🦎 Répteis e Anfíbios

Perereca-gritadeira

Boana crepitans

Atualizado em

3,5 a 5,8 cmTamanho
AnfíbioGrupo
4 a 6 anosExpectativa de vida
Áreas abertas e brejosHabitat
BaixoPerigo
Girinos da perereca-gritadeira em poça temporária rasa

A perereca-gritadeira (Boana crepitans) é um anfíbio — não um réptil — da família Hylidae, muito comum em áreas abertas e urbanas do Brasil. Seu nome popular vem do canto alto, áspero e repetitivo dos machos, que lembra um grito e pode ser ouvido a mais de 300 metros de distância.

De tamanho pequeno a médio, com pele lisa e coloração que varia de creme a marrom-acinzentado, ela se camufla bem em troncos e folhas. É noturna, arborícola e extremamente adaptável, ocupando poças temporárias, brejos e até caixas-d'água e paredes de casas durante a estação chuvosa.

Apesar da pele com secreção levemente irritante, não é considerada perigosa para humanos e tem papel importante no controle de insetos.

Também conhecido como: Perereca-gritadeira, Rã-gritadeira, Jia-gritadeira, Chirping tree frog (inglês), Rana chirriadora (espanhol)

Faz parte de: Anfíbios do Brasil, Sapos, Rãs e Pererecas

Explore a wiki

Galeria de fotos de Perereca-gritadeira

Girinos da perereca-gritadeira em poça temporária rasa
Girinos em desenvolvimento em poça temporária antes da metamorfose.
Filhote recém-metamorfoseado de perereca-gritadeira sobre folha
Juvenil recém-saído da água, com cerca de 15 mm.
Detalhe da pele lisa da perereca-gritadeira com manchas marrons
Pele lisa e úmida, típica de anfíbios hilídeos, com padrão manchado.
Perereca-gritadeira macho cantando com saco vocal inflado sobre vegetação aquática
Macho vocalizando com saco vocal expandido durante coro reprodutivo.
Girinos da perereca-gritadeira em poça temporária rasa
Girinos em desenvolvimento em poça temporária antes da metamorfose.
Filhote recém-metamorfoseado de perereca-gritadeira sobre folha
Juvenil recém-saído da água, com cerca de 15 mm.

Perfil rápido de Perereca-gritadeira

Estado de conservação

LC
Pouco Preocupante

Ampla distribuição e população estável, tolera ambientes alterados.

População
Estável
Protegido por
Não possui proteção específica, mas é protegida pela Lei de Fauna (captura proibida)

Calendário

Reprodução e cantoJFMAMJJASOND
Pico de girinosJFMAMJJASOND
Menor atividade (seca)JFMAMJJASOND

Toxicidade e riscos

  • PetsBaixa - secreção cutânea irritante, pode causar salivação e vômito passageiro se ingerida
  • PessoasBaixa - irritação leve em olhos e mucosas; lavar as mãos após contato

Não é peçonhenta e não possui veneno letal como sapos do gênero Rhinella. Risco maior para o anfíbio se manuseado.

Vida útil

Na natureza
4 a 6 anos; mortalidade alta na fase de girino e juvenil
Em cativeiro
Não há dados consistentes; criação não recomendada e não regularizada no Brasil

Reprodução

Tipo de reprodução
Ovípara com fecundação externa e metamorfose completa
Estação reprodutiva
Estação chuvosa, com pico de outubro a março no Sudeste e Nordeste
Local de desova
Poças temporárias, brejos e lagoas rasas com vegetação marginal
Ovos por postura
400 a 1.200 ovos em massa gelatinosa na superfície da água
Desenvolvimento
Eclosão em 1 a 2 dias; fase de girino 45 a 70 dias até metamorfose

Habitat

Ambientes

  • Poças temporárias e brejos
  • Bordas de mata e capoeiras
  • Áreas abertas e pastagens úmidas
  • Quintais, jardins e áreas urbanas com água parada

Biomas

  • Caatinga
  • Cerrado
  • Mata Atlântica
  • Áreas antropizadas

Detalhes da dieta

Alimento principal

  • Insetos voadores (mosquitos, moscas, mariposas)
  • Besouros e grilos

Outros alimentos

  • Formigas e cupins alados
  • Aranhas pequenas
  • Algas e detritos (girinos)

Encontrado em 6 países

  • Brasil
  • Colômbia
  • Venezuela
  • Panamá
  • Trinidad e Tobago
  • Guiana

Como animal de estimação

Adequação como pet
Não recomendada; anfíbio silvestre sensível e sem manejo doméstico simples
Legalidade no Brasil
Captura na natureza é crime; só seria legal com origem em criadouro autorizado pelo IBAMA, inexistente para a espécie
Nível de cuidado
Alto - exige terrário úmido, controle de temperatura e insetos vivos diariamente

