouras de feijão, arroz e tomate.

A dificuldade de quem convive com ela é que o inseto quase nunca aparece à luz do dia: o que se vê é o estrago. A dúvida mais comum é como ter certeza de que o culpado é mesmo a paquinha e como controlá-la sem espalhar veneno pelo quintal.

Em poucas linhas, o que você precisa saber sobre a paquinha:

  • É um grilo-toupeira de cerca de 30 mm, pardo-escuro, com patas dianteiras em forma de pá, que vive em galerias no solo.
  • O dano mais sério ocorre em mudas e plantas jovens, porque o inseto rói raízes, tubérculos e a base do caule.
  • O sinal mais característico são pequenos túneis superficiais no solo e mudas que tombam sem motivo aparente.
  • Dá para confirmar a presença em poucos minutos com o teste da água com detergente sobre um trecho de canteiro com túneis.
  • Prevenir, com inspeção nas primeiras semanas e menos luz à noite perto dos canteiros, rende mais do que tentar eliminar a praga depois que ela se instalou.
  • Para controlar, combine manejo do solo e catação; se precisar de produto, use apenas os registrados para a cultura e com orientação de um engenheiro agrônomo.

O que é a paquinha?

A paquinha é o nome popular de Neocurtilla hexadactyla, espécie que fichas mais antigas registram como Gryllotalpa hexadactyla. Pertence à família Gryllotalpidae, da ordem Orthoptera, a mesma dos grilos e gafanhotos, e por isso circula também como grilo-toupeira e cachorrinho-d’água.

O nome engana: ela não tem parentesco com a toupeira, o mamífero. A semelhança está nas patas dianteiras, alargadas e adaptadas para cavar. Em inglês, mole cricket reúne essa espécie nativa e duas do gênero Scapteriscus, trazidas da América do Sul para os Estados Unidos no início do século XX, que são as grandes pragas de gramados por lá.

Por isso, boa parte do material estrangeiro sobre “mole crickets” trata de outras espécies. No Brasil, a paquinha é a que aparece em publicações da Embrapa como praga de sementeiras, viveiros e culturas como feijão-caupi, arroz e tomate.

Paquinha adulta sobre solo úmido de horta, mostrando as patas dianteiras em forma de pá

Como identificar a paquinha: tamanho, cor e patas

O adulto mede cerca de 30 mm e tem coloração pardo-escura. O tórax é alargado e endurecido, a cabeça é pequena em relação ao corpo e as ninfas, menores, ainda não têm asas desenvolvidas.

O detalhe que separa a espécie das demais é a pata dianteira: a tíbia da paquinha tem quatro dentes em forma de leque, fixos e sem movimento. As espécies introduzidas nos Estados Unidos, do gênero Scapteriscus, têm apenas dois.

Na prática, revire a terra úmida do canteiro durante o dia, onde o inseto se esconde, e fotografe as patas de perto com o celular. Se o corpo é robusto, as patas são em pá e a terra tem túneis rasos ao redor, a identificação está praticamente fechada.

Detalhe das patas dianteiras da paquinha usadas para escavar

Como diferenciar a paquinha de outras pragas do solo

Muda cortada na altura do colo, com uma larva gorda que se enrola em “C” quando você mexe na terra, indica lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), não paquinha. Já larvas finas e esbranquiçadas raspando raízes apontam para a larva-alfinete, fase jovem da vaquinha.

A larva-arame é alongada, rígida e amarelada, e perfura raízes e tubérculos sem abrir galerias visíveis na superfície. A paquinha se denuncia justamente por essas galerias: túneis rasos, sinuosos, que levantam levemente a terra.

Confundir as pragas leva a controles errados. Antes de agir, procure o inseto na terra úmida junto às plantas afetadas e, se houver dúvida, leve uma amostra ao escritório local de extensão rural ou a um agrônomo.

