Resumo
- A cigarrinha-do-campo é um pássaro campestre de 13 cm, com dorso marrom estriado e mancha amarela entre o bico e os olhos, que vive no chão de cerrados e pastagens.
- Seu canto é extremamente fino e agudo, semelhante ao de uma cigarra, e é a forma mais fácil de detectá-la, já que ela se esconde bem no capim.
- Faz ninho no solo, alimenta-se de sementes de gramíneas e pequenos insetos e é classificada como Pouco Preocupante, apesar da perda de campos nativos.
Características
Ficha da espécie
| Família | Passerellidae |
|---|---|
| Origem e distribuição | América do Sul; do norte da Colômbia e Venezuela ao centro da Argentina |
| Habitat | Campos naturais, cerrado ralo, pastagens e áreas agrícolas abertas |
| Tamanho (comprimento) | 11 a 13 cm |
| Envergadura | 18 a 21 cm |
| Peso | 16 a 19 g |
| Cores | marrombegecinzaamarelobranco |
| Expectativa de vida | 3 a 5 anos na natureza |
| Alimentação | Granívora e insetívora |
| Canto | Trinado agudo e contínuo, tipo 'tssssss', semelhante a inseto |
| Reprodução (ninho e ovos) | Ninho em taça no solo; 2 a 4 ovos brancos com manchas marrons |
| Comportamento social | Solitária ou em casal; discreta e terrícola |
| Variedades ou subespécies | 3 a 4 subespécies reconhecidas |
Perfil e comportamento
| Sociabilidade | Baixo |
|---|---|
| Intensidade do canto | Baixo |
| Inteligência | Médio |
| Facilidade de criação | Muito baixo |
| Necessidade de espaço | Alto |
| Nível de atividade | Médio |
| Capacidade de imitar sons | Muito baixo |
Como reconhecer a cigarrinha-do-campo: tamanho, cores e marcas inconfundíveis
A cigarrinha-do-campo é pequena, com 11 a 13 cm e 16 a 19 g, do tamanho de um tico-tico jovem. O corpo é compacto, com cauda curta, bico cônico e pernas rosadas, adaptadas para andar no chão.
O que realmente a identifica é a combinação de plumagem críptica com um detalhe de cor. O dorso é marrom com estrias pretas e beges, que a camufla no capim seco. O peito e a barriga são cinza-claro a bege sem estrias, e a face tem duas marcas-chave: sobrancelha cinza-clara e uma mancha amarela intensa entre o bico e o olho, chamada área supraloral.
Em voo curto e baixo, mostra um flash de penas externas da cauda mais claras. Jovens são mais estriados no peito e têm menos amarelo na face, o que confunde iniciantes com o tico-tico-do-campo-verdadeiro. A diferença é que a cigarrinha tem bico menor, canto totalmente distinto e não forma bandos grandes.
Onde vive e onde encontrar no Brasil
É uma das aves campestres mais amplamente distribuídas do país. Ocorre em praticamente todo o Brasil, exceto no interior mais denso da Amazônia, e segue por Colômbia, Venezuela, Guianas, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina.
Seu habitat preferido é o campo aberto: cerrado ralo, campo sujo, campo limpo, pastagens nativas e até áreas agrícolas, beiras de estrada e aeroportos com gramíneas. Evita mata fechada e áreas urbanas densas. Precisa de capim de altura média a baixa, onde possa correr escondida.
É residente e não migratória na maior parte da distribuição, fazendo apenas deslocamentos locais conforme a oferta de sementes e a queima do capim. Em regiões de Cerrado e Pampa é fácil de encontrar pousada em mourões, arames ou no topo de arbustos baixos ao amanhecer.
O canto que parece de inseto: como identificar pelo som
O nome popular não engana. O canto é um trinado finíssimo, agudo e contínuo, do tipo “tssssssss- tsi-tsi”, tão semelhante ao de uma cigarra ou grilo que muitos observadores passam direto. É um dos cantos mais ventríloquos entre os pássaros brasileiros, difícil de localizar.
O macho canta empoleirado em um ponto exposto, geralmente no início da manhã e no fim da tarde. A função é territorial e de atração da fêmea. Diferente de canários e sabiás, o volume é baixo e de curta distância, audível a até 30 ou 40 metros em campo silencioso.