Classificação científica

Reino
Animalia
Filo
Chordata
Classe
Amphibia
Ordem
Anura
Família
Hylidae
Gênero
Boana
Espécie
Boana crepitans (Wied-Neuwied, 1824)

Resumo

  • A perereca-gritadeira é um anfíbio da família Hylidae, não um réptil, identificada pelo canto alto e áspero que dá nome à espécie.
  • Vive em áreas abertas da Caatinga, Cerrado e bordas de Mata Atlântica, com ampla distribuição do Panamá ao Sudeste do Brasil e grande adaptação a ambientes urbanos.
  • É noturna, insetívora e se reproduz em poças temporárias na estação chuvosa, com girinos que passam por metamorfose completa.

Características

Ficha da espécie

GrupoAnfíbio
OrdemAnura
FamíliaHylidae
Origem e distribuiçãoPanamá ao Brasil (do Nordeste ao Sudeste), Trinidad, Venezuela, Colômbia e Guianas
TamanhoMachos 32 a 45 mm; fêmeas 45 a 58 mm
Peso5 a 14 g
Corescremebegecinzamarrom-claromarrom-escuro
HabitatPoças temporárias, brejos, bordas de mata, Caatinga, Cerrado e áreas urbanas
AlimentaçãoInsetívora (mosquitos, besouros, mariposas, grilos)
ReproduçãoOvípara com metamorfose; 400 a 1.200 ovos por desova em água parada
AtividadeNoturna e arborícola
Expectativa de vida4 a 6 anos na natureza
Estado de conservaçãoPouco Preocupante (LC - IUCN)

Perfil e comportamento

Periculosidade para pessoas e petsMuito baixo
Facilidade de criação em cativeiroMuito baixo
Adaptação a casasAlto
Importância para o ecossistemaMuito alto
Sensibilidade a temperatura e umidadeAlto
Vida na águaAlto

Anfíbio ou réptil? Como identificar a perereca-gritadeira

A perereca-gritadeira não é réptil, é anfíbio. Répteis têm pele seca com escamas e ovos com casca; anfíbios têm pele úmida, permeável e sem escamas, dependem da água para reproduzir e passam por metamorfose de girino para adulto.

Boana crepitans mede entre 3,2 e 5,8 cm, com fêmeas visivelmente maiores que machos. O corpo é esguio, com pernas longas e discos adesivos nas pontas dos dedos, típicos de pererecas arborícolas.

A coloração dorsal varia de creme e bege a cinza e marrom-claro, com manchas irregulares marrom-escuras e uma faixa escura que pode cruzar a lateral da cabeça. O ventre é creme ou amarelado, liso e sem manchas. A pele do dorso é lisa, sem as glândulas parotoides grandes dos sapos.

Os olhos são grandes, com íris dourada a bronze e pupila horizontal. Machos em atividade reprodutiva apresentam saco vocal único, grande e amarelado, que infla como um balão ao cantar. É esse canto que não deixa dúvida na identificação.

O canto que dá nome à espécie

O nome gritadeira vem da vocalização. O macho emite uma sequência rápida de notas ásperas, altas e metálicas, descrita como “crek-crek-crek” estridente, repetida por minutos sem pausa.

É um dos cantos mais altos entre as pererecas brasileiras, audível a 300 a 500 metros em noites silenciosas. O coro costuma começar ao entardecer e atinge o pico entre 19h e 2h, principalmente após chuvas.

Cada macho defende um poleiro — galho baixo, taboa ou muro — e canta para atrair fêmeas e afastar rivais. Quando dois machos se aproximam, o canto muda para um chamado territorial mais curto e agressivo, podendo haver empurrões.

Onde vive e distribuição no Brasil

Boana crepitans tem distribuição ampla, do Panamá e Trinidad até o Brasil central e oriental. No Brasil ocorre com mais frequência no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, em estados como Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

Habita Caatinga, Cerrado, bordas de Mata Atlântica e áreas antropizadas. Ao contrário de anfíbios muito exigentes, tolera desmatamento e ambientes urbanos, desde que haja água parada para reprodução.

Durante o dia se esconde em folhagens, bromélias, troncos, telhas e frestas de paredes para evitar desidratação. À noite desce para poças, brejos, lagoas temporárias, açudes e até caixas-d’água, piscinas e vasos de planta.