Comparação entre paquinha, lagarta-rosca e larva-arame em canteiro

Onde a paquinha vive e como é o seu ciclo de vida

A paquinha passa quase todo o ciclo de vida sob a terra. Ovos e ninfas se desenvolvem no solo e o tamanho dos túneis cresce junto com o inseto: ninfas jovens fazem galerias finas, adultos abrem túneis mais largos.

É um inseto de hábitos noturnos e atraído por luz, o que explica por que adultos aparecem em varandas e junto a postes. Em espécies parentes estudadas na Flórida, o ciclo completo ocorre em uma a duas gerações por ano, dependendo da espécie e do clima.

Os adultos costumam ser encontrados nas mesmas áreas ano após ano. Por isso, um canteiro que teve problemas na safra passada merece vigilância redobrada no próximo plantio.

Galeria superficial da paquinha em solo de canteiro

Quais plantas a paquinha mais ataca?

É uma praga polífaga, ou seja, não escolhe uma única planta. Fichas técnicas listam entre as hospedeiras abóbora, alface, berinjela, brócolis, cebola, couve, couve-flor, espinafre, feijão, jiló, milho, pepino, repolho, tomate, fumo, graviola e rosa, além do arroz.

Em lavouras de feijão-caupi, o ataque se concentra na fase vegetativa, entre 6 e 35 dias após a emergência, quando a planta ainda tem pouca raiz. Em viveiros de espécies florestais e em sementeiras de hortaliças, a paquinha também é praga conhecida.

Em canteiros ornamentais, o risco maior é para mudas recém-transplantadas, como as de rosa. Plantas adultas com sistema radicular bem formado costumam suportar melhor a presença do inseto.

Mudas de hortaliças em canteiro com sinais de ataque de paquinha

Quais danos a paquinha causa no jardim e na horta?

A paquinha se alimenta de raízes, tubérculos e da parte aérea de plantas novas. Em mudas, o resultado é direto: sem raiz, a planta murcha, tomba e morre em poucos dias.

Os túneis também prejudicam. Ao revolver a terra, eles quebram o contato das raízes com o solo e fazem o canteiro secar mais rápido, o que agrava o estresse das plantas que sobreviveram.

Em áreas de plantio direto e semeadura mecanizada, falhas repetidas na linha são o primeiro alerta. Em gramados, a espécie nativa costuma causar menos prejuízo do que os grilos-toupeira introduzidos nos Estados Unidos, mas pode deixar manchas secas onde há muitos túneis.

Falhas em linha de plantio causadas por paquinha

Sinais no jardim: o que cada dano indica

Nem todo sintoma de raiz comprometida é paquinha. A tabela abaixo junta os sinais mais comuns no canteiro com a causa provável e a ação mais indicada, para você decidir o que fazer antes de aplicar qualquer produto.

Sinal Causa provável O que fazer
Túneis rasos e sinuosos levantando a terra Galerias de deslocamento e alimentação da paquinha Fazer o teste do detergente no trecho antes de tratar
Muda que sai do chão sem resistência, sem raízes Raízes roídas ou cortadas Retirar a muda, inspecionar o torrão e replantar só depois de tratar o canteiro
Raízes e tubérculos com marcas de mastigação Alimentação direta no sistema radicular Colher o que estiver aproveitável e inspecionar a área vizinha
Falhas na linha de plantio entre 6 e 35 dias Ataque na fase mais frágil da planta Replantar e reforçar a vigilância diária
Insetos escuros voando ao redor de lâmpadas à noite Adultos atraídos pela luz Afastar ou apagar a iluminação perto dos canteiros

Canteiro com túneis e plantas murchas indicando ataque de paquinha

Por que a paquinha aparece no seu canteiro?

A luz noturna é um dos principais atrativos. Lâmpadas acesas perto de hortas e jardins atraem adultos em voo, que acabam pousando e escavando na área iluminada.