Para quem está começando na observação, a dica é aprender o canto antes da plumagem. Grave o som e compare com o do grilo-de-campo: a cigarrinha tem notas mais metálicas e um leve decréscimo no final. Ela também emite um chamado curto “tick” quando alarmada no chão.
O que a cigarrinha-do-campo come
A dieta é mista e muda com a estação. Na base estão sementes de gramíneas nativas, como capim-flexa, capim-barba-de-bode e braquiárias, coletadas diretamente no solo. No período reprodutivo, aumenta muito o consumo de proteína animal.
Nessa fase, captura pequenos insetos, larvas, aranhas e cupins, essenciais para alimentar os filhotes. Forrageia andando rápido entre as touceiras, com a cabeça baixa, bicando no chão como um camundongo. Raramente sobe em arbustos para se alimentar.
- Principal: sementes de capins e ervas campestres
- Complemento na seca: sementes caídas de plantas cultivadas em bordas de lavoura
- Na reprodução: gafanhotos pequenos, besouros, lagartas e formigas
Essa dependência de sementes nativas explica por que ela sofre com a substituição do campo por monocultura intensiva e com o uso excessivo de herbicidas.
Comportamento discreto e vida no chão
É uma ave terrícola e extremamente arisca. Prefere correr entre o capim a voar. Quando se sente ameaçada, agacha-se e fica imóvel, confiando na camuflagem, e só levanta voo no último segundo, em voo baixo e ziguezagueante por poucos metros.
Vive solitária ou em casal durante a reprodução e, fora dela, em pequenos grupos familiares de 3 a 5 indivíduos. Não forma bandos grandes como o tico-tico. É territorial: o macho defende ativamente uma área de poucos hectares com canto e voos de exibição curtos.
Outro traço marcante é o banho de sol e de poeira. Ao meio-dia, é comum vê-la se espojando em clareiras de terra seca para controlar parasitas. À noite, dorme no chão, escondida sob touceiras.
Reprodução, ninho no solo e filhotes
A estação reprodutiva no Brasil central vai de outubro a fevereiro, coincidindo com as chuvas e a maior oferta de insetos. Em regiões mais ao sul, pode se estender até março.
O ninho é um dos mais bem escondidos do campo. É uma taça rasa feita de capim seco, raízes e fibras, forrada com material mais fino, construída diretamente no solo, sob uma touceira ou pequeno arbusto, às vezes com uma cobertura parcial de capim que forma um teto. Isso a protege de predadores e do sol forte.
A fêmea põe 2 a 4 ovos brancos com pintas e manchas marrons e cinzas, incubados por cerca de 12 a 14 dias principalmente por ela. Os filhotes nascem com penugem escassa, olhos fechados e são alimentados por ambos os pais com insetos. Saem do ninho com 9 a 11 dias, ainda incapazes de voar bem, e seguem os pais no capim por mais duas semanas.
Como diferenciar o ninho de outras aves campestres
Diferente do tico-tico, que faz ninho em arbustos, e da codorna, que faz depressão sem forro, a cigarrinha sempre forra bem o ninho e escolhe locais com capim de 30 a 50 cm. A proximidade com o solo a torna vulnerável a pisoteio de gado, fogo e roçadeiras.
É possível ter cigarrinha-do-campo em casa? Legalidade e cuidados
Não. A cigarrinha-do-campo é uma ave silvestre nativa e sua captura, transporte, criação ou venda sem autorização é crime ambiental previsto na Lei 9.605/98. Não existe criação comercial legalizada como há para canário-da-terra ou periquito.
O IBAMA e os órgãos estaduais só autorizam a manutenção de fauna silvestre para criadores e mantenedores com registro, projeto técnico e anilhas, e a espécie não está entre as liberadas para iniciantes. Aves apreendidas do tráfico raramente se adaptam ao cativeiro e morrem por estresse.
Para quem gosta da espécie, a forma correta de conviver é observando e fotografando em campo, preservando áreas de campo nativo e denunciando a captura ilegal. Em cativeiro, ela não canta como na natureza, exige dieta muito específica de sementes nativas e insetos vivos e sofre com o confinamento por ser terrícola.