É uma espécie de baixa altitude, geralmente abaixo de 800 m, mas pode chegar a 1.000 m em áreas serranas. A alta tolerância à seca explica sua presença na Caatinga, onde se abriga enterrada ou em ocos durante estiagens.

O que a perereca-gritadeira come

É estritamente insetívora. Caça à espera, imóvel na vegetação, e captura a presa com a língua projetável.

  • Base da dieta: mosquitos, pernilongos, moscas, besouros pequenos, mariposas e grilos
  • Outros itens: formigas, cupins alados em revoada e aranhas pequenas
  • Girinos: raspam algas, detritos vegetais e micro-organismos na água

Um adulto pode consumir dezenas de insetos por noite, o que a torna aliada natural no controle de mosquitos. Não se alimenta de frutas, ração ou folhas — erro comum quando tentam mantê-la em casa.

Reprodução, ovos e metamorfose

A reprodução é sazonal e explosiva, concentrada na estação chuvosa. Machos formam coros em poças temporárias e cantam em conjunto para atrair fêmeas.

Após o amplexo axilar, a fêmea deposita 400 a 1.200 ovos envoltos em massa gelatinosa na superfície da água parada. Os ovos são pequenos, escuros no polo superior e claros no inferior.

A eclosão ocorre em 24 a 48 horas. Os girinos são bentônicos, de cor marrom-acinzentada, com cauda musculosa e podem atingir 35 a 42 mm no total. A metamorfose leva 45 a 70 dias, dependendo da temperatura e da permanência da poça.

Se a poça seca antes da metamorfose, toda a desova se perde — por isso a espécie prefere poças que duram pelo menos dois meses. Após a metamorfose, os imagos de 12 a 15 mm deixam a água e sobem para a vegetação.

Comportamento e hábitos noturnos

É noturna e arborícola, mas desce ao chão para reproduzir. Fora da época reprodutiva, machos e fêmeas são solitários e silenciosos.

Possui alta fidelidade ao local de canto: o mesmo macho pode voltar à mesma poça por várias noites seguidas. Em noites secas e frias, a atividade cai drasticamente.

A pele permeável a torna muito sensível à desidratação e à poluição. Por isso, mesmo sendo adaptável, desaparece de locais com água contaminada por agrotóxicos ou esgoto.

É venenosa ou perigosa para pessoas, cachorros e gatos?

A perereca-gritadeira não é peçonhenta e não morde. Como todo anfíbio, possui glândulas na pele que liberam secreção levemente irritante para afastar predadores.

Para humanos, o risco é muito baixo: apenas irritação leve se a secreção atingir olhos ou boca. Lavar as mãos após manusear qualquer anfíbio é suficiente. Nunca leve as mãos aos olhos antes de lavar.

Para cachorros e gatos, o risco também é baixo, diferente do sapo-cururu. Se um cachorro morder ou lamber a perereca, pode haver salivação, náusea e vômito passageiro por irritação da mucosa, mas sem risco de morte como ocorre com sapos do gênero Rhinella. Se o pet apresentar vômito persistente, leve ao veterinário e lave a boca com água corrente.

O maior perigo é para a própria perereca: manuseio excessivo remove a camada de muco protetora e pode causar infecções. Observe sem tocar.

Pode criar como pet? Legalidade no Brasil

Não é recomendada como pet. Anfíbios exigem controle rigoroso de umidade, temperatura e qualidade da água, além de alimentação com insetos vivos.

No Brasil, capturar animais silvestres na natureza é crime ambiental (Lei 9.605/98). A criação só é legal se o animal vier de criadouro autorizado pelo IBAMA, o que é extremamente raro para Boana crepitans — não há comércio regularizado para esta espécie.

Manter uma perereca-gritadeira em aquário doméstico sem licença, mesmo com boa intenção, é ilegal e quase sempre resulta em morte do animal por manejo inadequado. A melhor forma de ajudar é preservar poças e brejos e evitar o uso de venenos no quintal.

Papel no ecossistema e estado de conservação

É um predador importante de insetos e, na fase de girino, ajuda a controlar algas e serve de alimento para peixes, aves e serpentes. Adultos são presas de cobras, corujas e morcegos.

Por ser sensível à qualidade da água, funciona como bioindicador: sua presença indica ambiente relativamente saudável; seu sumiço alerta para contaminação ou drenagem de áreas úmidas.

A IUCN classifica Boana crepitans como Pouco Preocupante (LC), com população estável e ampla distribuição. Ainda assim, sofre com drenagem de brejos, poluição, atropelamentos e uso de agrotóxicos. No Brasil, o declínio global de anfíbios por quitridiomicose e perda de habitat também a afeta localmente.