O solo úmido e quente também pesa: a atividade de alimentação aumenta em períodos de calor com chuva. Canteiros irrigados com frequência oferecem justamente esse ambiente, com terra solta e fácil de escavar.

Por fim, há o histórico da área. Como o inseto tende a reaparecer nos mesmos locais, canteiros que já sofreram ataque têm mais chance de sofrer de novo, mesmo depois de meses sem sinais.

Horta irrigada à noite com iluminação próxima aos canteiros

Como confirmar que é paquinha: o teste do detergente

O teste é simples e rápido. Dissolva algumas colheres de sopa de detergente neutro em um regador de cerca de 8 a 10 litros de água e despeje sobre um trecho de aproximadamente 1 m² em que haja túneis.

Em poucos minutos, a solução irrita os insetos e eles sobem à superfície, onde podem ser contados e identificados. Faça o teste em solo descoberto ou longe das mudas e, depois, regue com água limpa para enxaguar o detergente.

Se aparecerem várias paquinhas em um único metro quadrado, a infestação é relevante e o canteiro merece tratamento. Se aparecer nenhuma ou uma, o problema pode ser outra praga.

Regador despejando água com detergente sobre trecho de canteiro para testar a presença de paquinha

Como eliminar a paquinha: métodos que funcionam

O controle eficiente combina várias frentes. Nenhuma sozinha resolve uma infestação estabelecida, mas juntas reduzem a população e protegem as plantas na fase mais vulnerável.

Como reduzir a população com manejo do solo e da luz?

Revolver o canteiro com enxada antes do plantio destrói galerias e expõe ovos e ninfas ao sol e a predadores. Apagar ou afastar a iluminação externa próxima à horta reduz a chegada de adultos. Em áreas com histórico de ataque e semeadura mecanizada, a Embrapa indica adensar o plantio para compensar as plantas perdidas.

Como fazer a catação manual depois do teste?

O teste do detergente leva os insetos à superfície, e esse é o melhor momento para recolhê-los com luvas e descartá-los. A catação é viável em hortas domésticas e canteiros pequenos, e deve ser repetida a cada nova suspeita, porque novos adultos podem chegar.

Quando usar produtos e quais cuidados tomar?

A Embrapa cita produtos registrados no Ministério da Agricultura para o controle da paquinha em culturas como o feijão-caupi, e a aplicação no sulco de plantio é tratada como medida preventiva em áreas com histórico. Verifique sempre se o produto tem registro para a sua cultura e siga a orientação de um engenheiro agrônomo, principalmente em hortas onde o alimento será consumido.

Mão com luva recolhendo paquinha no canteiro

Inimigos naturais e controle biológico da paquinha

O controle biológico mais estudado em grilos-toupeira usa nematoides entomopatogênicos. O Steinernema scapterisci, nativo da América do Sul e encontrado originalmente no Brasil, Uruguai e Argentina, foi levado à Flórida em 1985 e é eficiente contra mole crickets do gênero Scapteriscus.

Pesquisas indicam que esse nematoide também infecta a espécie nativa Neocurtilla hexadactyla, que ainda tem um nematoide próprio, o Steinernema neocurtillis. A eficácia contra a paquinha em hortas domésticas, porém, é menos documentada do que contra as espécies pragas dos gramados norte-americanos.

Antes de comprar qualquer produto à base de nematoides, confirme se ele tem registro para uso no Brasil e se a bula inclui grilo-toupeira entre os alvos. Em caso de dúvida, converse com um agrônomo ou com a extensão rural da sua região.

Nematoides emergindo de um inseto parasitado no solo

Como prevenir a paquinha no jardim e na horta

Prevenção custa menos do que reconstruir um canteiro. O foco é reduzir atrativos e detectar o problema nos primeiros dias, quando as mudas ainda podem ser salvas ou replantadas sem grande perda.

A tabela reúne as ações mais úteis, com a forma de executar e a frequência recomendada.