Estado de conservação e principais ameaças
Globalmente, a espécie é classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, por ter distribuição muito ampla e população considerada estável. No entanto, localmente ela está em declínio onde o campo nativo desaparece.
As maiores pressões são a conversão de campos e cerrado em soja, eucalipto e pastagem exótica, o uso de fogo indiscriminado na época de nidificação e a urbanização de áreas campestres. Como nidifica no chão, perde muitos ninhos para máquinas agrícolas e pisoteio.
Por outro lado, adapta-se bem a pastagens extensivas bem manejadas e a áreas de pousio, o que tem garantido sua permanência em grande parte do Brasil. A manutenção de faixas de capim nativo sem roçada entre outubro e fevereiro é a medida mais eficaz para protegê-la em fazendas.
Subespécies e com quem pode ser confundida
São reconhecidas três a quatro subespécies, que variam sutilmente em tonalidade e tamanho conforme a região. No Brasil predomina Ammodramus humeralis humeralis, mais avermelhada, enquanto formas do norte da América do Sul são mais acinzentadas.
| Espécie parecida | Tamanho | Traço distintivo |
|---|---|---|
| Cigarrinha-do-campo | 11-13 cm | Mancha amarela supraloral viva, peito liso sem estrias |
| Tico-tico-do-campo (Ammodramus aurifrons) | 13 cm | Rosto mais amarelado por completo, ocorre mais na Amazônia |
| Tico-tico (Zonotrichia capensis) | 14-15 cm | Topete listrado preto e branco, canta forte e melodioso |
Na nossa avaliação, a cigarrinha-do-campo é o melhor termômetro de campo saudável: se ela sumiu, o capim nativo já foi descaracterizado. Vale mais como indicadora ambiental do que como ave de gaiola, e seu valor está justamente em ouvi-la livre no amanhecer do cerrado.
Perguntas frequentes
Cigarrinha-do-campo é a mesma coisa que tico-tico?
Não. São espécies diferentes. A cigarrinha (Ammodramus humeralis) é menor, tem peito liso sem estrias e canto fino como inseto, enquanto o tico-tico (Zonotrichia capensis) tem topete listrado e canto melodioso forte.
Onde encontrar cigarrinha-do-campo?
Em campos abertos, cerrado ralo, pastagens e beiras de estrada com capim em quase todo o Brasil. Procure ao amanhecer por um pássaro pequeno cantando no topo de um mourão ou arame.
O que a cigarrinha-do-campo come?
Principalmente sementes de gramíneas nativas e, na época de filhotes, pequenos insetos como gafanhotos, besouros e larvas coletados no chão.
Pode criar cigarrinha-do-campo em gaiola?
Não. É ave silvestre nativa e sua captura e criação sem autorização do IBAMA é crime ambiental. Não há criação comercial legalizada da espécie.
Como é o ninho da cigarrinha-do-campo?
É uma taça rasa feita de capim seco no chão, escondida sob uma touceira, às vezes com um teto de folhas. A fêmea põe de 2 a 4 ovos brancos com manchas marrons.
A cigarrinha-do-campo está ameaçada de extinção?
Não globalmente. É classificada como Pouco Preocupante (LC) pela IUCN, mas sofre localmente com a destruição de campos nativos, fogo e agricultura intensiva.
Você sabia?
Canto ventríloquo
O canto tão fino e agudo da cigarrinha parece vir de outro lugar, o que confunde até observadores experientes. É uma estratégia para que predadores não localizem o macho cantando exposto.
Ninho com teto
Diferente da maioria dos pássaros campestres, ela costuma puxar folhas de capim sobre o ninho, criando uma pequena cobertura que esconde os ovos do sol e de gaviões.
Amarelo que não desbota
A mancha amarela entre o bico e o olho é formada por carotenoides da dieta e é mais viva em machos bem alimentados, funcionando como sinal de saúde na escolha da parceira.
Corre em vez de voar
Quando alarmada, prefere correr como um rato entre as touceiras a voar. Só levanta voo se o observador chegar a menos de 2 metros, o que explica por que é tão difícil de ver.