Curiosidades e confusões comuns

Muita gente confunde perereca-gritadeira com perereca-de-banheiro (Scinax fuscovarius), mas o canto da gritadeira é muito mais alto e áspero, e o porte é maior. Outra confusão é achar que toda perereca é venenosa — não é.

Um fato pouco conhecido é que Boana crepitans já foi considerada uma única espécie de ampla distribuição, mas estudos recentes indicam que se trata de um complexo de espécies crípticas. Populações do Nordeste podem representar linhagens diferentes ainda em revisão taxonômica.

Durante a seca na Caatinga, ela pode permanecer semanas abrigada em locais úmidos, reduzindo o metabolismo para economizar água — estratégia rara entre hilídeos tão ligados a áreas abertas.

Perguntas frequentes

Perereca-gritadeira é réptil ou anfíbio?

É anfíbio da ordem Anura, família Hylidae. Tem pele úmida e permeável, depende da água para reproduzir e passa por metamorfose de girino a adulto, diferente dos répteis que têm pele com escamas.

Perereca-gritadeira é venenosa?

Não é peçonhenta. Tem apenas secreção cutânea levemente irritante que pode arder em contato com olhos ou boca, mas não oferece risco grave para humanos.

É perigosa para cachorro e gato?

O risco é baixo. Se o pet morder, pode ter salivação e vômito passageiro por irritação. Lave a boca do animal com água e observe; diferente do sapo-cururu, não causa envenenamento letal.

Por que ela grita tão alto?

O canto alto dos machos serve para atrair fêmeas e marcar território. Em coro, o som se amplifica e pode ser ouvido a centenas de metros nas noites chuvosas.

Onde a perereca-gritadeira vive?

Em poças temporárias, brejos e áreas abertas da Caatinga, Cerrado e bordas de Mata Atlântica, do Nordeste ao Sudeste do Brasil, incluindo quintais e áreas urbanas.

Posso criar perereca-gritadeira em casa?

Não. Capturar animais silvestres é crime ambiental e a espécie exige umidade, temperatura e alimentação com insetos vivos que são difíceis de manter. A criação legal só seria possível com origem em criadouro autorizado pelo IBAMA, o que não existe para esta espécie.

Quanto tempo vive uma perereca-gritadeira?

De 4 a 6 anos na natureza. A maior mortalidade ocorre na fase de ovo e girino, quando poças secam antes da metamorfose.

Você sabia?

1

Canto que atravessa bairros

O coro de machos pode ser ouvido a até 500 metros e, em noites úmidas, um único macho canta mais de 2.000 vezes por noite para atrair fêmeas.

2

Complexo de espécies escondido

O que chamamos de Boana crepitans na verdade é um complexo de espécies crípticas; pesquisas genéticas indicam que populações do Brasil podem ser espécies diferentes ainda não descritas.

3

Sobrevivente da Caatinga

Na estação seca, ela se refugia em bromélias, ocos de árvore e frestas úmidas, ficando quase inativa por semanas até a próxima chuva forte.

4

Girino que compete contra o tempo

Se a poça temporária seca antes de 45 dias, todos os girinos morrem; por isso a espécie prefere poças que duram pelo menos dois meses após as primeiras chuvas.

Fontes

  1. IUCN Red List - Boana crepitans
  2. AmphibiaWeb - Boana crepitans
  3. Sociedade Brasileira de Herpetologia
  4. ICMBio - Avaliação de Anfíbios

Prós e contras: Perereca-gritadeira

Prós

  • Controle natural de mosquitos e outros insetos
  • Bioindicadora de qualidade da água e do ambiente
  • Canto característico que facilita identificação no campo
  • Alta adaptabilidade, ocorre até em áreas urbanas
  • Inofensiva para humanos quando apenas observada

Contras

  • Muito sensível à poluição e ao ressecamento da pele
  • Canto alto à noite pode incomodar moradores próximos a brejos
  • Não pode ser criada legalmente como pet no Brasil
  • Dependente de poças temporárias que estão sendo drenadas
  • Manuseio causa estresse e remove muco protetor da pele
Nossa opinião

Na nossa avaliação, a perereca-gritadeira é o melhor exemplo de anfíbio adaptável do Brasil: prova que nem todo anfíbio precisa de mata intacta para sobreviver, mas também mostra o limite dessa tolerância quando a água é poluída. Vale mais ouvi-la no quintal do que tentar criá-la em casa.

Continue explorando: Répteis e Anfíbios