Ação Como fazer Frequência
Inspecionar canteiros e sementeiras Procurar túneis rasos e mudas tombadas, de preferência pela manhã Diariamente entre 6 e 35 dias após a emergência
Reduzir a luz noturna Afastar ou apagar lâmpadas próximas aos canteiros Toda noite, principalmente em períodos quentes e úmidos
Revolver o solo antes de plantar Usar enxada para quebrar galerias e expor ovos e ninfas A cada novo plantio
Fazer o teste do detergente Aplicar em 1 m² com túneis visíveis Sempre que surgir um sinal suspeito
Registrar áreas atacadas Anotar os canteiros com histórico para vigiar mais de perto A cada safra ou ciclo de cultivo

Horta organizada com canteiros bem preparados para prevenir paquinha

Mudas e sementeiras: como proteger a fase mais vulnerável

É nas sementeiras e nos primeiros 35 dias de campo que a paquinha causa o maior prejuízo, por isso essa fase merece atenção específica.

Produzir mudas em bandejas apoiadas em bancadas, com substrato comercial, reduz o contato com o solo onde o inseto escava. Na hora de transplantar, escolha canteiros que já passaram pelo teste do detergente e tenham sido revolvidos.

Se o canteiro tem histórico, vale reservar algumas mudas extras. Assim, falhas na linha podem ser repostas rapidamente sem comprometer o espaçamento da cultura.

Bandejas de mudas elevadas em bancada de viveiro

Vale a pena investir no controle da paquinha?

Sim, principalmente se você planta mudas, sementeiras ou hortaliças em áreas com histórico de ataque. A paquinha é discreta, mas o prejuízo se acumula rapidamente quando as raízes de plantas jovens são atingidas.

O caminho mais seguro combina inspeção cedo, teste do detergente, menos luz noturna, manejo do solo e, se necessário, produtos registrados com orientação técnica. Isso protege a horta e evita aplicações desnecessárias.

Horta saudável livre de paquinha

Perguntas frequentes sobre a paquinha

Posso usar a isca de farelo com inseticida que vi na internet?

Fichas antigas descrevem uma isca com farelo de trigo, açúcar ou melaço e um inseticida carbamato. Muitos carbamatos hoje têm uso restrito ou foram proibidos no Brasil, e preparar isca tóxica em casa expõe pessoas, animais e a horta.

Prefira o manejo do solo, a catação e produtos registrados indicados por agrônomo.

A paquinha ataca plantas em vasos?

O risco maior é em canteiros e em vasos preenchidos com terra de quintal sem tratamento, que pode trazer o inseto junto. Vasos com substrato comercial novo e colocados em bancadas têm menos chance de abrigá-lo.

A paquinha volta depois de eliminada?

Pode voltar. Adultos chegam atraídos pela luz e o inseto tende a reaparecer nas mesmas áreas. Por isso, a vigilância contínua e a redução da iluminação noturna fazem parte do controle.

Qual é a melhor época para controlar a paquinha?

O melhor momento é quando os insetos ainda são ninfas pequenas, antes de causarem grandes danos. Em lavouras como o feijão-caupi, a atenção deve ser redobrada na fase de 6 a 35 dias após a emergência.

A paquinha estraga gramados?

A espécie nativa costuma causar menos dano em gramados do que os grilos-toupeira introduzidos nos Estados Unidos, mas pode deixar manchas secas onde os túneis são numerosos. Em áreas de grama, o teste do detergente confirma a espécie antes de qualquer tratamento.

A paquinha é parente do grilo comum?

Sim, ambos pertencem à ordem Orthoptera. A paquinha é da família Gryllotalpidae e o grilo-doméstico (Acheta domestica) é da família dos grilídeos. Estudos mostram que o nematoide Steinernema scapterisci infecta os dois grupos, o que mostra o parentesco entre eles.

Jardineiro inspecionando canteiro em busca de sinais de paquinha

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